Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Radiocirurgia contra câncer de pulmão tem 89% de pacientes curados

Trabalho de profissionais do Hospital Sírio-Libanês mostra que procedimento não invasivo é eficaz em casos recomendados

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Ao buscar tratamento para um resfriado, a advogada aposentada Gasparina Fernandes, de 72 anos, descobriu um nódulo no pulmão. Era um câncer em fase inicial, mas ela não tinha o perfil para o tratamento mais eficaz nesses casos, que é a cirurgia, por ter outras complicações de saúde. Porém, estava no grupo de pessoas que podem ser submetidas à Radioterapia Estereotáxica Corporal, conhecida como radiocirurgia.

Segundo estudo do Hospital Sírio-Libanês publicado no Journal of Global Oncology - revista científica da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) -, o procedimento, não invasivo, é capaz de destruir o tumor em 89% dos casos.

A pesquisa, que teve início em 2007 e durou até 2015, avaliou os resultados em 54 pacientes do hospital classificados como frágeis, geralmente idosos que já tiveram problemas de saúde, como doenças associadas ao cigarro ou cardíacas. Eles também precisavam estar com o tumor em fase inicial, com menos de 5 centímetros.

“A radiocirurgia traz oportunidade de cura que se aproxima do resultado de uma cirurgia. No nosso estudo, 89% tiveram um controle do tumor no local e, em dois anos, 80% dos pacientes estavam vivos”, diz Carlos Vita Abreu, radio-oncologista do Hospital Sírio-Libanês. A média de idade das pessoas submetidas ao procedimento era de 75 anos. O especialista diz que nenhum paciente morreu nem teve complicações graves após fazer o procedimento.

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Pensei que fosse ser sofrido, mas o tratamento foi encaminhado e tenho certeza de estar curada.
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Gasparina Fernandes, paciente

O câncer de pulmão atinge principalmente fumantes e, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), é o tipo mais comum entre os tumores malignos - e altamente letal. Para este ano, a estimativa de novos casos, de acordo com o instituto, é de 31.270.

“A radiocirurgia é uma modalidade de radioterapia que, graças à precisão e a quantidade de dose de radiação utilizada, apresenta resultados semelhantes à cirurgia. Esta técnica consiste numa modalidade de tratamento não invasiva, sem necessidade de cortes na pele ou anestesia. Em virtude da grande potência deste tratamento, é indispensável a utilização de tecnologia de última geração para a sua realização e normalmente são realizadas de uma a cinco aplicações de radioterapia. Os pacientes submetidos a este tratamento não necessitam de internação”, explica Rafael Gadia, diretor de Radioterapia na unidade de Brasília do hospital.

Abreu afirma que o tratamento também cobre uma lacuna entre os pacientes com câncer de pulmão. Segundo ele, até os anos 1990, os pacientes considerados frágeis não tinham alternativas eficazes. Uma parcela não recebia tratamento. “Para outra parte, era indicada radioterapia convencional, mas os dados não eram brilhantes e a chance de curar era na ordem de 30%. São pacientes que ainda produzem, que estão cuidando dos netos e são figuras importantes dentro do núcleo familiar. Com a técnica, a gente preserva essa pessoa.”

“A radiocirurgia veio adicionar uma expectativa de cura para pacientes que ficavam sem alternativa e não é uma proporção pequena. De 10% a 15% dos pacientes não podem receber a cirurgia por causa da fragilidade", diz Ricardo Terra, cirurgião torácico.

O engenheiro elétrico Jorge Marques, de 76 anos, fez o procedimento em janeiro, após descobrir um tumor no pulmão esquerdo. “A cirurgia ia ser agressiva, e três sessões liquidaram o câncer.” Marques mantém uma vida ativa e diz que não deixou de fazer o que gosta depois do diagnóstico e do tratamento. “Continuo fazendo esteira para manter a capacidade respiratória e não paro de estudar. Quero fazer uma pós-graduação em Psicologia. Tenho muitos amigos e canto em um coral.”

No SUS

Na rede pública, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) tem o serviço de radiocirurgia desde 2011. Até agora, 264 pacientes já receberam o tratamento, dos quais 116 tinham câncer de pulmão. Os demais eram pacientes com câncer de fígado, nos ossos, sarcoma e no pâncreas. O Icesp afirma ter sido pioneiro nas técnicas de radiocirurgia intracraniana e radiocirurgia corpórea no Sistema Único de Saúde (SUS).

