Radioterapia substitui injeção contra degeneração macular

A Universidade Federal de Goiás (UFG) está empregando uma técnica recém-criada nos Estados Unidos de combate à degeneração macular relacionada à idade (DMRI), doença tida como principal causa da perda da visão em 5 milhões de brasileiros e 300 milhões de pessoas no mundo. A técnica consiste em irradiar a retina (membrana fina que reveste a porção interna do fundo do olho e é responsável pela captação da imagem, que é enviada ao cérebro pelo nervo óptico) com isótopos de estrôncio-90. O novo tratamento da DMRI obteve sucesso em 30 dos 34 pacientes que estão em tratamento na UFG, em Goiânia. Nos próximos 60 dias, outras 25 instituições em todo o mundo também participarão da pesquisa, que será apresentada, em setembro, no Congresso Brasileiro de Oftalmologia, em Brasília. "A doença ocorre em indivíduos com mais de 60 anos e tem como eixo a destruição da visão central, que é a visão de leitura. O indivíduo deixa de ler e de dirigir, não reconhece bem as cores. As dificuldades são enormes", explica Marcos Ávila, de 52 anos, médico e pesquisador da UFG. Alternativas A doença tem sido tradicionalmente tratada com laser e drogas injetáveis. Uma das substâncias que se podem injetar no olho são os chamados antiangiogênicos. Porém, segundo Marcos Ávila, o método tem fatores negativos, como a freqüência (de 17 a 20 injeções em dois anos), a dor e o custo (R$ 80 mil nesse período). Além disso, nem sempre os resultados são os esperados. Pela nova técnica de irradiação, é feita uma microcirurgia pela qual se aplica um isótopo de estrôncio-90 por cinco minutos no centro da membrana neovascular - a ferida. O isótopo realiza uma radioterapia dentro do olho. A cirurgia toda dura 20 minutos. Após a irradiação, o olho é coberto com um curativo e o paciente é liberado. "O resultado é muito animador", comenta Ávila. "Um total de 34 pacientes foram tratados com essa tecnologia e os resultados analisados, em conjunto, são iguais ou, muitas vezes, melhores que os resultados obtidos pelo método dos antiangiogênicos", constatou. Ele entende que a vantagem desse método, se comparado com o tradicional sistema de injeções, está nos custos mais baixos e nos resultados bem-sucedidos. O método foi formulado por um grupo de pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA. O isótopo para a radioterapia foi desenvolvido com a ajuda de físicos nucleares alemães e a aplicação inicial teve a participação de Ávila, da UFG. Neve Ione Ribeiro Guimarães, professora do curso de Música da UFG, é um dos casos bem-sucedidos. Ela sofreu por vários anos com a degeneração macular num dos olhos. Primeiro usou óculos, depois aumentou o grau. Sem sucesso. Logo depois perdeu a visão central do outro olho. Ao perceber que a cegueira eliminaria o amor à leitura, ao piano e ao ensino, decidiu buscar ajuda na tecnologia. "Após a cirurgia, posso dizer que nasci de novo", disse. "Agora leio, dirijo meu carro, toco piano, tenho uma vida normal." Inicial Para o oftalmologista Rubens Belfort Junior, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apesar dos resultados promissores do procedimento, feito também há cerca de um ano no Hospital São Paulo, na capital paulista, ainda é cedo para contar com a técnica como alternativa viável para um número maior de pacientes. "É promissor, mas ainda é muito inicial, ainda serão necessários alguns anos para ver os resultados", explica ele. Belfort explica que a técnica é indicada para um número reduzido de pacientes. Os atuais procedimentos, segundo ele, têm bons resultados. Márcio Nehemy, oftalmologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor regional da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), concorda. "Ainda vai demorar um pouco para que essa técnica possa substituir as injeções. Isso ainda está no campo experimental." Colaborou Emilio Sant'anna

Agencia Estado,

05 de março de 2007 | 10h50

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