Taba Benedicto/Estadão - 09/03/22
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Quanto tempo dura a imunidade da covid-19? Uma segunda infecção será pior? Como posso me prevenir?

Muitas pessoas já estão relatando segundas, ou até terceiras, infecções com variantes mais novas

Knvul Sheikh, The New York Times

14 de junho de 2022 | 15h00

Se você é uma das milhões de pessoas que já contraíram a covid-19, você deve estar se perguntando por quanto tempo terá imunidade contra o novo coronavírus. No começo da pandemia, a maioria das pessoas consideravam que ser infectado tinha, pelo menos, uma vantagem: estar protegido contra futuras contaminações. Mas, à medida que a última onda se dirige para a região oeste do país (Estados Unidos) e o vírus não mostra sinais de arrefecimento, as reinfecções parecem ter se tornado mais comuns. Muitas pessoas já estão relatando segundas, ou até terceiras, infecções com variantes mais novas.

Especialistas alertam que a exposição ao coronavírus — tanto pela vacinação, quanto pela infecção — não significa que as pessoas estão completamente protegidas de futuras contaminações. Ao invés disso, o coronavírus está evoluindo para se comportar de forma semelhante a outros vírus que causam resfriados e infectam a população repetidamente ao longo da vida.

“Pensei, quase desde o começo da pandemia, que a covid-19 se tornaria uma infeção inevitável, na qual todos terão inúmeras vezes, porque é assim que um novo vírus respiratório se estabelece na população humana”, declarou Amesh Adalja, especialista em doenças infecciosas da Universidade Johns Hopkins.

Entretanto, o coronavírus não se encaixa ainda em padrões sazonais bem definidos, como outros vírus comuns de resfriado. A doença ainda pode causar sintomas que persistem por meses ou anos em algumas pessoas, e já ceifou a vida de outras milhares. Então, o que você pode fazer para se proteger, não somente da infecção, mas também de uma reinfecção? Fizemos estas mesmas perguntas para diferentes especialistas.

Quanto tempo minha imunidade vai durar depois de pegar covid-19?

Antes da variante Ômicron, as reinfecções eram raras. Uma equipe de cientistas, liderados pelo pesquisador em doenças infecciosas Laith Abu-Raddad, da Faculdade de Medicina de Weill Cornell, no Catar, estimou que uma contaminação da variante Delta ou uma cepa anterior de coronavírus foi aproximadamente 90% eficaz na prevenção de uma reinfecção em pessoas vacinadas e não vacinadas. “Mas a [variante] Ômicron realmente mudou esse cálculo”, disse Abu-Raddad.

Depois do surgimento da Ômicron, infecções anteriores só forneceram, aproximadamente, 50% de proteção contra a reinfecção, revelou o estudo de  Abu-Raddad.  O coronavírus acumulou tantas mutações na sua proteína Spike, que versões mais recentes se tornaram mais transmissíveis e mais capazes de escapar do sistema imunológico. O que significa que as pessoas podem contrair a versão da Ômicron depois de se recuperarem de um vírus mais antigo e que não seja da variante Ômicron. Inclusive, é possível até adoecer por contrair uma subvariante mais nova da Ômicron depois de pegar uma versão diferente dela.

Outros fatores também podem aumentar a vulnerabilidade à reinfecção. Um deles é o tempo decorrido desde a contaminação pelo vírus da covid-19. As defesas do sistema imunológico tendem a diminuir depois de uma infecção. Um estudo publicado em outubro de 2021 estimou que alguém poderia ter uma reinfecção três meses depois de ser contaminado pelo novo coronavírus. Embora essas descobertas estejam baseadas no genoma de um coronavírus, e foram responsáveis ​​​​pelos declínios esperados nos anticorpos que poderiam combater o vírus, a pesquisa não levou em conta novas variantes como a da Ômicron, que eram radicalmente diferentes das variantes mais antigas. Devido à diferença do Ômicron, sua proteção pode diminuir ainda mais cedo.

Um estudo publicado em fevereiro de 2021, ainda não revisado, cientistas da Dinamarca descobriram que as algumas pessoas foram reinfectadas com a BA.2, uma sublinhagem da Ômicron, 20 dias depois de terem sido infectados com a variante original da Ômicron, a BA.1

Como o vírus está infectando mais pessoas agora, as chances de estar expostas e ser reinfectadas também são maiores, diz Abu-Raddad.

