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Turista aparece usando máscara em Roma; região é uma das poucas turísticas que não estão sob quarentena  EFE/EPA/ALESSANDRO DI MEO

Reação internacional ao coronavírus: aulas suspensas, quarentenas e 70 mil detentos liberados

Na esteira da Itália, que ordenou isolamento compulsório a um quarto de sua população, países como França, Portugal, EUA e Irã também têm adotado medidas drásticas para impedir que vírus se espalhe

João Ker, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 12h38

O governo da Itália determinou o fechamento de seus museus, teatros, cinemas, salas de concerto, bares, salas de jogos, escolas de dança, discotecas e outros locais semelhantes em todo o país, até 3 de abril, para combater a disseminação do coronavírus. De acordo com um decreto assinado no domingo, 8, o país colocou cerca de 16 milhões de pessoas sob quarentena

Apesar de ser o país com maior letalidade por coronavírus na Europa e o segundo do mundo, atrás apenas da China, a Itália não é o único território que tem tomado medidas consideradas drásticas em outro contexto para evitar a disseminação da doença. Abaixo, confira algumas regiões que também impuseram isolamentos, suspensões e até liberaram a população carcerária:

IRÃ

Cerca de 70.000 detentos do Irã foram liberados nesta segunda-feira, 9, após a epidemia de coronavírus no país. “A liberação de prisioneiros, até o ponto em que não crie insegurança na sociedade… vai continuar”, afirmou Ebrahim Raisi, chefe do judiciário iraniano. Ele ainda não especificou quando ou se os presos terão que retornar ao sistema carcerário. 

EUA

Na manhã desta segunda-feira, 9, as Universidades de Stanford e de Columbia cancelaram suas aulas presenciais por medo de contaminação do coronavírus, enquanto escolas de Los Angeles a Nova York também fecharam os portões até 18 de março. No ensino superior, os cursos passarão a ser ministrados online, pelo menos ao longo das próximas semanas. 

PORTUGAL

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, afirmou no domingo, 8, que se colocou em uma “quarentena voluntária” e cancelou todas as suas atividades públicas, em meio ao surto de coronavírus na Europa. O presidente recebeu alunos de uma escola que foi fechada por causa de um estudante infectado e, mesmo não apresentando sintomas, o líder decidiu "dar exemplo de tomada de medidas preventivas enquanto trabalhava de casa".

Nesta segunda-feira, 9, tanto a Universidade do Porto quanto a do Minho suspenderam suas aulas, após alunos de ambas as instituições serem diagnosticados com o novo coronavírus. 

FRANÇA

Reunião com mais de 1000 pessoas foram proibidas na França, o que gerou um efeito cascata de cancelamentos e adiamentos em várias regiões. O Museu do Louvre, por exemplo, restringiu o acesso de visitantes na manhã desta segunda, 9, em adição às escolas que já estavam fechadas para sanitização em algumas regiões do país.

GRÉCIA

A Grécia proibiu eventos esportivos com espectadores e visitas escolares por duas semanas consecutivas. A medida foi tomada após o número de casos de coronavírus no país aumentar dez vezes, de sete para 73.

ALEMANHA

O ministro de Saúde da Alemanha, Jens Spahn, pediu no domingo, 8, o cancelamento de todas as manifestações com mais de mil pessoas no país, diante da propagação da epidemia de coronavírus. O pedido foi feito frente as caminhadas pelo Dia Internacional da Mulher. 

VATICANO

No domingo, 8, o papa Francisco fez sua tradicional missa por vídeo. A ação foi para conter a multidão que sempre acompanha a celebração na Praça de São Pedro, no Vaticano. "Estou em oração com as pessoas que sofrem com a atual epidemia de coronavírus", disse o pontífice, de 83 anos, em mensagem gravada na biblioteca do Vaticano. Havia uma pequena multidão na praça e o Papa apareceu brevemente para cumprimentá-las.

CHINA

Mais de 50 milhões de pessoas estão isoladas na província de Hubei por conta do isolamento sanitário imposto desde janeiro. Em todo o país, quarentenas foram aplicadas de formas mais ou menos drásticas, chegando até a proibição de sair. Em Pequim, turistas dos países que foram “gravemente afetados” pela doença são colocados em quarentena compulsória de 14 dias. A medida foi estabelecida em 26 de fevereiro.  

