Queiroga diz que dados do Ministério da Saúde não serão perdidos após ataque hacker

Queiroga diz que dados do Ministério da Saúde não serão perdidos após ataque hacker

Plataformas da pasta federal foram atacadas durante a madrugada e o caso será investigado pela Polícia Federal. Avaliação de funcionários é de que não houve comprometimento das informações

Eduardo Rodrigues e Julia Affonso, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 11h38

BRASÍLIA - A Polícia Federal e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) foram acionados nesta sexta-feira, 10, para investigar o ataque hacker sofrido pelo Ministério da Saúde na madrugada. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse que os dados não serão perdidos e que atua para restabelecer o sistema.

“É um prejuízo muito grande. São pessoas criminosas, nós esperamos encontrá-las e punir exemplarmente. Mas esses dados não serão perdidos, o Ministério da Saúde tem todos os dados, é só uma questão de resgatar esses dados e colocá-los à disposição da sociedade”, afirmou à TV Globo em Belo Horizonte, onde cumpre agenda oficial. 

A invasão tirou do ar dados de vacinação contra a covid-19 de usuários que acessam a plataforma Conecte SUS. O Estadão apurou que, num primeiro momento, a avaliação de integrantes da pasta é de que não houve qualquer comprometimento das informações da população vacinada.

De acordo com pessoas ouvidas pela reportagem com acesso aos sistemas internos, os dados sobre a aplicação de vacina contra a covid na população estão armazenados em blockchain - um banco de dados descentralizado, que usa criptografia, e, portanto, mais seguro. Apesar da invasão, as informações do Conecte SUS não teriam sido apagadas.

Em Minas Gerais, onde visitou hospitais, Queiroga afirmou ainda que o "empenho total é para esses dados estarem disponíveis no mais curto prazo possível". 

O site do Ministério da Saúde foi invadido durante a madrugada e saiu do ar. Além do Conecte SUS, plataformas como o e-SUS Notifica e o Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI) também foram atingidas. Um grupo identificado como Lapsus$ Group assumiu a autoria do ataque cibernético. Até as 10h30 desta sexta, o site da Saúde não havia voltado ao ar.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que o "incidente" comprometeu "temporariamente alguns sistemas da pasta". "O Departamento de Informática do SUS (Datasus) está atuando com a máxima agilidade para o reestabelecimento das plataformas", afirmou a Saúde.

Ao tentar acessar o portal da pasta na madrugada, os usuários encontraram o recado: "Os dados internos dos sistemas foram copiados e excluídos. 50 TB (Terabyte) de dados está (sic) em nossas mãos."

No topo da página, há um aviso de "ransomware" (software intencionalmente feito para causar danos a um servidor). Ou seja, está tendo a restrição do acesso ao sistema, infectado com uma espécie de bloqueio. Além disso, os responsáveis pedem para que seja feito um contato através de uma conta do Telegram ou e-mail, "caso queiram o retorno dos dados".

Nas redes sociais, há diversos relatos de pessoas preocupadas com o desaparecimento de seus dados no Conecte SUS.  Ao tentar logar no aplicativo, usuários se depararam com uma mensagem de erro e não conseguiram acessar os dados de vacinação da covid-19, já que a plataforma é responsável por emitir o certificado de imunização.

Atualmente, o documento é exigido para ter acesso a diversos eventos pelo Brasil, como shows, jogos de futebol e restaurantes, além de ser obrigatória para viagens ao exterior.

O governo federal começará a solicitar neste sábado, 11, o comprovante de vacinação para entrada de viajantes internacionais no País. Ainda não se sabe como a pane atual pode afetar a cobrança. A gestão Jair Bolsonaro, no entanto, já havia aberto uma brecha para que aqueles que não tiverem o passaporte vacinal possam fazer uma quarentena de cinco dias em solo nacional.

Enquanto o sistema nacional está fora do ar, quem foi vacinado em São Paulo pode recorrer à Plataforma da Saúde Paulistana (e-saúdeSP). Entre outras funcionalidades, a aplicação traz os dados de imunização do usuário.

O DataSUS, sigla para Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, fomenta e avalia ações de informatização do SUS. Além disso, é responsável por definir como são feitas a captação e a transferência de informações em saúde, com o objetivo de integrar bases de dados e sistemas implantados.

Segundo o site do departamento, em 25 anos de atuação, já desenvolveu mais de 200 sistemas para a pasta. Com os servidores instalados em duas salas-cofre, em Brasília e no Rio de Janeiro, aponta ser capaz de “armazenar informações sobre saúde de toda população brasileira”.

Já o Painel Coronavírus traz o mapeamento da doença no País. Com dados sobre casos e mortes, mostra a evolução do vírus no País.  

Ataques passados

Só neste ano, os sistemas da pasta já sofreram outros dois ataques. Em ambos, os invasores criticaram a segurança dos dados do órgão.

No final de janeiro, um hacker invadiu sistemas do Ministério da Saúde, mas não houve vazamento de informações, apenas duras críticas à plataforma. “ESTE SITE ESTÁ UM LIXO!”, afirmava a mensagem, escrita em letras maiúsculas, que ficou visível no FormSUS - um serviço do DataSUS que reúne informações de pacientes da rede pública de saúde.

Poucas semanas depois, em fevereiro, uma invasão similar ocorreu no FormSUS. “Arrumem esse site porco ou na próxima vai vazar os dados dos responsáveis por essa porcaria”, dizia a mensagem deixada pelo invasor.

Ao final de 2020, junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a pasta teve sistemas atacados pelo grupo hacker português CyberTeam. Na época, também houve prejuízo na a divulgação de dados sobre a covid.

Vazamentos

O ano de 2020 também foi marcado pela identificação de ao menos três vazamentos de informação da pasta. Nesses casos, foram indicadas falhas humanas e de governança, não ataques cibernéticos.

Em junho, a organização não governamental Open Knowledge Brasil (OKBR) identificou uma vulnerabilidade no acesso ao sistema de notificação de casos de covid que tornava possível o acesso aos dados de pacientes submetidos a testes da doença. Na denúncia, à qual o Estadão teve acesso, a entidade relatou que o problema estava na exposição indevida de login e senha para acesso a uma pasta compartilhada onde estavam relatórios com dados do sistema e-SUS Notifica, que recebe notificações de casos leves e moderados de covid.

Em novembro do ano passado, o problema se repetiu. Cerca de 16 milhões de brasileiros que tiveram diagnóstico suspeito ou confirmado ficaram com os dados pessoais e médicos expostos na internet durante quase um mês por causa de um vazamento de senhas de sistemas. Os dados ficaram abertos após um funcionário do Hospital Albert Einstein divulgar uma lista com usuários e senhas que davam acesso aos bancos de dados.

No mês seguinte, uma nova falha de segurança no sistema de notificações de covid foi constatada. Por pelo menos seis meses, dados pessoais de mais de 200 milhões de brasileiros ficaram expostos. Mais uma vez, o problema foi causado pela exposição indevida de login e senha de acesso ao sistema que armazena os dados cadastrais de todos os brasileiros no Ministério da Saúde.

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