Atul Loke/The New York Times
Atul Loke/The New York Times

Quem produzirá as vacinas contra o coronavírus para países em desenvolvimento? Índia tem a resposta

Adar Poonawalla está investindo US$ 250 milhões da fortuna de sua família em uma tentativa de aumentar a capacidade de fabricação para 1 bilhão de doses até 2021

Joanna Slater, The Washington Post

12 de novembro de 2020 | 15h00

NOVA DÉLHI - Adar Poonawalla é um bilionário indiano cuja empresa da família fabrica mais vacinas por ano do que qualquer outra empresa na Terra. Pergunte a ele sobre a corrida por uma vacina contra o novo coronavírus e ele oferecerá algumas opiniões sinceras.

Uma vacina candidata proeminente é "uma piada" que não funcionará nos países em desenvolvimento. Qualquer pessoa que declare por quanto tempo uma vacina conferirá imunidade está falando "bobagem". Toda a população mundial não será imunizada até 2024, diz ele, ao contrário das previsões mais otimistas.

Poonawalla é igualmente franco em relação à aposta que sua empresa, a Serum Institute of India, está fazendo na pandemia. Ele está investindo US$ 250 milhões da fortuna de sua família em uma tentativa de aumentar a capacidade de fabricação para 1 bilhão de doses até 2021.

“Decidi ir com tudo”, disse Poonawalla, de 39 anos. Entre os primeiros céticos: seu pai, Cyrus, o fundador da empresa. “Ele disse: 'Olha, é o seu dinheiro. Se você quer queimá-lo, tudo bem.' "

É uma aposta com repercussão global. Na busca por vacinas eficazes contra o novo coronavírus, a Índia está posicionada para desempenhar um papel crítico no abastecimento do mundo em desenvolvimento, que está começando a corrida com uma desvantagem distinta.

Os países ricos já abocanharam grande parte da oferta disponível. Os Estados Unidos, o Reino Unido, o Japão e o Canadá fecharam acordos grandes o suficiente para vacinar suas populações inteiras. Em contraste, um esforço global conjunto para distribuir vacinas de forma equitativa para mais de 150 países - incluindo dezenas de nações de baixa renda - garantiu apenas 700 milhões de doses.

A Pfizer, que anunciou resultados excepcionais para sua vacina candidata na segunda-feira, fechou poucos acordos para fornecer seu produto a países em desenvolvimento. A vacina da Pfizer também deve ser armazenada em temperaturas ultrabaixas, um grande desafio em grande parte do mundo.

As nações ricas estão "todas cortando a fila e acumulando o suprimento de vacina para imunizar o maior número possível de pessoas, mesmo que isso deixe outros países incapazes de imunizar aqueles em maior risco", disse Nicholas Lusiani, conselheiro sênior da Oxfam America, um grupo sem fins lucrativos dedicado a combater a pobreza.

Entram em campo os fabricantes indianos de vacinas, liderados pelo Serum Institute, o maior fabricante do mundo em volume. Bem antes da pandemia, a Índia era uma "potência de vacinas" especializada em exportações a preços acessíveis para países de baixa e média renda, comentou Andrea Taylor, diretora assistente do Duke Global Health Innovation Center.

Andrea disse que países como Brasil e China também têm capacidade de fabricação, mas ela destacou os fabricantes de vacinas indianos porque eles agiram rapidamente para formar parcerias com empresas globais e aumentar sua própria produção. A Índia "vai ser a estrela absoluta da história", afirmou.

Anthony Fauci, o maior especialista em doenças infecciosas dos Estados Unidos, compartilhou esse sentimento durante um painel no início deste ano. A capacidade de fabricação da Índia "será muito, muito importante" à medida que surjam vacinas eficazes, disse.

Quatro grandes empresas farmacêuticas - AstraZeneca, Novavax, Johnson & Johnson e Sanofi - chegaram a acordos para produzir pelo menos 3 bilhões de doses de vacinas para países de baixa e média renda, mostra a pesquisa da Airfinity. O Serum Institute deve fabricar mais de dois terços dessas doses.

