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(Quase) fugindo da Copa

A depressão caminha para se tornar a doença mais incapacitante do mundo, mas tem gente querendo se aproveitar da situação: mesmo sem estar deprimidos de fato, alegam-se incapacitados pela doença

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 03h00

Final de Copa do Mundo e eu tentando fugir do assunto. Será que consigo chegar ao fim do artigo sem ser tragado pela força gravitacional do campeonato? É difícil, já que no Brasil damos tanta importância à Copa que até os horários dos serviços e comércio se adaptam à agenda dos jogos.

O que me faz lembrar que bancários estão entre os que mais se afastam por doença no INSS, com destaque para os transtornos mentais como causa de incapacidade. De fato a Organização Mundial de Saúde estima que a depressão caminhe para se tornar a doença mais incapacitante do mundo. A crescente prevalência dos diagnósticos psiquiátricos inevitavelmente leva a um cenário em que há mais gente doente no mercado de trabalho, apresentando maior ou menor impacto do estado emocional no desempenho de suas atividades.

Infelizmente tem gente querendo se aproveitar da situação. Mesmo sem estar doentes de fato, alegam-se incapacitados pela depressão para auferir os benefícios do afastamento.

Nada de novo. As doenças mentais sempre foram simuladas na história da humanidade. O livro do profeta Samuel relata um episódio no qual o rei Davi, com medo do rei Aquis, foge, fingindo insanidade. “Por isso, na presença deles, ele fingiu estar louco; enquanto esteve com eles, agiu como um louco, riscando as portas da cidade e deixando escorrer saliva pela barba.”

E essa nem foi a primeira vez na história. Homero conta na Ilíada que Ulisses, após se casar com Penélope, queria tudo menos ir para a guerra de Troia. Para fingir ser lunático, colocou-se a semear sal em vez de sementes, mas o rei Palamedes o desmascarou ao lançar seu filho, Telêmaco, em frente ao arado. Ulisses desviou da criança para evitar sua morte, revelando não estar tão alienado como queria fazer parecer.

Há vários tipos de simulação de loucura. A literatura é rica em exemplos. O argentino Jorge Luis Borges nos brinda com outro tipo no conto O estupor. Pardo Rivarola é um homem que jura de morte seu inimigo Moritán, mas resolve ser prudente. Um domingo à tarde, com a praça cheia de gente, ele começa a agir como um galo. Agachado, batendo os braços e cacarejando em meio aos cidadãos, Rivarola vai assim ao encontro do inimigo, alvejando-o com dois tiros. Após um mês é liberado pelo médico forense, que conclui ter sido um surto: “Por acaso o povo todo não o viu agindo como um galo?”. Pode-se chamar essa estratégia de “pré-simulação” – o sujeito finge estar doente antes de fazer algo para fugir à responsabilidade de seus atos posteriores.

Machado de Assis também ilustra um tipo específico de falsidade no conto A última receita. A Sra. Paula adoece e começa a ser tratada pelo Dr. Avelar. Conforme progride o tratamento e ela não melhora, sua tia desconfia. Repara que a sobrinha piora sempre quando se aproxima a chegada do médico. 

Machado diz que “Seria realmente zombar do leitor o explicar-lhe que a doente e o médico (...) gostavam um do outro sem se atreverem a dizer a verdade”. Paula só melhora com o casamento – a última receita. No seu caso trata-se de “metassimulação”, quando a pessoa finge ainda estar doente mesmo depois de ficar curada.

E por último existe a supersimulação. São casos nos quais há de fato um problema, mas na tentativa de convencer de sua seriedade o sujeito exagera no sofrimento. Talvez seja essa a principal questão nas perícias do INSS – as pessoas querem se manter afastadas e tentam mostrar ao perito que a doença é muito grave. 

Como é difícil fingir bem, contudo, o médico vê o exagero e acaba por desconfiar da doença, que não consegue enxergar sob tanta teatralidade. E nega o benefício. Como não me vem à mente nenhum exemplo literário, cedo à tentação de voltar ao futebol. Seria zombar do leitor, como diria Machado, explicar que essa volta toda foi para falar do Neymar. Ele apanhou muito. Mas fazia tanta cena que perdia a credibilidade. E o juiz não apitava. Pensando como perito, não precisava ter exagerado.

Falei que fugiria do tema Copa e terminei citando o Neymar. Tudo bem, hoje é a final. Na próxima coluna prometo mudar de assunto.

* É PSIQUIATRA

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