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DEPOIMENTO: 3 imunoquimioterapias e um tumor 30% menor

Laudo de tomografia mostrou melhora que Organização Mundial de Saúde (OMS) considera ‘significativa’

Luiz Maklouf Carvalho, jornalista em tratamento contra o câncer

22 Setembro 2018 | 04h00

O câncer de que trata esta série - de pulmão e mediastino, dito carcinoma de células escamosas, tido por incurável -, teve uma significativa redução superior a 30%, em comparação com as imagens de dois meses atrás. Quem o diz, autorizando uma primeira e contida comemoração, é o resultado de uma tomografia de tórax, abdome e pelve, realizada no dia 14, depois de três aplicações de imunoquimioterapia. Diz o laudo, de quatro dias depois: “Com relação às imagens do PET-CT de 26 de julho e da tomografia-biópsia de 20 de junho, houve redução dimensional significativa (superior a 30%) nas lesões-alvo pulmonares e nodais mediastinais”. 

O “significativa” não é opinião do médico que assinou o laudo da tomografia nem do médico titular do tratamento que levou à redução dos tumores. Mas da Organização Mundial de Saúde (OMS), que assim qualifica reduções superiores a 30%. O oncologista titular, que aqui fica anônimo, é o mesmo que já derrotou, com um colega, neste mesmo paciente, há 11 anos, um tumor de orofaringe. O primeiro de seus três nomes é personagem de Homero e livro de James Joyce. O segundo, é quase homônimo de um personagem de Guimarães Rosa. E o terceiro pontifica em um conto de Machado de Assis. Para quê dizer mais?

No exato momento em que o alvo digita este terceiro depoimento - 14 horas, 20 de setembro - os cabelos rareiam, as mãos inteiras continuam formigando, os dedos dos pés seguem amortecidos, as maçãs do rosto estão bem avermelhadas, uma leve tontura pede atenção no andar. São, no momento, os únicos efeitos da imunoquimioterapia (I-QT) aplicada na véspera, a quarta da série de seis. Chatos, por certo, mas perfeitamente suportáveis. Podem mudar a qualquer momento, de uma hora para outra, com menor suportabilidade, digamos assim. Só quem sabe a hora e o local desses efeitos colaterais é o veneno potencialmente matador (do câncer, espera-se) que está circulando na corrente sanguínea.

A primeira aplicação da I-QT foi em 18 de julho último, na movimentada ala da quimioterapia, onde 42 boxes, ou saletas, recebem, em média, cem pacientes por dia. É câncer que não acaba mais, dá medo, em gente de todo o tipo. Há até quem tenha ojeriza ao canal de TV exibido sem som no painel que organiza a ordem dos atendimentos. “Por que vocês colocam essa bosta de canal?”, indagou este paciente várias vezes, exaltado, aos atendentes que cuidam da papelada. Sua acompanhante - quase todos levam um - explicou que, justo naquele dia, ele não tinha tomado o remédio que contém a irritabilidade, outro efeito colateral. 

A saleta é agradável e privativa. Tem uma poltrona confortável para o portador do tumor, outra, menor, para o acompanhante, TV de LED, closes de flores nas paredes, um lanchinho por turno, cobertor para o frio de sempre e, por último e não menos que mais importante, nesta ordem, os diversos humanos que vão comparecer: atendentes de enfermagem, enfermeiras (os) e, na primeira vez, psicóloga, nutricionista e farmacêutica, estas para explicar os procedimentos do durante e do depois. 

A brincadeira começa, para valer, com a procura da veia boa para injetar o que virá. Quando as veias são ruins, o que acontece desde a químio de uma década atrás, é sempre um problema. Mas nada que uma luva com água quente não possa ajudar a resolver, sem contar a perícia das enfermeiras, que têm visão de raio X. A agulha que entrou, e logo saiu, deixou na veia um finíssimo cateter de silicone. É por ele que vai escoar o tratamento.