Parte do fornecimento acordado para países de renda baixa e média virá por meio da iniciativa conjunta apoiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), conhecida como Acesso Global de Vacinas para covid-19, ou Covax. A Covax inclui países de alta e baixa renda, mais de 150 no total. Os Estados Unidos se recusaram a participar.

A Covax está sendo coliderada pela Gavi, uma associação para vacinas sem fins lucrativos. Em setembro, a Gavi anunciou uma parceria com a Fundação Bill e Melinda Gates para pagar ao Instituto Serum 200 milhões de doses de vacina, a um custo de US$ 3 cada, a serem distribuídas em países em desenvolvimento, esperançosamente no início de 2021. Os US$ 600 milhões ajudarão o Serum a aumentar sua produção.

A Gavi e a Fundação Gates "querem garantir o fornecimento de vacinas a um preço acessível", disse Poonawalla, CEO do Serum. Seu objetivo, entretanto, é cobrir alguns de seus custos. "Pelo menos meu risco é eliminado para que eu possa dormir à noite", avisou.

A parceria com o Serum, dado seu tamanho, é "crucial" para o objetivo maior da Gavi de garantir que nenhum país seja deixado para trás na busca por vacinas, lembrou Dominic Hein, que trabalha nos esforços da Gavi para tornar as vacinas mais prontamente disponíveis para as populações de países de baixa renda.

Pelo acordo, mais de 60 países - principalmente na África e na Ásia - receberiam a vacina desenvolvida pela Universidade Oxford e AstraZeneca ou a vacina em desenvolvimento pela Novavax.

O Serum Institute fechou acordos para fabricar ambas as vacinas, que estão em testes na fase 3. Também fechou acordos para fazer duas outras vacinas, desenvolvidas pela empresa americana de biotecnologia Codagenix e pela britânica SpyBiotech, e está trabalhando em sua própria vacina candidata que espera entrar em testes no final do próximo ano. Embora a empresa indiana tenha fechado acordos de fabricação com empresas americanas, como Novavax e Codagenix, atualmente não está exportando suas vacinas para os Estados Unidos.

A Índia registrou o segundo maior número de casos do novo coronavírus no mundo - mais de 8,5 milhões. Esses números significam que a Índia é um mercado crucial para futuras vacinas e um lugar eficaz para testá-las.

Ensaios clínicos avançados de três vacinas candidatas estão em andamento na Índia: a vacina AstraZeneca e as vacinas desenvolvidas por duas empresas farmacêuticas indianas, Zydus Cadila e Bharat Biotech. Uma empresa indiana também está iniciando testes clínicos com a vacina candidata da Rússia, a Sputnik V.

"Independentemente de a Índia produzir uma vacina por si só ou não, do ponto de vista da fabricação, ela terá um papel muito, muito importante", disse Mahima Datla, diretora-geral da Biological E., uma produtora de vacinas de 67 anos com sede na cidade de Hyderabad. Mahima também faz parte do conselho da Gavi.

O ministro da saúde da Índia calculou recentemente que o país estaria em posição de começar a distribuir uma vacina nos próximos seis meses. O governo está trabalhando em um plano para imunizar até 250 milhões de pessoas até julho, disse.

Alcançar essa meta exigirá o volume de fabricação do Serum Institute. A empresa desviou a capacidade das vacinas existentes e começou a trabalhar em uma nova unidade de produção a ser concluída no próximo ano em sua sede na cidade indiana de Pune.

Poonawalla disse que a empresa se comprometeu a manter metade das vacinas que fabrica para uso na Índia. Ela já começou a fabricar a vacina AstraZeneca. Cerca de 20 milhões de doses foram feitas, e ele espera ter 10 vezes essa quantidade pronta nos próximos quatro meses.

Ele está otimista de que em 2021, uma nova vacina contra o novo coronavírus será licenciada para uso público a cada dois meses. "Essas são as boas notícias", disse Poonawalla.

A notícia não tão boa é que ainda não está claro qual vacina, se houver alguma, oferecerá proteção de longo prazo contra o vírus. “Ninguém quer uma vacina que só vai protegê-lo por alguns meses”, avisou. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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