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Que chance tenho de morrer pelo coronavírus?

Problema é que número é superestimado e a conta está conceitualmente errada

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 05h00

Qual minha chance de morrer durante a pandemia do novo coronavírus? Aparentemente a resposta é muito simples, basta dividir o número de pessoas que morreram pelo número de pessoas com a doença. O governo e a imprensa nos fornecem todo dia uma conta desse tipo. No dia 31 de março, o governo relatava 5.717 casos e 201 mortes. Dividindo um pelo outro, a taxa de mortalidade anunciada é de 3,51%. O problema é que esse número é superestimado e a conta está conceitualmente errada. Vou tentar explicar a razão.

Para medir a taxa de letalidade do vírus, o certo seria um cientista imaginário selecionar um grupo representativo de brasileiros, infectar no dia 1 todas essas pessoas com o novo coronavírus e acompanhar o que acontece com esse grupo ao longo do tempo. Após dois meses, o experimento estaria terminado. Uma parte dessas pessoas estaria curada e outra morta. O processo de infecção, tratamento, cura e morte teria sido levado até seu fim para cada membro desse grupo. Aí você conta quantos morreram, desconta os que morreram por outras razões e divide pelo número de pessoas que foram infectadas no primeiro dia. Essa é a verdadeira taxa de letalidade do vírus.

O problema é que, durante uma pandemia, a realidade é outra. O que existe é um grupo de pessoas que são infectadas sequencialmente, o número cresce a cada dia e é desconhecido. Depois de algumas semanas, quando parte dessas pessoas procura um hospital, são identificados os primeiros casos. Aproximadamente um mês depois das primeiras infecções começam a aparecer os primeiros mortos.

Nessas condições a conta fica muito mais difícil. Para entender parte da dificuldade, vamos imaginar novamente o experimento feito pelo cientista imaginário. Imagine que o grupo de pessoas foi infectado pelo vírus no primeiro dia, mas a sociedade, preocupada, quer saber logo o resultado. Assim, após dez dias, o cientista vai ver o que está acontecendo. Observa que grande parte das pessoas não tem sintomas, algumas tem sintomas graves e nenhuma morreu. Nesse dia, se ele calcular a taxa de letalidade, vai ser zero (é o que aconteceu em São Paulo antes da primeira morte). Ainda sob pressão, ele volta a fazer as contas dias depois e descobre um número de pessoas entubadas e algumas mortes. A taxa vai ser maior. E assim ele vai calculando uma taxa de letalidade, que vai aumentando dia a dia, até o final do experimento. Como no mundo real como o número de pessoas infectadas não é fixo e o mesmo ocorre com as mortes, o “experimento” real não tem início ou fim definido. 

Além disso o número de infectados cresce a uma taxa desconhecida e só contamos os mortos. Nessas condições, os epidemiologistas não conseguem cravar um número certeiro para a taxa de letalidade do vírus, mas somente fazer uma estimativa a partir de modelos matemáticos. Mas esse não é o único problema. É preciso lembrar que existem duas taxas de letalidade. Uma é a taxa de letalidade do vírus SARS-CoV-2 (descrita acima) e outra é a taxa de letalidade da covid-19, a doença causada pelo vírus. Essas duas taxas são diferentes conceitualmente e só seriam iguais numericamente se todas as pessoas infectadas pelo vírus desenvolvessem a covid-19, o que não ocorre. Muitas das pessoas infectadas pelo vírus apresentam sintomas leves ou sequer apresentam sintomas, não procuram tratamento e não são classificadas como casos do novo coronavírus. Sabendo disso nosso cientista imaginário repete o experimento. Infecta as pessoas e volta dias depois para ver quantas estão com a covid-19. Encontra, por exemplo, que somente 20% dessas pessoas estão com a doença. Quando esse número se estabiliza, ele considera esse o número de pessoas como o total de casos na sua população imaginária e espera para ver quantas delas morrem no fim do experimento. Divide o número de mortes pelo número de pessoas que tiveram covid-19 e obtém uma taxa de letalidade. Esta é a taxa de letalidade da doença covid-19. Um número diferente e muito maior da taxa de letalidade do vírus SARS-CoV-2.

E o que isso tem a ver com minha chance de morrer? Como atualmente o governo só está testando as pessoas que são internadas, as taxas que são calculadas e apresentadas pela imprensa a cada dia são uma versão simplista e muito aproximada da taxa de letalidade da covid-19 e não da taxa de letalidade do vírus. E o que me interessa é a taxa de letalidade do vírus pois quero saber a chance de morrer se for infectado e não a chance de morrer se for internado.

Além disso o número calculado pelo governo só pode ser considerado uma aproximação da taxa de letalidade da covid-19 se todas as mortes estiveram sendo computadas corretamente e todos os casos da doença estiverem sendo devidamente testados e diagnosticados. Sabemos que não é o caso. Portanto os números divulgados diariamente subestimam grosseiramente o número de infectados assintomáticos, além de terem erros tanto no número de mortes quanto de casos de covid-19. Eles simplesmente não servem para sabermos nossa chance de morrer durante a pandemia. Só servem para confundir a população.

Então, o que há de mais sólido? Os melhores números são provavelmente os calculados pela Organização Mundial da Saúde após a visita de sua missão à China. Esse estudo indica que 80% dos infectados apresentam casos leves ou assintomáticos, 20% são internadas, 6.1% são entubadas e 2% morrem. Esses números vieram do surto em Wuhan. Lá a epidemia começou, se desenvolveu e acabou, tal como o experimento do nosso cientista imaginário. Analisando os números no final da epidemia os epidemiologistas fizeram as contas simples descritas acima e chegaram a esses números.

Mesmo esses números podem estar superestimados pois muito provavelmente uma parte das pessoas infectadas em Wuhan não foi testada e o número de infectados pode ter sido maior. A próxima oportunidade de obtermos números confiáveis virão da Itália onde o número de casos está diminuindo e talvez a epidemia acabe em algumas semanas (vamos torcer). Os números da Itália serão mais confiáveis porque agora já existem testes para identificar todas as pessoas que foram infectadas mesmo que não tenham tido sintomas (são os tais testes rápidos que detectam anticorpos).

Na Itália vamos saber quantas pessoas foram realmente infectadas durante o surto, quantos foram internados com covid-19, quantos foram casos leves ou assintomáticos e quantos morreram. Com essas medidas diretas do que ocorreu no norte da Itália será possível ter um número confiável para a taxa de letalidade do vírus e a taxa de letalidade da doença. Essa coleta de dados já está em andamento. É provável que esses dados só estejam disponíveis após o auge do pico de casos no Brasil. E ainda vai sobrar a dúvida: quão diferente é a Itália do Brasil? Desculpe a má notícia, mas ainda vai demorar para sabermos com um grau razoável de certeza nossa chance de morrer durante a pandemia. O lado bom é que os dados chineses indicam que esse número deve ser menor que 2% e provavelmente até menor que 1%, bem menor que os 3,51% divulgados pelo governo. Mesmo assim, fique em casa.

Mais informações sobre este assunto, você pode ver neste link, da London School of Hygiene and Tropical Medicine. 

*É BIÓLOGO / fernando@reinach.com

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