REMO CASILLI / REUTERS
REMO CASILLI / REUTERS

Quando podemos voltar para a escola? Quase 300 milhões de crianças vêm perdendo aula

Epidemia de coronavírus deixa alunos fora da escola em 22 países de três continentes

Vivian Wang e Makiko Inoue, The New York Times

05 de março de 2020 | 11h50

HONG KONG — A epidemia de coronavírus afetou profundamente a vida cotidiana em todo o mundo, com a suspensão na quarta-feira das aulas em todas as escolas na Itália e alertas de fechamentos de instituições de ensino nos Estados Unidos, aumentando os transtornos para quase 300 milhões de alunos em todo o globo.

Há algumas semanas, a China, onde teve início a epidemia, era o único país a suspender as aulas. Mas o vírus se propagou de maneira tão rápida que, na quarta-feira, 22 países nos três continentes anunciaram o fechamento de escolas de vários graus, levando os Estados Unidos a alertarem que “a escala global e a velocidade da atual interrupção do ensino não tem paralelos”.

Escolas foram fechadas na Coreia do Sul, Irã, Japão, França, Paquistão e em outros lugares – algumas por apenas alguns dias, outras semanas a fio. Na Itália, que enfrenta um dos surtos mais mortais fora da China, as autoridades anunciaram que os fechamentos das escolas ocorrerão, além da região norte do país, onde diversas cidades foram isoladas, na nação inteira. Todas as escolas e universidades permanecerão fechadas até 15 de março.

Na Costa Oeste dos Estados Unidos, região com maior número de infectados até agora, Los Angeles declarou estado de emergência na quarta-feira, avisando os pais para se prepararem para fechamentos de escolas neste que é o segundo maior distrito escolar do país. No Estado de Washington, que reportou pelo menos 10 mortes em decorrência da epidemia de coronavírus, escolas também foram fechadas, ao passo que do outro lado do país, em Nova York, casos diagnosticados recentemente levaram à suspensão das aulas em várias instituições.

A velocidade e a escala desse tumulto no campo educacional – afetando agora 290,5 milhões de alunos em todo o mundo, segundo as Nações Unidas – não tem paralelos na história moderna, afirmam educadores e economistas. As escolas fornecem estrutura e apoio para famílias, comunidades e economias inteiras. O efeito do fechamento das instituições de ensino durante dias, semanas, e às vezes meses, terá repercussões incalculáveis para as crianças e as sociedades em geral.

“Eles sempre perguntam, ‘quando podemos sair para brincar? Quando vamos voltar para a escola?’”, lamentou Gao Mengxian, que trabalha como segurança em Hong Kong e cujos filhos estão presos em casa porque as aulas estão suspensas desde janeiro.

Em alguns países, alunos mais velhos têm perdido aulas cruciais para seus exames de entrada na faculdade, ao passo que os mais novos correm o risco de ficarem atrasados em matérias como leitura e matemática. Os pais perdem salários, tentam trabalhar em casa ou lutam para encontrar uma creche. Alguns mudaram os filhos para escolas em áreas não atingidas pelo vírus e perderam eventos importantes como cerimônias de graduação ou festividades que marcam o fim do ano escolar.

“Não tenho dados a fornecer, mas não encontro nenhum exemplo na história moderna em que economias avançadas fecham as escolas de todo o país, e por períodos prolongados”, afirmou Jacob Kirkegaard, membro do Peterson Institute for International Economics em Washington.

Mas a pressão é generalizada, atingindo segmentos da sociedade que aparentemente não têm nada a ver com a educação. No Japão, as escolas cancelaram encomendas de almoços que são fornecidos aos alunos, já que não serão servidos, afetando a atividade de agricultores e fornecedores. 

Em Hong Kong, um exército de empregados domésticos acabou ficando sem emprego depois que famílias ricas decidiram matricular os filhos em escolas no exterior.

Julia Bossard, de 39 anos, é mãe de duas crianças e vive na França. Ela disse que foi forçada a rever toda a rotina da família depois que a escola do filho mais velho foi fechada por duas semanas para desinfecção. Julia agora passa os dias ajudando os filhos com as lições de casa e pesquisando todos os supermercados em busca de massas, arroz e carne enlatada, produtos que desaparecem rapidamente das prateleiras. “Temos de nos reorganizar”, disse. 

