Arquivo Pessoal
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‘Quando o Samu chegou, ele já tinha morrido. Nós, também infectados, não podemos receber um abraço'

Parente de vítima da covid-19 no Rio Grande do Sul, Estado que enfrenta pico do coronavírus, relata piora no quadro do cunhado. Família contraiu a doença e teve de permanecer isolada

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2021 | 15h00

Depoimento de Maira Barbon, de 33 anos, cunhada de Adilmar Ivandro da Rosa, de 46, que morreu em Boqueirão do Leão, no Rio Grande do Sul, em fevereiro de 2021 à espera de vaga. 

"Ele testou positivo na quinta-feira (18 de fevereiro), começou a ficar com uma tosse muito feia. Na sexta, teve piora na saturação e aí começou a busca por um leito de UTI. Ficamos desde o meio-dia procurando. Na madrugada do dia 20, apareceu um leito em Lajeado (a 75 km de Boqueirão do Leão, no Rio Grande do Sul, que mantém todas as suas regiões em alerta máximo em razão do avanço da doença), mas ele já não estava bem, com saturação em queda. O médico decidiu fazer uma pré-entubação, mas não conseguiram. Entupiu a mangueira e teve complicações. 

Meu marido acompanhou tudo, ajudou a bombear a máquina, porque a enfermeira cansou. Como o Adilmar era deficiente, e meu marido também estava positivo, ele pode ficar com o irmão. Acabou ajudando a equipe. Nosso hospital (Hospital Dr. Anuar Elias Aesse) é pequeno, mas a equipe foi maravilhosa, todos trabalharam muito, fizeram o que foi possível. 

Quando retiraram a entubação que não deu certo, a saturação caiu mais ainda. A ambulância que iria levar ele para UTI já tinha saído de Lajeado. Estávamos só esperando, mas ele não resistiu, deu uma parada cardiorrespiratória e morreu 30 minutos antes deles chegarem. O mais triste foi quando o Samu chegou, ele já tinha morrido. Eles deram meia-volta e foram embora. 

Morávamos em cinco, eu (Maira Barbon), meu marido e irmão do Adilmar (André Luís da Rosa), minha sogra (Diva Maria da Rosa, de 65 anos) e minha filha de cinco anos. Minha sogra foi a primeira a contrair o vírus e, quando o Adilmar se foi, estávamos todos infectados. Ficamos todos esses dias isolados, sem poder receber um abraço dos amigos e parentes, hoje (domingo, 28 de fevereiro) é o último dia de isolamento e estamos todos bem. 

O Adilmar teve paralisia infantil, usava fraldas, e como precisava muito de cuidados, achamos que foi aí que ele contraiu o vírus. No último dia, ele pedia para ver a sobrinha, por isso fomos ao hospital, para ele ver minha filha quando fosse transferido para UTI. Mas isso não aconteceu. /Depoimento a Fábio Bispo, especial para o Estadão

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