Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

‘Quando o chefe decide, o subordinado cumpre’, diz Bolsonaro sobre Pazuello em entrevista

Presidente disse que houve precipitação, mas que o ministro da Saúde permanecerá no cargo

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 09h24

Após cancelar o protocolo de intenções anunciado pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para a compra de 46 milhões de doses da Coronavac, o presidente Jair Bolsonaro declarou em entrevista à rádio Jovem Pan na noite desta quarta-feira, 21, que, por serem militares, ele e Pazuello sabem que “quando o chefe decide, o subordinado cumpre”. 

“No meu entender, houve certa precipitação em assinar esse protocolo. Eu devia ser informado de uma decisão tão importante”, disse Bolsonaro, que afirmou não ter “problema nenhum” com Pazuello. Mesmo considerando a assinatura da carta de intenção precipitada, Bolsonaro afirmou que Pazuello continuará no cargo. “É um dos melhores ministros da Saúde que o Brasil teve nos últimos anos”. 

A Coronavac é desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantã e se tornou tema de debate entre Bolsonaro e João Doria (PSDB), após o governador de São Paulo anunciar que a vacinação será obrigatória no Estado. O presidente reagiu à declaração e disse que o Ministério da Saúde não iria impor a vacinação. 

Nesta quarta-feira, 21,  após o ministro Pazuello declarar em reunião por videoconferência com governadores no dia anterior a intenção de compra das 46 milhões de doses, o presidente respondeu a comentários no Facebook e disse que a Coronavac, a qual se referiu como “a vacina chinesa de João Doria”, não será comprada pelo governo federal. Ele chegou a dizer que "qualquer coisa publicada, sem qualquer comprovação, vira traição”. Mais tarde, em outra publicação, Bolsonaro disse que o povo brasileiro “não será cobaia da vacina chinesa”. 

Questionado durante a entrevista à Jovem Pan sobre a decisão de “cancelar” a intenção de aquisição das doses, Bolsonaro disse não acreditar que o imunizante transmita segurança e credibilidade suficiente à população pela sua origem e reforçou que o governo não irá adquirir a vacina mesmo se for aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Da China nós não compraríamos, é decisão minha.” Ele disse ainda que “já existe um descrédito muito grande por parte da população (sobre a Coronavac), até porque como muitos dizem esse vírus teria nascido lá (na China).”

Ainda na entrevista, o presidente classificou a posição do governador João Doria como “ditatorial” e disse que não tomará a Coronavac: “Não interessa se tem uma ordem seja de quem for aqui no Brasil para tomar, eu não vou tomar.”

Como mostrou o Estadão, o acordo para a compra de 46 milhões de doses não durou 24 horas porque o presidente Jair Bolsonaro ficou inconformado com o palanque dado à Doria. A nacionalidade e o domicílio eleitoral da vacina acabaram ressuscitando a ala ideológica do governo, que atacou a iniciativa tomada com aval dos generais. Sob pressão, Bolsonaro decidiu recuar, barrando o acordo que dava protagonismo a Doria.

Nos bastidores, Bolsonaro avaliou que o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello – diagnosticado com coronavírus – se precipitou e não soube explicar, após reunião virtual com governadores, nesta terça-feira, 20, que uma eventual compra da vacina, seja ela qual for, ocorrerá somente após a  aprovação da Anvisa. Nas redes sociais, porém, apoiadores de Bolsonaro bombardearam o acordo com São Paulo,  estabelecido após vários embates entre o presidente, que é candidato à reeleição em 2022, e Doria, hoje seu principal adversário.

Não é de hoje que Bolsonaro vem sendo aconselhado a aceitar a vacina da farmacêutica chinesa Sinovac, que será produzida pelo Instituto Butantã e incorporada ao Programa Nacional de Imunizações. Na última quarta-feira, dia 14, Bolsonaro bateu o martelo e, numa reunião com Pazuello, deu aval para que ele continuasse as tratativas com o Instituto Butantã para o protocolo de intenção da compra de doses da vacina. Mudou de posição, no entanto, com a repercussão negativa entre seus apoiadores e foi para a as redes sociais anunciar o cancelamento do acordo que, segundo ele, nunca existiu.

“Nossa vacina”

Ao falar sobre a expectativa para distribuição de outras vacinas no País, Bolsonaro afirmou que acredita que “teremos vacina de outro país, até mesmo a nossa, que vai transmitir confiança à população.” Ele mencionou o aporte de quase R$ 2 bilhões de reais para a vacina de Oxford/AstraZeneca, que já tem acordo com o governo federal, e a “nossa, que estamos estudando no Butantã”. 

A vacina do Butantã é a Coronavac, a mesma que o presidente declarou que não irá tomar. O acordo entre a farmacêutica chinesa Sinovac e o Instituto Butantã contempla a transferência de tecnologia da vacina que poderá ser produzida integralmente no Butantã. 

Morte de voluntário 

Sobre a morte do voluntário brasileiro que fazia parte dos testes para a vacina de Oxford, o presidente disse ainda não saber se a causa da morte está relacionada à vacina. “Obviamente acende a luz amarela. Se for comprovado que foi um efeito colateral da vacina, volta quase à estaca zero o estudo da vacina. Tudo é possível.”. A AstraZeneca não divulgou se o homem estava no grupo dos indivíduos que receberam o imunizante ou o placebo, mas fonte envolvida no estudo afirmou ao Estadão que a vítima fazia parte do segundo grupo.

Vacinação “a toque de caixa”

“Temos eleições agora, daqui a poucos dias, há uma tentativa de explorar politicamente isso”. Segundo Bolsonaro, qualquer programação de vacinação no momento “é inoportuna e não age com a boa técnica.” Ele disse ainda que a vacinação “não vai ser a toque de caixa como alguns querem”, sem citar nomes. 

O presidente reforçou que não há indícios de quando os estudos das possíveis vacinas serão finalizados e que, por isso, não se pode “precipitar e partir para propostas e anúncios, e cada um querer achar que ele que está preocupado com a vida do próximo, e não o outro que está do outro lado da linha”. 

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