FAB/Divulgação
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'Quem foi o assassino?', diz filha de idosa que morreu por falta de oxigênio em Manaus

Sem oxigênio e com excesso de internações, pacientes são transferidos para outros Estados; bebês prematuros correm risco

Liege Albuquerque, especial para o Estadão

16 de janeiro de 2021 | 05h00

A mãe da jornalista Marcela Valente Elias, Maria Auxiliadora Valente, de 64 anos, morreu na tarde de quinta-feira por falta de oxigênio na UTI do Hospital 28 de Agosto, em Manaus, sem qualquer aviso à família sobre a falta de cilindros. Até aquele dia ainda era possível comprar o material na rede particular. Nesta sexta-feira, 15, os estoques estavam esgotados. 

“Quem foi esse assassino? Que autoridade tem sob esse ato? Canalhas”, escreveu a jornalista em texto forte no Facebook. Sua mãe estava internada há três dias, com covid-19, esperando um leito na UTI. Nesta sexta-feira, pacientes com covid começaram a ser transferidos para outros unidades da federação. O governo do Amazonas pediu ajuda aos Estados de São Paulo e Maranhão para abrigar bebês prematuros que estão internados.

Assim com Maria Auxiliadora, a tia do produtor cultural Fabricio Nunes, Maria Gorete Abreu, de 60 anos, morreu em uma maca comum, sem ter conseguido vaga na UTI do Serviço de Ponto Atendimento (SPA) do bairro Alvorada, zona centro-oeste da capital amazonense, onde estava internada havia dois dias com sintomas de covid. “Estamos transtornados na família, queremos saber o porquê de não termos sido avisados da possibilidade de faltar oxigênio”, disse Fabricio. 

Um médico que preferiu não ter o nome divulgado disse que 41 pacientes morreram nas 12 unidades de saúde que atendem casos de covid na capital do Amazonas por falta de oxigênio. O número nem a causa não são confirmados pela Secretaria da Saúde do Estado do Amazonas (Susam).

De acordo com a assessoria da Susam, ontem pela manhã a Força Aérea Brasileira (FAB) desembarcou 6 mil litros de oxigênio líquido da empresa White Martins. O material foi distribuído pelos hospitais da rede estadual. Questionada, a pasta não informou por quanto tempo esse suprimento durará. A Susam afirmou ainda que mais 22 mil metros cúbicos chegarão de Guarulhos até quarta-feira. 

O prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), afirmou ontem que Manaus tem oxigênio suficiente para atender a central do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), a Maternidade Moura Tapajóz e a Fundação Dr. Thomas, e que estava esperava para ontem uma remessa de 6 mil metros cúbicos de oxigênio. 

O município não faz internações por covid, apenas testagem e atendimentos de sintomas leves.

Transferências de pacientes

O Ministério da Saúde afirmou ontem que pacientes com a covid-19 internados em Manaus começaram a ser transferidos para hospitais de oito capitais. 

Conforme o ministério, as transferências ocorrerão por avião e estão garantidos 149 leitos: 40, em São Luís; 30, em Teresina; 15, em João Pessoa, 10, em Natal; 20, em Goiânia; 4, em Fortaleza; 10, no Recife, e 20; no Distrito Federal. A estimativa do governo do Amazonas é de que até 700 pacientes podem ser transferidos nos próximos dias.

Além da FAB, pacientes com covid-19 têm usado aviões particulares para buscar atendimento em outras cidades. A reportagem registrou a chegada de um jatinho com um doente no aeroporto de Brasília, na manhã de ontem. O paciente, não identificado, foi transportado deitado de bruços na maca, técnica usada para facilitar a ventilação nos pulmões, e recebido por uma ambulância de uma rede particular de saúde. 

O ministério afirma que a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), responsável pela gestão de hospitais universitários federais espalhados pelo País, também está oferecendo leitos aos pacientes.

Rede particular

Um médico de um hospital particular de Manaus disse que a situação é “gravíssima” também nos hospitais particulares, cinco na capital, todos com seus prontos-socorros fechados desde o início de janeiro, com capacidade esgotada./ COM COLABORAÇÃO DE MATEUS VARGAS E GABRIELA BILÓ

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