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Quanto mais bizarro, melhor

Quanto mais radicais suas postagens, mais aguerridos se tornam seus apoiadores

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2019 | 03h00

Há certas atitudes que, uma vez assumidas por nós, interferem em nossa opinião e comportamento futuro. Um exemplo famoso é o da Zappos, gigante do comércio eletrônico de calçados. A taxa de turnover de funcionários cai desde a fundação, e seus funcionários empolgados vivem elogiando-a nas redes sociais. 

O truque é muito interessante: focada obsessivamente na satisfação do cliente, ela depende de gente disposta a trabalhar duro para resolver do melhor modo possível os inevitáveis problemas que surgem das milhares de vendas diárias. Mas ninguém começa a trabalhar ali enganado – durante as primeiras quatro semanas, os funcionários são treinados de forma imersiva para saber bem onde estão entrando. Ao fim do período, recebem uma oferta: se pedirem demissão, além do salário do mês, receberão um bônus de US$ 2 mil por se demitir. 

A estratégia funciona de duas formas. A primeira é que, logo de saída, elimina quem tem dúvidas se têm o perfil para aquele trabalho. Às vezes ficamos hesitantes em um emprego novo, mas deixamos rolar para ver onde vai – essa oferta acaba com a dúvida.

A segunda forma com que essa técnica funciona é gerar dissonância cognitiva em quem fica. A pessoa que recusa US$ 2 mil para pedir demissão inconscientemente acaba se convencendo de que aquele trabalho é realmente muito bom, que compensou recusar a oferta. Esse mecanismo de dissonância cognitiva é mais forte do que imaginamos.

É um dos motivos pelos quais comecei a fazer exercício. Quando as comprovações científicas dos benefícios da atividade física aeróbia para a saúde mental começaram a se acumular, passei a prescrevê-la a todos os meus pacientes. Como à época eu só fazia pilates – e uma vez por semana –, sofria um desconforto psicológico ao discursar sobre a necessidade de se engajar em atividades que acelerassem o coração, quando eu mesmo não fazia isso. 

Resumo: comecei natação e não parei até hoje. E, depois desse artigo assumindo publicamente a atitude, fica ainda mais difícil parar – a dissonância entre o discurso e a prática seria maior, e, portanto, mais incômoda. Sabendo disso ou não, essa estratégia é adotada por políticos, sobretudo no clima de intensa polarização em que estamos. Ao escolher um lado – que se coloca como diametralmente oposto ao outro – damos voto de confiança a um discurso, proposta, querendo ou não sancionamos o pacote por completo. 

Por mais que não concordemos com tudo o que um candidato fala, não há voto com ressalvas. Quando ele é finalmente eleito, o fato de termos votado nele já é uma atitude capaz de criar certo nível de adesão condescendente – tende-se a desculpar suas faltas, minimizar alguns defeitos. Fazemos força por manter nossa autoimagem em alta conta, e não iremos aceitar assim fácil ter entrado numa barca furada.

Quando se passa à adesão pública, a dissonância cognitiva atinge outro nível. A partir do momento em que o sujeito se expõe diante dos amigos referendando as posturas e atitudes do político, fica mais difícil voltar atrás, e a pessoa se convence cada vez mais que está do lado certo.

Mas ao atingir o nível da bizarrice como fez nesse carnaval, o presidente Jair Bolsonaro elevou ao máximo esse efeito, e assim como faz a Zappo com seus funcionários, alcança com isso dois objetivos. Elimina de vez quem não está disposto a ir com ele até os limites do imaginável e ainda aumenta para níveis estratosféricos a adesão de quem ficou ao seu lado. A ginástica inconsciente que deve ser feita para alguém defender publicamente suas postagens no carnaval é irreversível – depois, essa pessoa o defenderá até a morte.

Quanto mais radicais suas postagens, mais aguerrido se torna o grupo de apoiadores. Mesmo que caiam em número, aumentam muito em força. Infelizmente essa pode ser estratégia eficiente para se eleger, mas é péssima para governar. Para isso é preciso construir pontes. E agir assim só faz queimá-las.

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