Os primeiros a entrar são os remédios preventivos para enjoos, alergias, tonturas e demais desconfortos que a aplicação pode ou não causar - a depender do caso e do paciente. As gotas descem de três frascos plásticos, um por um, com duração média de 30 minutos cada. Pronta a defesa, começa a I-QT propriamente dita. Pela ordem: um frasco da imunoterapia, e dois frascos de quimioterápicos. Um desses, mais conhecido por taxol, é um dos campeões em efeitos colaterais. É tão potente, que antes de chegar à veia tem de passar por uma bomba de infusão que calcula o tempo em que cada gota vai cair. No caso em tela, 500 ml demoraram intermináveis três horas para acabar de pingar. Esse equipamento fica acoplado no suporte que sustenta os frascos. No caso concreto, o taxol é que eleva o tempo da aplicação para seis horas - ou sete, na primeira, com o acréscimo das explicações preliminares. Pode somar mais três ou quatro horas - porque, antes, tem a passagem obrigatória pela enfermagem e pelo médico e, na véspera, com as oito horas de jejum, o também obrigatório exame de sangue, indicativo do andamento da carruagem durante os combates.

Tontura forte, boca desértica, algum sono e muito número 1, ou xixi, foram os sintomas sentidos durante as três primeiras aplicações - com variações para mais ou para não muito menos. No caso do número 1, pode-se ir andando com cuidado ao banheiro próximo, transportando manualmente o suporte, o que implica em parar a aplicação, e demorar mais. O melhor, pelo menos para homens, é usar o chamado papagaio: um recipiente plástico, em forma aproximada da ave homenageada, sabe-se lá porquê. É descer da poltrona, ter cuidado com o braço que recebe as gotas, e despejar, abundantemente, o líquido que já nos livra de parte do veneno.

Nas duas primeiras semanas após a primeira aplicação - são 21 dias entre uma e outra -, o alvo sentiu-se quase zero de força, teve frequentes dores de cabeça, pontuais dores nas articulações da perna (joelhos, principalmente), alguma febre, tonturas, desarranjos intestinais, duas ocorrências de vômito, e muitas horas de cama. Não houve dia em que não puxasse os cabelos, mas eles só começaram a vir na mão, em chumaços, a partir do 14.º dia. É uma péssima sensação, não dá para negar. Foram saindo, por dias seguidos. Parte dos pacientes manda logo raspar tudo. Não foi o caso. Como na químio de anos atrás, pararam de cair depois de um tempo. Parte deles resiste, rasteira e bravamente, combinando bem com a boina ou boné que eventualmente se use. Por esse mesmo 14.º dia, o alvo já ia a restaurante, já trabalhava (de leve), já se metia com as panelas, já estava menos na cama, começava a retomar uma vida normal sujeita a chatices imprevisíveis do veneno operante. 

Na segunda aplicação, em 8 de agosto, a tontura foi muito pior que na primeira - problema resolvido, na terceira, em 29 de agosto, com a mudança, a pedidos, do protocolo médico que mandou diminuir um pouco a dosagem de um anti-enjôo. Nos dias seguintes, dores novas compareceram - no estômago, por exemplo, e em outras juntas ósseas, algumas mais parecendo, com perdão do exagero, punhaladas rápidas e certeiras em pontos precisos. O formigamento das mãos começou nesta fase. O amortecimento dos dedos dos pés também - descontando, aí, que já estavam algo insensíveis por uma diabete do tipo 2, mais ou menos sob controle. 

Entre a segunda e a terceira aplicação, o estado geral melhorou: a energia voltou, em grande parte, dando até, nos dias melhores, para sair sozinho, a pé, de carro, ônibus, metrô ou trem; o apetite, que era pouco, voltou ao normal; as horas de cama idem, permitindo, nos melhores dias, ficar na TV, ou no livro do momento, até o começo da madrugada; os incômodos todos diminuíram a frequência - tirante os das mãos e dos pés, que continuam firmes e fortes. O das mãos, pior, está quase anulando o tato da ponta dos dedos. Às vezes, parece que vão explodir: ploct. Vale acrescentar que, para a maioria deles, se apresenta um remédio adequado - analgésicos e antidesarranjos, por exemplo - o que facilita a administração da batalha.

Na consulta preliminar à terceira aplicação, o paciente brincou com o médico, sugerindo que já lhe desse alta. Houve o sorriso de quem sabe que ainda vamos longe - ambos premiados, dias depois, com o laudo carimbado pelo protocolo da OMS, a “significativa” redução do tumor em “superior a 30%”. Pode ser 50%, ou 70%? Não se pode saber. O fato é que o tumor está reagindo - como em fuga, cometendo outro exagero. Não é para soltar foguetes - o tal é incurável, como dito -, mas alguns estalinhos se pode estourar.

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