E embora não esteja claro se algumas pessoas são, simplesmente, mais vulneráveis a reinfecção da covid-19, pesquisadores estão começando a encontrar algumas pistas para isso. Pessoas mais velhas ou imunossuprimidas podem produzir uma quantidade menor ou mais fraca de anticorpos, que os levam a ser mais suscetíveis à reinfecção, afirma Abu-Raddad. E pesquisas iniciais revelam ainda que algumas pessoas têm uma falha genética que prejudica uma molécula imunológica crucial chamada interferon tipo I, o que as coloca em maior risco de sintomas graves da covid-19. Outros estudos podem descobrir se essas diferenças desempenham um papel na reinfecção.

Mas, por ora, você deve tratar qualquer novo sintoma, incluindo febre, dor de garganta, nariz escorrendo ou mudanças no paladar e no olfato, como um potencial caso de covid-19, e fazer o teste para confirmar se está, de fato, contaminado de novo.

Infecções posteriores serão mais ou menos agressivas?

A boa notícia é que o corpo pode contar com células do sistema imunológico, como as células T e células B, para anular uma reinfecção se o vírus passar por suas defesas iniciais de anticorpos. As células B e T podem levar alguns dias para serem ativadas e começarem a trabalhar, mas elas tendem a se lembrar de como combater o vírus com base em infecções anteriores.

“Nosso sistema imunológico tem todos os tipos de armas para experimentar e para parar vírus se ele passar pela porta de entrada”, diz Shane Crotty, uma especialista em virologia do Instituto La Jolla de Imunologia, na Califórnia.

Muitas dessas células de defesa constroem as proteções de forma repetida, explica Crotty. Isso significa que as pessoas que estão vacinadas e imunizadas com doses de reforço estão bem equipadas para lutar contra o coronavírus. Da mesma forma, pessoas que foram infectadas antes são capazes de impedir que o vírus se replique se elas forem reinfectadas.

O resultado é que a segunda ou terceira reinfecção são, geralmente, mais curtas e menos agressivas.

Abu-Raddad, que monitora reinfecções em grupos grandes de pessoas no Catar, já começou a perceber este padrão nos registros dos pacientes: de mais de 1.300 reinfecções que a sua equipe identificou desde o começo da pandemia até maio de 2021, nenhuma foi forte o bastante para levar alguém a precisar de cuidados intensivos de um hospital, e nenhuma também foi fatal.

Mas o fato das reinfecções serem menos severas não significa que sejam fáceis de lidar. É possível ainda ter febre, dores pelo corpo, confusão mental e outros sintomas. E não há formas de saber se os sintomas vão persistir e se tornar uma contaminação mais longa de covid-19, comenta Adalja.

É possível que cada contaminação da covid-19 coloque as pessoas em uma espécie de roleta russa, embora alguns pesquisadores supnham que o risco seja maior logo depois da primeira infecção. Um fator para a covid-19 longa é ter altos níveis do vírus no início de uma contaminação e, com isso, provavelmente se terá uma carga viral alta na primeira vez que for infectado, diz Abu-Raddad. Em infecções posteriores, o corpo vai estar melhor preparado para lutar contra o coronavírus, e será capaz de manter o vírus em níveis baixos até eliminá-lo do organismo por completo, acrescenta o pesquisador.  

O que pode ser feito para reduzir os riscos de reinfecção?

Muitas das ferramentas e comportamentos que protegem contra as contaminações ainda podem ajudar a evitar a reinfecção, diz Abu-Raddad. “Não há uma solução mágica contra a reinfecção do coronavírus”.

Se vacinar e receber a dose de reforço, por exemplo, é uma boa ideia mesmo depois de ter tido covid-19. Só que será necessário esperar algumas semanas depois de uma infecção para receber o imunizante. As vacinas irão reforçar seus níveis de anticorpos, e estudos mostram que elas são eficazes na prevenção de quadros graves se alguém tiver a doença novamente. “A confiança científica na imunidade induzida por vacina foi e é muito maior do que a imunidade induzida por infecção”, afirma Crotty.

Medidas adicionais, como usar máscaras em espaços fechados e em locais aglomerados, manter o distanciamento social e melhorar a ventilação do ar nos ambientes quando possível podem fornecer uma outra camada de proteção. Mas como a maioria das pessoas e grupo abandonaram estas medidas de proteções, cabe a cada um decidir quando adotar precauções extras contra a covid-19, com base no risco de contrair a doença e o quanto gostariam de evitá-la.

“Se você teve uma infecção na semana passada, provavelmente não precisa usar máscara”, disse Adalja. “Mas passado um mês ou mais da infecção, e novas variantes começam a circular nos EUA, faz sentido que indivíduos de alto risco comecem a fazer isso [usar máscara]. As pessoas que estão tentando evitar o covid-19 porque vão fazer um cruzeiro em breve, ou porque precisam de um teste PCR negativo por algum outro motivo, podem considerar tomar precauções. As proteções contra a doenças não precisam ser de tamanho único.”

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