Quando o pensamento, acelerado, atropela a saúde

Olhar de dois em dois minutos para o relógio, ficar sentado ao lado do telefone esperando que ele toque, roer todas as unhas das mãos, suar frio e respirar de forma acelerada. Caso já tenha passado por alguma dessas situações, cuidado. Você pode estar sofrendo de ansiedade, um problema que, de acordo com estudos psiquiátricos, atinge cerca de 33% da população mundial. Segundo Marcelo Feijó Mello, psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a ansiedade é um estado de humor desconfortável. "A pessoa sente constantemente uma apreensão negativa em relação ao futuro, resultando numa inquietação interna desagradável", ensina. O médico explica que o problema pode ser fisiológico - quando algo precisa ser decidido de forma rápida e causa uma certa agitação - ou patológico - quando esse tipo de excitação está presente em situações que não justifiquem a sua ativação. O sistema nervoso central e a mente necessitam, juntos, de uma situação de conforto para usufruir da sensação de bem-estar. Quando a percepção alerta para algo que seja perigoso, prontamente acontece o estado ansioso. A perda de algo que lhe satisfaz, em muitos casos, aumenta as chances de aparecimento do estado ansioso. Caso esteja desequilibrado emocionalmente, por exemplo, o simples contato com algo desconhecido torna-se suficiente para disparar estados ansiosos. "As pessoas, independentemente da idade, se sentem atraídas pela interpretação catastrófica das coisas e, por isso, a ansiedade adverte sobre o perigo que nos espreita. Ela pode ter a função de proteção", revela Ana Carolina Kley, psicóloga da Clínica Flor de Lótus. Para ela, esse problema bloqueia a ação, o planejamento e a realização das tarefas. Ao mesmo tempo, ajuda a ver o que poderia não dar certo, auxiliando a pessoa a adaptar e a melhorar as ações nos próximos obstáculos. "É o lado positivo e produtivo da ansiedade." Descontrole - Uma das principais características psíquicas da ansiedade é a excitação que acelera o pensamento, como se a pessoa quisesse se livrar de algo imediatamente. Tudo isso por meio de planos mirabolantes que, muitas vezes, não funcionam. Nesta hora acontece uma confusão mental, pois perde-se a noção da situação e o perigo parece aumentar. Quanto maior a sensação de incapacidade ou passividade para lidar de forma benéfica com os desafios e perigos da vida, sejam eles quais forem, e o sentimento de ameaça que os obstáculos impõem, maior a probabilidade de surgir a ansiedade. "Diante de um problema, uma pessoa pode ficar extremamente ansiosa e outra pode encarar tranqüilamente o desafio. Tudo depende do quanto ela confia em si para lidar com aquilo e, também, de como ela interpreta a situação", afirma a psicóloga. Este desconforto de receio e medo, normalmente acompanhado de sinais corporais como a tensão, o frio na barriga, taquicardia, sudorese e respiração acelerada, pode provocar três distúrbios: síndrome do pânico, fobia e obsessão. Além disso, existem escalas específicas do problema, que podem quantificar a ansiedade. Em geral podemos classificá-las em escala leve, moderada e grave, levando-se em conta o número de sintomas. Tratamento - "Na maioria das vezes, os tratamentos são técnicas de relaxamento, exercícios que levam ao controle da atividade do organismo, como meditação e ioga. Outras medidas como o sono saudável e atividades prazerosas também funcionam", diz Mello. Fora isso, existem as terapias cognitiva, comportamental e a interpessoal. Todas, de acordo com o psiquiatra, são comprovadas cientificamente e têm altos índices de melhora dos sintomas. Para Mello, as terapias tradicionais podem indiretamente melhorar a ansiedade por meio do autoconhecimento, mas são pouco efetivas em curto e médio prazo. "Também existem medicamentos comprovadamente eficazes no tratamento dos transtornos de ansiedade, principalmente os antidepressivos e os ansiolíticos", conclui o psiquiatra. Puja Punita, professora de ioga e massagem ayurvédica, avisa que a união de massagens com óleos aromaterapêuticos é uma boa alternativa para aliviar os sintomas da ansiedade. "Esse tipo de tratamento, feito duas vezes por semana, faz com que o padrão respiratório sofra mudanças positivas, expandindo a respiração, melhorando a saúde do corpo e as dores na coluna. Dessa forma, ficamos sem dor e conseguimos enxergar a beleza da vida", finaliza. Relaxamento - Segundo Punita, quanto maior o índice de energia gasta, mais relaxado o corpo fica. Por isso, para quem sofre de ansiedade, dar uma voltinha no parque, correr (sem desespero, claro), relaxar e meditar são algumas das opções que ajudam a eliminar o problema. "Fazer boxe ajuda a extravasar a raiva concentrada", ensina. Se você não gosta de esportes radicais, confira outras opções indicadas pela profissional e escolha qual tem mais a ver com o seu estilo. Só não vale ficar parado. Ao que tudo indica, a ordem é movimentar o corpo. Massagem - Na cultura oriental, esse tipo de técnica faz parte do cotidiano e até dos tratamentos médicos. No Brasil, infelizmente, por alguns anos a aplicação ficou restrita ao dia-a-dia dos esportistas. Hoje, muito valorizada, a massagem é ideal para modificar positivamente o padrão respiratório, a saúde do corpo e as dores na coluna. É preciso ter cuidado e procurar profissionais adequados para aplicar a técnica. Meditação - O primeiro objetivo da meditação é que o praticante se torne consciente e se familiarize com a sua vida interior. O objetivo final é alcançar a fonte da consciência. Por meio desta técnica, com o tempo, é possível descobrir como funcionam as suas emoções e os desejos que o seu corpo sinaliza. Assim, será mais fácil lidar com determinadas situações, principalmente quando acredita-se que tudo está perdido. Ioga - Apesar de parecer uma técnica suave, a ioga exige um trabalho intenso de respiração e exercícios fortes, buscando a união entre a mente e o corpo, lidando com os aspectos físicos, emocionais e espirituais. Segundo especialistas, esse tipo de exercício não traz bem-estar apenas ao corpo, mas indica caminhos para quem o pratica. A respiração é uma forte aliada e deve ser seguida à risca. Corrida - Dar uma volta no parque e respirar ar puro é uma boa alternativa para quem não gosta de fazer exercícios em locais fechados. Para quem pretende correr, é importante alongar-se antes de iniciar a atividade, escolher um tênis apropriado para esse tipo de esporte e beber muita água. No começo, não se deve exagerar na dose e fazer distâncias curtas. O percurso deve ser aumentado gradativamente.

Agencia Estado,

18 de setembro de 2006 | 14h24

Tudo o que sabemos sobre:
especiais

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.