Ore Huiying/The New York Times
Ore Huiying/The New York Times

Rastreando o coronavírus: como as lotadas cidades asiáticas enfrentaram a epidemia

Cingapura – juntamente com Taiwan e Hong Kong – vem dando exemplos de abordagens bem-sucedidas na luta contra a pandemia

Hannah Beech, The New York Times

18 de março de 2020 | 14h34

CINGAPURA - Duas horas. Este é todo o tempo que as equipes médicas de Cingapura têm para descobrir os primeiros detalhes de como os pacientes contraíram o coronavírus e quais pessoas eles podem ter infectado.

Eles viajaram para o exterior? Têm ligação com um dos cinco núcleos de contágio já identificados na cidade-estado? Tossiram em alguém na rua? Quem são seus amigos e familiares, seus companheiros de bar e colegas de igreja?

Enquanto as nações ocidentais lutam contra a rápida propagação do coronavírus, a estratégia de Cingapura de rastrear e testar imediatamente os casos suspeitos fornece um modelo para manter a epidemia sob controle, mesmo que não consiga eliminar completamente as infecções.

Com um detalhado trabalho de detetive, os rastreadores de contato do governo encontraram, entre outros, um grupo de cantores inveterados que não paravam de cantar e lançar gotículas respiratórias, espalhando o vírus para suas famílias e, em seguida, para uma academia e uma igreja – constituindo a maior concentração de casos em Cingapura.

“Queremos ficar um ou dois passos à frente do vírus”, disse Vernon Lee, diretor da divisão de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde de Cingapura. “Se você perseguir o vírus, sempre ficará para trás”.

Cingapura – juntamente com Taiwan e Hong Kong – vem dando exemplos de abordagens bem-sucedidas, pelo menos até agora, na luta contra uma pandemia que já infectou mais de 182 mil pessoas e matou pelo menos 7,3 mil em todo o mundo. Apesar de terem sido atingidas pelo vírus meses atrás, essas três sociedades asiáticas registraram apenas um punhado de mortes e relativamente poucos casos, ainda que continuem a enfrentar riscos, pois pessoas vindas dos Estados Unidos, Europa e em outros lugares em crise trazem o vírus.

A intervenção preventiva é fundamental, assim como o rastreamento meticuloso, as quarentenas forçadas e o cuidadoso distanciamento social, tudo coordenado por uma liderança disposta a agir rápido e ser transparente.

Em Cingapura, os detalhes de onde os pacientes vivem, trabalham e se divertem são rapidamente divulgados online, permitindo que as outras pessoas se protejam. Os contatos próximos dos pacientes são colocados em quarentena para limitar a propagação. O governo reforçou ainda mais suas fronteiras esta semana para evitar uma nova onda de infecções importadas.

Algumas dessas lições chegam tarde demais para os Estados Unidos e a Europa, onde o contágio é intenso e os governos se demoram nos debates sobre suas providências.

E os sistemas de monitoramento em Cingapura, Taiwan e Hong Kong foram construídos ao longo de anos, depois de seu fracasso em impedir outro surto perigoso – a SARS – há dezessete anos. Os Estados Unidos desmantelaram sua unidade de reação a pandemias em 2018.

Nos primeiros dias do surto, Cingapura estava altamente suscetível a contatos com uma grande população de chineses do continente que chegava para o feriado do Ano Novo Lunar.

As dezenas de casos confirmados em Cingapura em janeiro refletem a existência de testes disponíveis ampla e gratuitamente. Muitos eram casos leves que, de outra forma, não teriam sido diagnosticados. No entanto, Cingapura estava correndo para conter o risco de transmissão local descontrolada.

“Até acontecer o que aconteceu com Itália, Coréia e Irã, Cingapura era o pior lugar fora da China”, disse Linfa Wang, diretora do programa de doenças infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Cingapura. “Por que não nos sentimos mal? Porque o governo é muito transparente e porque esse número significa que somos muito eficazes em rastrear e isolar todos os casos”.

Apesar de todo o pânico que irrompeu em outros lugares, a maioria dos cingapurianos não está usando máscaras, porque o governo disse que não é necessário para sua segurança. Boa parte das escolas ainda está em funcionamento, mas com horários escalonados, para evitar grandes aglomerações. E tem papel higiênico de sobra.

Na noite de terça-feira, 17, Cingapura tinha 266 casos confirmados. Apenas uma fração são misteriosos, desvinculados de viagens recentes ao exterior ou dos grupos locais previamente identificados, entre os quais estão duas igrejas e um jantar privado.