Online e sozinhos

Autoridades de governo e escolares estão fazendo o máximo que podem para manter as crianças estudando – e ocupadas – em casa. O governo italiano criou uma página na Internet para dar aos professores acesso a instrumentos de videoconferência e programas de aula já prontos. Emissoras de TV na Mongólia passaram a transmitir aulas e o governo do Irã fornece de graça todo o conteúdo das aulas para os alunos.

Mesmo a educação física é afetada: pelo menos uma escola em Hong Kong exige que os alunos – em uniformes de ginástica – acompanhem as instruções de um professor, fazendo exercícios como flexões de braços, com as webcams dos alunos ligadas.

A realidade offline do aprendizado online, porém, é complicado. Existem obstáculos tecnológicos, como também distrações inevitáveis que surgem quando crianças e adolescentes são deixados à vontade com seus aparelhos.

Algumas interrupções são inevitáveis. Postagens nas redes sociais chinesa mostram professores e alunos subindo em telhados ou dando voltas em torno da casa de vizinhos em busca de um sinal de Internet mais forte. Uma família na Mongólia empacotou sua tenda e migrou para outro lugar nas pradarias em busca de um sinal melhor de Internet, conforme reportou uma revista chinesa.

Os fechamentos também alteraram datas importantes no campo do ensino. No Japão, o ano escolar normalmente termina em março. Muitas escolas agora desmarcaram as cerimônias marcando o fim do ano escolar.

Quando o filho de Satoko Morita se formou na escola secundária em Akita, ao norte do Japão, em primeiro de março, ela não estava presente. E sucederá o mesmo no caso da formatura da sua filha. “Minha filha me perguntou, ‘para que participar e proferir discursos sem a presença dos pais?’”, reproduziu Satoko.

Para Chloe Lau, estudante em Hong Kong, o fim do ano escolar na instituição onde estuda foi abrupto por causa dos fechamentos. Seu último dia de aula seria em 2 de abril, mas as escolas só voltarão às atividades depois do dia 20 do mês.

Um fardo para as mulheres

Com os fechamentos das escolas, as famílias têm de repensar como se apoiar e dividir as responsabilidades domésticas. A carga maior cai sobre as mulheres que, em todo o mundo, ainda são quase totalmente responsáveis pelos cuidados dos filhos.

Baby-sitters são poucas ou receiam cuidar de crianças nas regiões muito afetadas pelo coronavírus. E onde os sistemas de assistência social são escassos, as opções para as mães são ainda mais limitadas.

Em Atenas, na Grécia, Anastasia Moschos disse que teve sorte. Depois que a escola de sua filha de seis anos foi fechada por uma semana, Anastasia, que é corretora de seguros, deixou o filho com o pai dela, que estava de visita, enquanto ia trabalhar. Mas se as escolas continuarem fechadas por mais tempo, talvez ela venha a ter dificuldade para encontrar ajuda. “Somos uma comunidade onde normalmente existe um avô ou uma avó que pode cuidar de uma criança. Supõe-se que todos têm alguém que auxilie. Não é o meu caso. Sou mãe solteira e não tenho ajuda em casa”.

Além da sala de aula

A epidemia desestabilizou setores e empresas inteiros que dependem dos rituais da ida das crianças para a escola e os pais para o trabalho.

Diretores escolares no Japão foram pegos desprevenidos pela decisão brusca do governo de fechar as escolas e tiveram de cancelar às pressas as encomendas de lanches e almoços para os alunos, deixando os fornecedores com pilhas de produtos alimentícios indesejados e empregados temporariamente desnecessários.

Kazuo Tanaka, vice-diretor do Yachimata School Lunch Center, disse que precisou cancelar pedidos de ingredientes para cinco mil almoços que seriam distribuídos para 13 escolas. O que custará ao centro a soma de US$ 200.000 a cada mês em que a escola ficar fechada.

“As padarias sofreram um golpe”, disse Yuzo Kojima. “Os produtores de leite e os agricultores serão muito afetados. Os empregados nos centros encarregados da alimentação escolar não podem trabalhar”. / Tradução de Terezinha Martino.

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