Bruno Kelly/Reuters
Bruno Kelly/Reuters

Qualquer outro nome para a variante do vírus… por favor

As convenções para dar nomes a vírus funcionariam, contanto que as variantes continuassem sendo tópicos de pesquisa avançada; os nomes se fazem necessários, mas sem estigmatizar pessoas ou lugares associados a eles

Apoorva Mandavilli e Benjamin Mueller, The New York Times

04 de março de 2021 | 20h00

Os nomes que os cientistas propuseram para a nova variante de coronavírus identificada na África do Sul são um encanto. As complexas séries de letras, números e pontos podem significar tudo para os cientistas que as conceberam, mas como qualquer outra pessoa poderia acompanhar a sua lógica? Mesmo o nome mais fácil de lembrar, B.1.351, pode se referir a uma cepa completamente diferente de vírus se um ponto sequer estiver faltando ou fora do lugar.

As convenções para dar nomes a vírus funcionariam, contanto que as variantes continuassem sendo tópicos de pesquisa avançada. Mas agora essas cepas se tornaram fonte de ansiedade para bilhões de pessoas. E os nomes se fazem necessários, mas sem estigmatizar pessoas ou lugares associados a eles.

“É desafiador pensar em nomes que sejam distinguíveis, informativos, não envolvam referências geográficas e sejam pronunciáveis e memorizáveis”, afirmou Emma Hodcroft, pesquisadora de biologia molecular em saúde pública da Universidade de Berna, na Suíça. “Concentrar e comunicar toda essa informação parece simples, mas, na realidade, é um desafio enorme.”

A solução, afirmaram ela e outros especialistas, é criar um sistema unificado, que qualquer um seja capaz de entender, mas que dialogue com sistemas mais técnicos, usados pelos cientistas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) criou um grupo de trabalho com dezenas de especialistas para elaborar uma maneira objetiva e escalonável para essa sistematização.

“Esse novo sistema vai designar as variantes mais preocupantes com nomes fáceis de pronunciar e de memorizar - e também minimizará efeitos negativos desnecessários para países, economias e povos”, afirmou a OMS em um comunicado. “A proposta para esse mecanismo está atualmente sob análise de parceiros internos e externos, antes da finalização.”

De acordo com dois integrantes do grupo de trabalho, a escolha da OMS até agora é das mais simples: numerar as variantes na ordem em que foram identificadas - V1, V2, V3 e assim por diante.

“Existem milhares e milhares de variantes, e precisamos de uma maneira de rotulá-las”, afirmou Trevor Bedford, biólogo evolutivo do Centro de Pesquisa em Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, e integrante do grupo de trabalho.

Dar nome a doenças nem sempre foi tão complicado. Sífilis, por exemplo, é um termo retirado de um poema de 1530,  no qual um pastor, Syphilus, é amaldiçoado pelo deus Apolo. Mas o microscópio composto, inventado em torno de 1600, revelou um mundo oculto de micróbios, permitindo ao cientistas batizá-los a partir de seus formatos, afirmou Richard Barnett, historiador da ciência do Reino Unido.

Ainda assim, racismos e imperialismos contaminaram os nomes das enfermidades. Nos anos 1800, enquanto o cólera se espalhava do subcontinente indiano para a Europa, jornais britânicos chamavam a doença de “cólera indiano”, retratando-a como uma figura vestida com turbante e túnica.

“Designar nomes pode frequentemente refletir um estigma e ampliá-lo”, afirmou Barnett.

Em 2015, a OMS anunciou as práticas recomendadas para dar nome a doenças: evitar regiões geográficas ou nomes de pessoas, espécies de animais ou de comida, assim como termos que provoquem medos desnecessários, como “fatal” e “epidêmico”.

Os cientistas utilizam atualmente pelo menos três diferentes sistemas de nomenclatura - Gisaid, Pango e Nextstrain - cada um deles faz sentido dentro de seu próprio universo.

“Você pode detectar algo que não é capaz nomear”, afirmou Oliver Pybus, biólogo evolutivo de Oxford que ajudou a elaborar o sistema Pango.

Cientistas batizam variantes quando as mudanças genômicas coincidem com novos surtos, mas chamam a atenção para elas somente quando há mudanças em seu comportamento - se, por exemplo, são mais facilmente transmissíveis (como a B.1.1.7, a primeira variante encontrada no Reino Unido), ou se evitam, mesmo que em parte, respostas imunológicas (como a B.1.351, a variante detectada na África do Sul).

Letras e números associados codificam pistas da ancestralidade da variante. “B.1”, por exemplo, denota que essas variantes estão relacionadas com o surto na Itália, da última primavera. (Uma vez que a hierarquia das variantes se estende demais para acomodar outro número e ponto, as variantes seguintes recebem a próxima letra em ordem alfabética).

Mas, quando cientistas anunciaram que uma variante chamada B.1.315 - com dois dígitos semelhantes ao da variante detectada originalmente na África do Sul - estava se espalhando pelos Estados Unidos, o ministro da saúde sul-africano “ficou bastante confuso” entre aquela variante e a B.1.351 original, afirmou Tulio de Oliveira, geneticista da Escola de Medicina Nelson Mandela, em Durban, e integrante do grupo de trabalho da OMS.

“Temos de criar um sistema que não seja compreendido apenas por biólogos evolutivos”, afirmou ele.

Sem alternativas simples à mão, as pessoas passaram a chamar a B.1.351 de “ variante sul-africana”. Mas Oliveira pediu aos seus colegas que evitassem o termo (não é preciso olhar além das origens desse mesmo vírus: chamá-lo de “vírus chinês” ou “vírus de Wuhan” alimentou xenofobia e ódio contra pessoas de ascendência oriental em todo o mundo).

Os possíveis danos são graves o suficiente para dissuadir alguns países de vir a público revelar a ocorrência de algum patógeno detectado dentro de suas fronteiras. Nomes geográficos também se tornam obsoletos rapidamente: a B.1.351 está atualmente em 48 países, então, chamá-la de variante sul-africana é absurdo, acrescentou Oliveira.

E essa prática pode distorcer o dado científico. Não está completamente claro se a variante B.1.351 surgiu na África do Sul: ela foi identificada no país, em grande parte graças ao empenho dos cientistas sul-africanos, mas qualificá-la como a variante daquele país poderia fazer outros pesquisadores ignorarem o possível caminho dessa cepa, desviando de outros países que sequenciam menos genomas de coronavírus.

O sistema de numeração da OMS é ponderado e objetivo. Mas qualquer novo nome terá de superar a facilidade e a simplicidade das rotulações geográficas entre o público em geral. E os cientistas terão de acertar o equilíbrio entre batizar uma variante rapidamente o suficiente para evitar os nomes geográficos e com cautela o suficiente para não acabar dando nomes a variantes insignificantes.

“O que não quero é um sistema em que temos uma' longa lista de variantes com todos os nomes da OMS, quando, na realidade, somente três delas são importantes, não as outras 17”, afirmou Bedford. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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