WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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‘Quarentena e quaresma se aproximam muito’, diz padre sobre reclusão por coronavírus

No Brás, o padre Gilberto Orácio de Aguiar lembra que os católicos já estão em meio a um período de reclusão, a quaresma, período de 40 dias em que se prepara para a Páscoa

Entrevista com

Padre Gilberto Orácio de Aguiar

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

As portas da Paróquia São João Batista no Brás, na região central de São Paulo, ainda estão abertas nesta semana para os poucos fiéis que ainda passam pelo local, embora todas as missas tenham sido suspensas. A paralisação ocorreu após um comunidado do arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, e uma decisão da Justiça estadual que determinou que os governos municipal e estadual agissem para suspender os cultos religiosos.

No Brás, o padre Gilberto Orácio de Aguiar lembra que os católicos já estão em meio a um período de reclusão, a quaresma, período de 40 dias em que se prepara para a Páscoa. Consideradas as projeções dos órgãos de saúde, a quarentena na capital paulista deve seguir além do feriado da Páscoa. O padre sugere que os fiéis usem esse tempo para continuar refletindo sobre o valor desse período no ano litúrgico.

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Do ponto de vista pessoal, como o senhor se sente ao administrar a paróquia em meio a todas essas restrições?

É um momento de parada, de aceitar esse momento e rever algumas coisas na sua vida e refazer. Estou me sentindo na necessidade de parar e aproveitar esse tempo, não como um desastre ou uma coisa alarmante, mas algo que vai me fazer crescer, eu penso. E ainda, lembrando, estamos na quaresma. Quarentena e quaresma se aproximam muito nos objetivos. Às vezes, quando não queremos parar por amor, paramos na dor. E é o momento. 

Parece que as pessoas ainda não se deram conta do que está acontecendo. Talvez quando começarmos a ter enterros coletivos, velórios, as pessoas comecem a perceber a gravidade do momento. Talvez as pessoas precisem desse momento de dor. Esse momento pode ser muito bem usado e ser muito frutuoso, no sentido de usar esse tempo para ler, rezar, conviver com a sua família. Isso é muito importante. 

Quem sabe esse momento não seja uma porta para descobrirmos algo melhor? Até porque a quaresma é o período que nos encaminha para a Páscoa, é um período de passagem. Isso é muito forte. 

O senhor já viveu algo parecido com isso?

Não. E eu só tenho 52 anos. Durante esse tempo, nunca vivi uma restrição assim. É a primeira vez. 

A eucaristia é um rito importante importante para os católicos, mas não é recomendável para o período da epidemia. Como é lidar com a suspensão dessa comunhão e não saber por quanto tempo será dessa forma?

A paróquia lida com isso tentando acompanhar os fiéis que expressam essa preocupação, conduzindo eles para celebrações em casa, acompanhando as missas pela TV. Enfim, temos de aproveitar e sermos criativos no exercício da fé. Só por não termos isso (eucaristia), perdemos todo o sentido? Não. Vamos redescobrir como exercitar a fé numa situação limite como essa que estamos vivendo. 

Apesar de não haver celebrações, a igreja está aberta?

A igreja refez o horário, então estaremos abertos por algumas horas do dia – não em tempo integral. Principalmente na parte da manhã. Se alguém estiver passando na rua e quiser entrar, durante a parte da manhã estaremos abertos. 

Há alguma recomendação para o caso de chegar aqui um número alto de pessoas?

Eu não creio que nós teremos aglomeração em nenhuma parte do dia. Não terá um número alto de pessoas aqui. As pessoas não sairão de casa, sabendo que não tem missa. Então elas não virão. O fato de não ter missa é justamente para que não haja essa aglomeração. 

Os fieis que estão vindo aqui pedem orientações sobre as atividades da igreja?

Geralmente eles não vêm aqui. Eles pedem pelo WhatsApp. Os que vêm aqui são pessoas que passam e veem a igreja aberta, afinal esta é uma igreja de passagem do que um igreja de bairro. 

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