Os testes são gratuitos em Cingapura, assim como o tratamento médico para todos os habitantes. O governo tem 140 rastreadores de contato descrevendo o histórico de cada paciente, além de serviços de polícia e segurança investigando à moda antiga.

Depois de semanas de investigação e do uso de um novo teste de anticorpos que consegue detectar pessoas que já se recuperaram, as autoridades de saúde puderam associar dois grupos de igrejas de a um jantar do Ano Novo Lunar que contou com a presença de membros das duas congregações. As pessoas que transmitiram a doença entre as duas igrejas não chegaram a apresentar sintomas graves.

Contatos próximos dos pacientes são colocados em quarentena obrigatória para interromper o contágio. Quase 5 mil pessoas foram isoladas. Aqueles que descumprem as ordens de quarentena podem enfrentar acusações criminais.

Todos os pacientes com pneumonia em Cingapura são testados para coronavírus. O mesmo acontece com os doentes graves. Casos positivos foram identificados no aeroporto, nas clínicas do governo e, mais frequentemente, por meio do rastreamento de contatos.

O regime epidêmico de Cingapura foi moldado pelo surto de SARS em 2003, quando 33 pessoas morreram, com 238 casos confirmados. Como em Hong Kong, profissionais da saúde estiveram entre as vítimas em Cingapura.

O grande número de mortos pela SARS em Hong Kong, quase 300 pessoas, fez com que os habitantes do território semiautônomo chinês pusessem em prática os conhecidos métodos de prevenção de doenças, mesmo enquanto as autoridades locais hesitavam em fechar a fronteira com a China continental. Quase todo mundo começou a esguichar desinfetante nas mãos. Shoppings e escritórios montaram filas de para medir a temperatura das pessoas.

“O mais importante é que as pessoas de Hong Kong têm lembranças profundas do surto de SARS”, disse Kwok Ka-ki, parlamentar de Hong Kong que também é médico. “Todos os cidadãos fizeram sua parte, usando máscaras, lavando as mãos e tomando as precauções necessárias, como evitar lugares cheios e aglomerações”.

O governo de Hong Kong acabou alcançando o mesmo nível de cuidado da população. A vigilância aumentou nas fronteiras. Os funcionários públicos receberam ordens para trabalhar de casa, levando as empresas a seguir o exemplo. As escolas foram fechadas em janeiro, pelo menos até o final de abril.

Taiwan agiu ainda mais rápido. Como Hong Kong e Cingapura, o país estava ligado por voos diretos a Wuhan, cidade chinesa onde se acredita que surgiu o vírus. O Centro Nacional de Comando da Saúde de Taiwan, os qual foi criado depois que a SARS matou 37 pessoas, começou a exigir exames de passageiros vindos de Wuhan no final de dezembro, antes mesmo de Pequim admitir que o coronavírus estava se espalhando entre humanos.

“Como aprendemos nossa lição com a SARS, assim que o surto começou, adotamos uma abordagem que envolve todo o governo”, disse Joseph Wu, ministro das Relações Exteriores de Taiwan.

Até o final de janeiro, Taiwan já havia suspendido voos da China, apesar de a Organização Mundial da Saúde ter desaconselhado a medida. O governo também adotou o big data, integrando seu banco de dados nacional do seguro de saúde com informações de imigração e alfândega para rastrear possíveis casos, disse Jason Wang, diretor do Centro de Políticas, Resultados e Prevenção da Universidade de Stanford. Quando foram descobertos casos de coronavírus no navio Diamond Princess após uma parada em Taiwan, as autoridades enviaram mensagens de texto para todos os telefones celulares da ilha, listando cada restaurante, ponto turístico e destino que os passageiros do navio haviam visitado durante a estadia.

Até terça-feira, Taiwan havia registrado 77 casos de coronavírus, embora os críticos se preocupem com o fato de os testes não serem suficientes. Os alunos voltaram às escolas no final de fevereiro.

Lee Hsien Loong, primeiro-ministro de Cingapura, alertou na semana passada que o número de casos no país aumentaria bastante. Cingapura anunciou 23 novos pacientes com coronavírus na terça-feira, a maior contagem em um dia, com 17 casos importados.

A cidade-estado restringiu ainda mais suas fronteiras. Pessoas que chegam do sudeste asiático e de certas regiões da Europa agora devem passar por uma quarentena de 14 dias.

“O mundo é tão frágil quanto seu elo mais fraco”, disse Lee, chefe da divisão de doenças transmissíveis de Cingapura. “As doenças não respeitam fronteiras”. / Tradução de Renato Prelorentzou

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