'Quem passa pelo câncer vê que foi o maior aprendizado', diz fundadora de projeto que doa lenços

'Quem passa pelo câncer vê que foi o maior aprendizado', diz fundadora de projeto que doa lenços

Catarinense criou instituto para melhorar autoestima de outras pacientes

André Cáceres, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2017 | 05h00

Fundadora do Instituto Quimioterapia e Beleza (IQeB), Flávia Flores ajuda a resgatar a autoestima de centenas de mulheres com câncer e fazê-las encarar a situação com mais leveza. Se hoje ela desmistifica o assunto para muita gente, antes de descobrir a doença em 2012, ela praticamente não tinha conhecimento nenhum sobre o tema.

Durante um exame de rotina, o médico constatou que havia um caroço mas disse que não era nada e que Flávia não deveria se preocupar. “Voltei duas semanas depois, porque a bolinha não estava saindo e quis fazer uma mamografia”, relembra a catarinense de 39 anos. Após a nova bateria de exames, ficou claro que uma biópsia seria necessária. O resultado, segundo ela, surpreendeu os médicos. 

Ex-modelo, figurinista e desenvolvedora de produtos, Flávia sempre trabalhou com moda e sua primeira preocupação ao ser diagnosticada com câncer de mama foi estética e ser informada por uma mastologista de que seus seios seriam retirados. “Perguntei se poderia usar biquíni, decote, namorar”, conta a catarinense. Ela soube que teria de se submeter à quimioterapia e radioterapia, e que perderia os cabelos graças a esse procedimento.

“Chorei para caramba, fui para casa mal, passei uma semana no quarto me imaginando careca na cama. Pensei como seria morrer, ainda mais porque eu não conhecia ninguém que tinha passado por isso e sobrevivido”, relata Flávia, que pesquisou sobre câncer e beleza, mas percebeu que não havia ninguém falando sobre isso.

“Fui julgada por estar muito preocupada com isso. Falaram que a vaidade é inútil e que eu deveria me preocupar com a saúde”, lamenta ela, que na época se sentiu abandonada por pessoas que considerava próximas. “Ninguém gosta muito de ficar perto de doente, só ficam mesmo os grandes amigos. O resto é uma bênção que vão embora da sua vida”, afirma Flávia.

Enxergando um nicho inexplorado, a catarinense radicada em São Paulo decidiu inaugurar uma página na internet falando sobre como se cuidar em meio ao câncer. Quimioterapia e Beleza foi o nome dado por ela, que começou a compartilhar seu cotidiano. “No primeiro dia eu fui para o hospital, nem sabia como era uma quimioterapia. Tirei selfie e gravei para mostrar aos meus amigos. Comecei a postar tudo na página”. 

Hoje com mais de cem mil seguidoras, ou cats, como Flávia gosta de se referir a elas, a página se tornou um espaço para que as mulheres pudessem trocar experiências e se ajudar mutuamente. “Caiu meu cabelo, comecei a fazer umas fotos no estúdio do meu amigo, depois chamei outro amigo cabeleireiro em casa para cortar, sempre com alto astral, tomando vinho, ninguém triste. Assim foi cada etapa do meu tratamento”.

Flávia passou a ensinar as outras meninas a pintar as sobrancelhas quando os pelos caíam, lavar as perucas, combinar os lenços com as outras peças de roupa, entre outros assuntos que ela sentia falta de ver pessoas falando sobre. “Ali começou uma corrente muito legal, uma amizade. Hoje elas querem fazer book, postam fotos, vivem muito bem durante o tratamento”, festeja ela, cujo cabelo foi usado junto ao de mais duas amigas para a confecção de uma peruca para outra mulher com câncer que estava deprimida por conta da iminência de ficar careca. 

Além do do Instituto Quimioterapia e Beleza e do blog que Flávia alimenta, hoje ela faz oficinas de beleza, mantém um banco de lenços que já doou peças para mais de 10 mil mulheres, escreveu um livro para contar sua experiência e lançou um documentário sobre o projeto, intitulado Química da Vida. 

Já com seu câncer sob controle, Flávia, que sempre foi apegada ao cabelo comprido que tinha, exibe um penteado curto para poder auxiliar melhor quem está passando pela mesma situação. “Cada dia eu usava uma peruca diferente, podia ser uma personagem nova”, recorda. 

“Aprendi a me dar valor, a cuidar do meu corpo. Hoje tenho hábitos saudáveis. Eu era baladeira, não fazia exercícios. Hoje eu sei o que é importante na vida, o que devo fazer para estar bem”, conclui Flávia. “Quem passa pelo câncer vê que foi o maior aprendizado na vida”. 

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