VIETNÃ

A província de Son Loi, e seus 10.000 habitantes, está passando por 20 dias de quarentena, enquanto o país já registra seis casos de infecção pela doença.

COREIA DO NORTE

Um total de 3.650 pessoas que estavam em quarentena nas províncias de Kangwon e Chagang voltaram à vida normal no último dia 5. Desde o início de fevereiro, 380 residentes estavam em quarentena domiciliar. O país também havia suspendido as conexões aéreas e ferroviárias com o exterior, além de ter barrado a entrada de turistas na região.

HONG KONG 

O país impôs uma quarentena de duas semanas a todo turista que chegue da China continental. Quem não respeitar a medida pode ser condenado a até seis meses de encarceramento. 

VOOS

O governo das Ilhas Marshall proibiu temporariamente o desembarque de pessoas que viagem em voos internacionais. Depois de impor bloqueio temporário em uma região produtora de petróleo para conter a transmissão do novo coronavírus, o governo da Arábia Saudita também suspendeu viagens para nove países. 

A companhia aérea marroquina Royal Air Maroc informou neste domingo, 8, que suspendeu os voos para Veneza e Milão, enquanto a Iran Air suspendeu todos os voos de e para a Europa até novo aviso, informou a agência de notícias semi-oficial Isna.

O Kuwait também suspendeu todos os voos de e para o Egito, Líbano, Síria, Bangladesh, Filipinas, Índia e Sri-Lanka. A medida foi tomada no último sábado e se estende por uma semana. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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Europa, de olho na quarentena decretada na Itália, planeja novas medidas

França e Alemanha vem realizando reuniões de emergência a fim de encontrar respostas para a epidemia; há receio de que outros países do continente adotem medidas drásticas como a da Itália

Mark Landler, The New York Times

09 de março de 2020 | 11h31

LONDRES - Na Itália, o confinamento generalizado do norte do país repercutiu por toda a Europa no domingo, aumentando o temor de medidas similarmente draconianas por Londres a Berlim, com as autoridades lutando para de algum modo diminuir a rápida propagação do novo coronavírus em várias das sociedades mais abertas e democráticas do mundo.

Até o momento, nenhum outro país europeu foi tão atingido pelo vírus como a Itália. Mas com os casos confirmados chegando a mais de mil na França e 900 na Alemanha, os dois países suspenderam reuniões públicas com grande número de pessoas e seus líderes vêm realizando reuniões de emergência para estudar de que modo intensificar a resposta à epidemia.

A decisão da Itália de colocar em quarentena um quarto da sua população, paralisando seu centro econômico e afetando a vida de 15 milhões de pessoas, tem repercussões na economia de toda a Europa, uma vez que as montadoras alemãs ficarão privadas de peças cruciais, fábricas em outras partes do continente serão obrigadas a fechar e a situação deve levar o continente a uma recessão, segundo analistas.

E é também um teste da unidade da Europa, já abalada com a saída da Grã-Bretanha do bloco, há seis semanas. Em Bruxelas, as autoridades apelaram, sem resultado, à França, Alemanha e República Checa para suspenderem seus controles das exportações de equipamentos médicos de proteção estabelecidos para evitar uma escassez no plano doméstico. Na Grã-Bretanha, as lojas já começam a impor racionamentos.

Até agora, a Itália está sozinha como zona de perigo na Europa, o primeiro país ocidental a ser afetado por uma epidemia em larga escala do vírus originário da China. Mas à medida que o número de casos confirmados aumenta em praticamente todos os países vizinhos, a nação agora parece menos uma exceção assustadora e mais um presságio do que pode vir a ocorrer.

As disputas revelam as limitações da União Europeia para enfrentar uma crise de saúde pública que atinge um continente inteiro. A saúde é uma área que compete aos Estados membros. Com sistemas de saúde diferentes, como também diferentes níveis de infecção, os países é que determinam suas próprias respostas à epidemia.

