Quênia debate circuncisão como meio de evitar a aids

Controvérsia mistura dúvidas quanto à eficácia do método e questões culturais e éticas

Efe

18 de agosto de 2008 | 15h31

A polêmica acompanha o uso da circuncisão como meio de frear o contágio do vírus do HIV, que causa a aids, uma medida que várias organizações quenianas começaram a aplicar com apoio do governo. Na controvérsia surgida no Quênia se misturam as dúvidas quanto à eficiência do método, os riscos sanitários e questões éticas, enquanto o último relatório da ONU aponta que a aids no país, longe de ter regredido, como era esperado, aumentou 3% em 2007. Já em abril, o ministério da Saúde iniciou uma campanha que assegurava que a circuncisão reduzia as possibilidades de se contrair o HIV, o que iniciou a polêmica, mas para David Ojakaa, diretor de programas da Fundação para a Investigação Médica na África (AMREF), a medida é útil e deve-se começar a aplicá-la.  "Não temos nenhum motivo para duvidar de resultados científicos de estudos particulares que, diferentemente do que defende o governo, demonstraram que essa prática diminui em 50% as probabilidades de contágio", disse.  Nelson Otwoma, também da AMREF, defende essa afirmação e ainda acrescenta que "a explicação é que o procedimento elimina a pele mais fina do pênis, que tem mais probabilidade de sofrer infecções." Ojakaa ainda acrescenta que o aumento da doença "é na realidade uma vitória, já que se deve aos tratamentos aplicados à população contagiada que estão dando resultado. Há mais casos de pessoas infectadas que vivem mais tempo." No entanto, em outros setores a medida não é tão bem vinda, já que a circuncisão têm conotações culturais e éticas, que, por exemplo, levaram o Conselho dos Luos a rejeitá-la. Os Luos, uma das etnias majoritárias do Quênia, depois dos Kikuyu e dos Luhya, a que pertence o primeiro-ministro, Raila Odinga, afirmaram que se trata de "um plano para nos desacreditar, já que tradicionalmente somos contra a circuncisão." Segundo seu Conselho, "Uganda, onde o índice de homens circuncidados é muito baixo, é o país líder na região quanto às medidas preventivas e a África do Sul, que tem um alonga tradição de circuncisão, tem uma porcentagem altíssima de infectados com o HIV."  De qualquer maneira, a circuncisão continua sendo praticada no Quênia com meios muito precários em algumas zonas rurais e, durante o mês de agosto, os Bukusu celebram uma de suas festas mais populares, que serve como ritual de passagem da infância para a vida adulta.  Nela, centenas de adolescentes são circuncidados, num ato que prova sua masculinidade, com a mesma lâmina, podendo tornar-se, em si, um meio de contágio.

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