Reação internacional ao Ebola é lenta, dizem presidentes africanos

Reação internacional ao Ebola é lenta, dizem presidentes africanos

Segundo Banco Mundial, perdas no oeste da África podem somar US$ 32,6 bilhões até 2015; FMI promove debate para discutir vírus

Cláudia Trevisan, Correspondente de O Estado de S. Paulo

09 Outubro 2014 | 11h36

WASHINGTON - Os presidentes dos três países africanos que estão no centro da epidemia de Ebola afirmaram nesta quinta-feira, 9, que a reação internacional ao vírus é lenta e insuficiente e deve ganhar um sentido de urgência para que o ritmo de expansão da doença seja contido. A situação em Serra Leoa, Libéria e Guiné se agravou nos últimos dias, ao mesmo tempo em que os primeiros casos de diagnóstico e contaminação fora da região foram registrados nos Estados Unidos e na Espanha.

"Em meus 30 anos de saúde pública, a única situação semelhante que vivi foi a aids. Temos que lutar para que essa não seja a próxima aids", disse o diretor dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), Thomas Frieden, durante encontro para discutir a resposta ao Ebola promovido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial em Washington.

A reunião teve a participação dos três presidentes africanos, de organizações multilaterais e de representantes de países europeus, asiáticos e norte-americanos. "Eu voltei da África Ocidental há 12 horas e posso dizer que a situação está pior do que 12 horas atrás, quando cheguei lá", declarou Bruce Aylward, da Organização Mundial de Saúde (OMS). 

Segundo ele, o vírus ocupou as capitais e sua transmissão está se acelerando, com um índice de mortalidade de 70%. Aylward afirmou que falta unidade na resposta internacional e defendeu a adoção de três metas comuns: 70% de enterros seguros e 70% de isolamento dos doentes no prazo de 60 dias.

Os presidentes africanos pediram recursos para criar milhares de leitos adicionais, treinar profissionais de saúde e construir a logística necessária para enfrentar a doença. Também precisam que outros países enviem médicos e enfermeiras que auxiliem no tratamento dos infectados.

"Em geral, a resposta internacional tem sido mais lenta do que o ritmo de transmissão do vírus", disse o presidente de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma, que participou da reunião por vídeo.

A mobilização de profissionais especializados é um dos grandes desafios no combate à doença. Sem estrutura adequada, muitos foram infectados e morreram nos países que estão no centro da epidemia. 

David Olson, representante da instituição Médicos Sem Fronteiras, afirmou que um dos grandes desafios no combate à doença é o medo dos doentes e dos profissionais de saúde. 

"As pessoas têm o temor de que ir a centros de tratamento representa uma sentença de morte", observou. "Não podemos interromper a transmissão se não houver confiança no sistema. Os doentes têm de ter confiança de que receberão tratamento e as pessoas que trabalham nos centros de atendimento não devem ter medo de prover o tratamento."

Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial, ressaltou que a epidemia pode ter um impacto econômico "catastrófico". Se não for contida, as perdas na região podem chegar a US$ 32,6 bilhões até o fim de 2015, estimou.

Os líderes de Libéria, Guiné e Serra Leoa fizeram um apelo para que os demais países mantenham suas fronteiras abertas e evitem estigmatizar suas populações. O contrário agravaria ainda mais a difícil situação econômica que enfrentam, com impacto negativo da doença sobre o turismo, agricultura e outras atividades produtivas.

Desde o início da epidemia, em março, 8.033 pessoas foram infectadas, das quais 3.879 morreram.

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