Paul Whitaker/ Reuters - 2/4/2015
Paul Whitaker/ Reuters - 2/4/2015

Quarentena reduz ruídos urbanos e muda sons da cidade de São Paulo

Especialista mede intensidade do som ambiente e mostra que sensação de barulho na área da Paulista caiu pela metade

Pablo Pereira e Léo Souza, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 10h00

A quarentena de afastamento social por causa da covid-19, que provocou a redução das atividades em São Paulo, reduziu o volume de carros e de pessoas em circulação nas ruas da capital e paralisou até o aeroporto de Congonhas, derrubou também índices de ruídos na cidade. Com isso, os paulistanos passaram a conviver com sons diferentes neste período iniciado no último dia 23 e expandido na semana passada até o próximo dia 22. De acordo com medição do volume de som nas ruas esvaziadas, a capital tem hoje pontos, antes reconhecidamente barulhentos, registrando 61 decibéis (dB), dez a menos do que o costume. É o caso da área do Masp, na Avenida Paulista, uma das regiões de altos índices de ruído.

"Aqui, neste ponto perto do Masp, está dando menos 10 dBs", afirmou Marcos Holtz, vice-presidente da Associação Brasileira de Qualidade Acústica (ProAcústica), ao medir o impacto sonoro na manhã desta quinta-feira, 9, na Paulista, a pedido do Estado. "Aqui chega a ter 71, 72 dBs, e agora temos uma redução de 10 dBs com a diminuição do tráfego devido à quarentena", disse Marcos Holtz. Ele explicou que essa redução da medida provoca "uma sensação de o som ter caído pela metade", comparou.

Holtz lembra que São Paulo é uma cidade barulhenta. "Na Paulista, quando tem show, chega a dar 100 dBs", afirmou.  "A ProAcústica fez o mapa da região centro e lá foi possível perceber que havia vários pontos com registro acima de 70, 75, com picos até de 80 decibéis", conta. "Agora estamos refazendo o estudo", adiantou. A entidade se prepara para o Dia Internacional da Conscientização Sobre o Ruído, no próximo dia 29 e vai lançar a campanha "Sons que Amo".

Barulho

Moradora da região há 20 anos, Graziele do Val, que vive a uma quadra do Masp, local da medição feita por Holtz, afirmou que a região da Paulista "é sempre muito barulhenta". Ela contou que são diversos tipos de ruídos juntos. "A gente convive com barulho de carros, de gente, de shows, de obras, de passeatas, tudo junto", disse a moradora. Nestes dias de quarentena da covid-19, porém, segundo ela, o clima mudou.  "São dias com um silêncio que só tivemos aqui em duas ocasiões nos últimos anos", afirmou a moradora. Ela citou o dia 8 de julho de 2014, quando a seleção brasileira de futebol foi goleada por 7 a 1 pela Alemanha, e outro episódio, de maio de 2006. "Quando o PCC ameaçou a cidade com a onda de atentados", recordou.

Para o físico Marcelo Aquilino, professor do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo), especialista em conforto acústico e em soluções tecnológicas para a construção civil em São Paulo, "é notória a redução" dos sons na cidade neste período.  "Neste momento de quarentena", explicou Aquilino, "o que acontece que outros sons começam a aparecer quando há a redução no ruído do tráfego." Para o físico do IPT, os paulistanos começam a perceber, em suas casas, outros sons. "Ouvem o som dos pássaros, de obras, de vizinhos, diversos sons diferentes que estavam mascarados pelo tráfego", explicou o professor do IPT, que tem o site chegadebarulo.com.br e que dá aulas de acústica e mitigação de ruídos.

"Quando você silencia uma fonte de ruído, como está acontecendo nesses dias de afastamento social da quarentena, outra fonte passa a ser percebida", disse o físico, que também estuda os ruídos da capital para mapa dos barulhos paulistanos. "Não é que os pássaros não cantavam antes; é que agora, com a queda do ruído do tráfego, a gente ouve mais os pássaros, a voz das crianças, os cães, as motos", ensinou Aquilino.

De acordo com o professor de física do IPT, percebe-se mais também inclusive os sons de impacto internos nos pisos dos prédios de apartamentos. "Para melhorarmos as construções, há normas legais que estabelecem parâmetros de construção, como a NBR 15.575, que regula materiais e aplicações deles de construção", afirmou. "O problema em São Paulo é que há muita construção antiga, muita construção não regular que passa a ser regular também", disse o físico.

Para ele, as pessoas podem perceber quais as fontes de ruídos observando pela janela dos prédios. "Se você enxerga um prédio, uma igreja, você está vendo a fonte que emite direto para você", ensinou o físico. É o que acontece muito na capital em áreas de muito barulho, como estádios, arenas de shows, como o sambódromo, exemplificou.  Especialista em conforto sonoro, ele disse ainda que normalmente, quando se ouve a voz do vizinho mas não se consegue entender o que ele fala, não costuma ser tão perturbador. "Mas com a redução do ruído geral, quando você entende o que ele diz, é mais perturbador", acrescentou.

Os especialistas destacam que o ruído paulistano é provocado principalmente pelo grande volume de veículos em circulação e também pelo tráfego aéreo. Pelos dados do governo paulista, a adesão da população foi de cerca de 50% ao projeto. Um levantamento da CET, por exemplo, mostrou a redução no trânsito. O mapa dos engarrafamentos na capital, elaborado pela CET, mostrou que só houve acúmulo de carros na rua em dois momentos bem definidos desde o dia 23, quando foi decretado o início do afastamento social. No dia 26, por volta de 16h, quando o trânsito foi parado para um resgate de vítima de acidente pelo helicóptero Águia do PM na avenida Salim Farah Maluf, e no dia 3, ao meio-dia, também para socorro a uma capotagem em trecho da Marginal. Na Salim Farah Maluf, a fila de carros chegou a três quilômetros. Na Marginal, segundo técnicos da CET, o engarrafamento foi de apenas um quilômetro. Nos demais horários de monitoramento da CET, que fiscaliza uma malha de quase 864 quilômetros de ruas e avenidas do município, não houve qualquer engarrafamento, o que aponta para uma redução da circulação de motores, uma das principais fontes de barulho.

O volume de pousos e decolagens no aeroporto também despencou. Registros da Infraero, relatório de fevereiro, mostram que Congonhas teve no mês 13.460 pousos e decolagens para transporte de cerca de 1,6 milhão de passageiros, atividade concentrada entre 6h e 20h, o que dá uma média de uma aeronave descendo ou subindo a cada 2 minutos. A Infraero ainda não fechou os dados de março, mas na última quarta-feira, 8 de abril, duas semanas após o início do quarentena, o aeroporto de Congonhas, localizado na zona sul da capital, portanto dentro da área urbana, registrava apenas um voo pela manhã e outros dois à tarde. No dia seguinte, 9,  apenas dois voos. "Estamos parados", resumiu um técnico de operação do aeroporto no início da tarde desta quinta-feira.

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