GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Rastreio de câncer de pulmão é ideia controversa

Mas novos estudos agora sugerem que estratégia pode funcionar

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 03h00

A doença começa como algo trivial, como uma tosse que não desaparece. Mas com frequência o câncer do pulmão não tem sintomas até ser tarde mais. É o caso de Graham Thomas, que em 2014 descobriu que por trás de uma pneumonia havia um câncer no estágio 4. O estágio 4 no jargão médico significa um tumor que se espalhou para outras partes do corpo. Não há um estágio 5.

Graham hoje faz parte de uma campanha da Roy Castle Lung Cancer Foundation que visa chamar atenção para o conhecimento da doença na Grã-Bretanha. Ele começou a fumar aos 14 anos e diz que as pessoas acham que seu câncer é sua culpa, que é o tipo de câncer que menos merece simpatia. Mas ele afirma que talvez não seja, porque é o que mais mata.

Uma razão pela qual o câncer de pulmão é tão fatal é que, na hora do diagnóstico, três quartos das pessoas afetadas por ele já estão no estágio 4. Na Europa, a taxa de sobrevivência após o diagnóstico é de 13%, com pouca variação entre os países.

Localizar tumores na fase inicial permitiria que eles fossem tratados antes que se propaguem, melhorando os resultados e reduzindo os gastos médicos. Mas muitos lugares que convidam as pessoas a participarem de programas para detecção da doença se concentram mais em cânceres de mama, intestino, próstata e do colo do útero e resistem à ideia do de pulmão.

Além da questão do falso positivo (quando o exame dá positivo para câncer, mas na verdade o paciente não está doente), mesmo quando o exame está correto e detecta câncer, esse tumor com frequência é um que não encurtará a vida do paciente, porque ele morreria de outras causas. Mas a todos os homens que passam pelo exame é oferecido tratamento e muitos o fazem, com riscos de efeitos colaterais.

De acordo com Bob Steele, professor da Universidade de Dundee e presidente do National Screening Committee do Reino Unido, “você tem de tratar 30 homens para salvar um da morte”.

A primeira evidência de que o exame para diagnosticar um câncer no pulmão pode ser benéfico, apesar das várias preocupações, veio do estudo americano National Lung Screening Trial (NLST), realizado entre 2002 e 2009. O estudo listou 53 mil pessoas entre 55 e 74 anos que fumaram um maço de cigarros ou mais por dia durante um ano. Em vez de realizar os exames normais de raio X foram feitas tomografias computadorizadas em baixas doses. Os participantes foram examinados anualmente durante três anos.

No final do experimento, os que realizaram a tomografia computadorizada tinham 20% menos probabilidade de ter morrido por causa de um câncer do pulmão do que os que foram submetidos ao exame de raio. O equivalente a três menos mortes para cada grupo de mil pessoas examinadas, tendo mostrado ainda um declínio de 7% na mortalidade por todas as causas.

O NLST decidiu estabelecer a tomografia computadorizada como o caminho a seguir. Hilary Robbins, da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer, que pertence à Organização Mundial da Saúde (OMS), observa que os exames ainda geram preocupações com os falsos positivos porque eles sinalizaram 365 pessoas em mil como necessitando de acompanhamento. Mas com aperfeiçoamentos do protocolo usado, que hoje ignora anomalias menores porque elas raramente são cancerígenas, os números dos falsos positivos caíram à metade, e o número de pessoas sofrendo complicações também diminuiu.

Evidências como esta têm convencido algumas pessoas (mas nem todas) de que o exame para detecção de câncer do pulmão é valioso em algumas circunstâncias. E em uma parte do mundo essa convicção está sendo traduzida em ação. Hoje há planos na Inglaterra de se oferecer nos próximos quatro ano um check-up de pulmão em uma clínica local para mais de meio milhão de pessoas que foram fumantes. 

Caminho. Embora os mais céticas aleguem que o dinheiro seria mais bem gastos para convencer as pessoas a deixarem de fumar - ou impedir que comecem a fumar -, a tese do exame para detecção de um câncer do pulmão hoje parece boa. E certamente produzirá resultados no caso dos fumantes. Mas esse exame deixará de fora uma a cada cinco pessoas que sofrem da doença e que nunca fumaram. Para ser econômico, o teste terá de focar naqueles, como Graham Thomas, que conscientemente colocaram sua vida em perigo. Todos os demais serão excluídos do processo. Uma ironia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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