A epidemia já vem perturbando a vida cotidiana na Europa de modo importante ou menor. O Banco Central Europeu, que deverá injetar recursos no sistema financeiro esta semana para amortecer o abalo provocado pelo vírus, manteve a maior parte dos seus 3,5 mil funcionários em casa para testar como lidará com a situação.

 A cadeia de supermercados britânica Tesco começou a racionar sabonetes antibacterianos, lenços e massas depois que os clientes esvaziaram as prateleiras, uma mostra inusitada do nervosismo em uma sociedade que se orgulha do seu sangue-frio.

“Estamos vendo na Itália que as autoridades reconheceram o fracasso do isolamento decretado e que o vírus vem se propagando”, disse Devi Sridhar, diretor do programa de governança de saúde global na universidade de Edimburgo. “Você vai observar esta resposta em qualquer país europeu onde as autoridades poderão programar esses bloqueios.”

Na Alemanha, onde o governo adotava uma estratégia mais prática para conter o coronavírus, o ministro da saúde mudou de tática, insistindo para que grandes eventos sejam anulados ou adiados, mas não estabeleceu uma proibição formal como a imposta no mês passado pela Suíça.

Até agora, nenhuma morte ocorreu na Alemanha, mas o número de casos saltou para 903 no domingo. O que, aparentemente, foi suficiente para as autoridades revisarem sua prática de deixar para as autoridades regionais e locais aprovarem ou não a realização de eventos e confiar que os cidadãos adotarão uma decisão sensata a respeito.

“Eu incentivo de maneira enfática que eventos com mais de mil pessoas sejam anulados até um novo aviso”, declarou o ministro da Saúde Jens Spahn, à agência de notícias DPA, citando “os acontecimentos dos últimos dias”.

Na França, onde já ocorreram 19 mortes e 1.126 pessoas foram infectadas, o governo proibiu reuniões com mais de mil pessoas. Escolas foram fechadas em duas regiões (Oise e Haut-Rhin) fortemente atingidas pelo vírus.

No domingo, o presidente Emmanuel Macron se reuniu com seu conselho de defesa, preparando o país para entrar no Estágio Três de preparação de combate da epidemia. O que incluirá a implementação de protocolos de proteção à saúde mais rigorosos para evitar uma sobrecarga dos hospitais, mantendo as pessoas com sintomas menos graves em casa.

A França também adotou medidas para garantir seus suprimentos médicos, mantendo máscaras faciais, gel para as mãos e outros produtos de proteção dentro do país, não obstante os apelos feitos pelas autoridades em Bruxelas para o país compartilhar seus estoques com outras nações europeias. 

Com notícias de que máscaras estavam sendo roubadas de hospitais e um aumento nos preços de equipamentos essenciais como álcool em gel, autoridades entraram em alerta. As proibições de exportações de máscaras e outros equipamentos de proteção “podem corroer nosso enfoque coletivo no enfrentamento da crise”, afirmou Janez Lenarcic, comissário de gestão de crises da União Europeia.

A Espanha, que reportou 13 mortes e mais de 500 casos, também resistiu a adotar uma resposta mais abrangente. As autoridades proibiram alguns grandes eventos, como a maratona de Barcelona. Mas outros foram realizados, incluindo manifestações em Madri e outras cidades em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. E o governo não ordenou o fechamento das escolas.

“Não temos uma situação aqui na Espanha onde, em nível de país, estamos numa situação de transmissão geral e descontrolada”, disse Fernando Simón, chefe do centro de coordenação da Espanha para alertas e emergências de saúde.

Alguns especialistas europeus afirmam que o fechamento de partes inteiras dos países implica um custo econômico que pode ser maior do que o risco da epidemia à saúde. Eles estão preocupados de que o recente sucesso da China no controle da epidemia, depois de estabelecer uma quarentena na cidade de Wuhan e na província de Hubei, isso venha a encorajar mais países a adotarem medida similar.

“Vivemos hoje num mundo onde vírus como este surgirão cada vez com mais freqüência”, afirmou François Bricaire, membro da Academia de Medicina da França e especialista em doenças infecciosas. “Se, a cada evento desse tipo, os países reagirem desta maneira, levaremos a economia inteira a um colapso”. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO 

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