HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO
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Qual será nº de infectados por coronavírus nos próximos meses? Especialistas veem cálculo difícil

Incerteza sobre comportamento da doença ainda dificultar projetar cenários; fatores sociodemográficos podem afetar propagação

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 13h48
Atualizado 13 de março de 2020 | 17h15

Diante do aumento de casos do novo coronavírus pelo mundo, parte dos cientistas tem feito projeções de cenários sobre o número de infectados e avanço do surto por mais regiões. Especialistas, no entanto, ponderam que estimativas desse tipo têm limitações. O Centro de Contingência para o Coronavírus do governo de São Paulo, por exemplo, projeta para os próximos meses ao menos 460 mil infectados pela covid-19 no Estado, contando os casos assintomáticos.

“Projeções de médio e longo prazo podem servir como análise de cenário, caso nada seja feito tanto no País quanto fora. Mas tem por base a premissa de que o Brasil seguirá padrão similar ao de outros países, o que não necessariamente é verdade. Fatores sociodemográficos podem afetar a dinâmica de propagação”, diz Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fiocruz.

Ele e outros especialistas participaram na semana passada de evento na Universidade Estadual Paulista (Unesp) para analisar como esses estudos ajudam a entender a doença. Os pesquisadores afirmaram na ocasião, e reafirmaram agora – tendo em vista a declaração da OMS de que estamos em meio a uma pandemia –, que ainda não é possível neste momento fazer projeções específicas de qual parcela da população, mundial ou de países, pode ser afetada pela doença, apesar de várias declarações estarem sendo feitas com esse tipo de projeção.

Para Gomes, o risco de projeções é tirar o foco de decisões a tomar e há “enorme incerteza associada”.

Os pesquisadores em geral estimam que haverá crescimento nas próximas semanas e meses, mas não se arriscaram a traçar números. Os modelos em geral são na linha de: "e se?". Se x% da população for infectada, como o sistema vai reagir. E se for y%? Assim por diante. E para todos os cenários são pensadas estratégias de intervenção e como é possível reduzir a dispersão.

“Projeções de nossos modelos são de que casos continuarão aumentando, principalmente fora da China", disse ao Estado a matemática Sara Del Valle, do Laboratório Nacional Los Alamos, especialista em modelagem de doenças infecciosas do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos. 

"Mudanças no comportamento são cruciais para reduzir a carga geral para o sistema de saúde, achatando a curva da epidemia. No entanto, é muito importante que todos sejam proativos em relação à mudança de comportamento, como lavar as mãos, não tocar o rosto, ficar em casa se estiver doente, caso contrário podemos sobrecarregar o sistema de saúde", alerta.

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Como a doença ainda está em curso, muitos fatores são desconhecidos, principalmente qual a porcentagem de casos que pode ser assintomática e qual a capacidade de transmissão da doença que esses casos têm. A covid-19 também tem se desenvolvido de formas diferentes em vários países, e isso depende muito da faixa etária da população, da capacidade de testagem e de assistência dos pacientes e também do comportamento da população. 

Dois dos países com mais casos de coronavírus depois da China, por exemplo, apresentam taxas de mortalidade discrepantes. A letalidade da doença na Itália é mais de 8 vezes a observada na Coreia do Sul. Enquanto no país europeu já morreram 6,21% das pessoas confirmadas com a covid-19, no asiático, a porcentagem de óbitos foi de 0,7%, segundo dados divulgados pelos departamentos de saúde dos dois países.  

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