Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Rede estadual do Rio não tem mais leitos de UTI para covid-19 na capital

Único hospital com vagas para quadros mais graves fica no Sul do Estado; hospitais de campanha são aposta do governo

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 10h19
Atualizado 28 de abril de 2020 | 14h48

RIO - Segundo Estado com o maior número de casos e mortos pelo coronavírus no País, o Rio não tem mais leitos de UTI da rede estadual disponíveis na capital. A única unidade em que ainda há vagas para os pacientes mais prejudicados pela doença é o Hospital Regional Zilda Arns, em Volta Redonda, a cerca de 120 quilômetros da capital fluminense. 

A saturação do sistema se dá antes de o governo inaugurar os oito hospitais de campanha anunciados pela administração de Wilson Witzel. Serão, ao todo, 1,8 mil leitos nessas novas unidades, incluindo UTI e enfermaria. A primeira delas vai ser aberta nesta sexta no Leblon, zona sul da cidade. Trata-se de um hospital planejado pela Rede D’Or e financiado pela iniciativa privada. 

Considerando todos os hospitais do Estado, a rede está com cerca de 80% de ocupação nos leitos de UTI, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. Ainda de acordo com a pasta, a fila para conseguir uma vaga conta com 220 pessoas; ao todo, até esta quinta-feira, 2.037 fluminenses estavam internados na rede estadual com quadro de covid. 

Essa sobrecarga do sistema não afeta apenas os infectados pelo novo coronavírus. Mesmo antes de os leitos estarem oficialmente lotados, pacientes já reclamavam da dificuldade de conseguir uma internação em UTIs. Em meio à pandemia, a assistente de administração Nubia Lucena, de 36 anos, perdeu o pai, que sofria de tuberculose. Antes dele morrer, na semana passada, a carioca passou dias de agonia na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Tijuca, zona norte da cidade. 

Com 66 anos e recém-aposentado, Mario Braz de Lucena foi internado no posto de saúde e não conseguiu transferência para a UTI de um hospital, mesmo com liminares obtidas na Justiça. “Disseram que não tinha vaga, que nenhum hospital tinha vaga. Meu pai foi negligenciado não pela UPA, porque eu sei que eles fizeram o que podiam. Mas ele tinha que ter sido transferido, tinha que ter sido atendido da forma correta”, diz ela. 

Emocionada, Nubia chora ao falar que o sentimento é de impotência. “Meu pai pagou imposto a vida inteira, se aposentou faz pouquíssimo tempo, esse era o tempo que ele tinha para descansar. Eu tenho consciência de que se ele tivesse sido transferido a gente tinha tentado tudo o que podia. E não foi assim que aconteceu, não foi. Com certeza o Estado negligenciou a vida do meu pai.”

Segundo o governo, há uma rotativa de vagas de UTI que ocorre por meio de altas, mortes e “reservas técnicas” de leitos para pacientes internados que tenham agravamento do quadro clínico.

A esperança de aliviar o sistema saturado está na abertura dos oito hospitais de campanha. O do Leblon, inaugurado nesta sexta, terá funcionamento reduzido neste início de operação, com apenas 30 leitos, sendo dez de UTI. “A inauguração do hospital de Leblon é fundamental para o sistema público de saúde, especialmente neste momento em que as taxas de ocupação na rede estadual crescem rapidamente”, comentou o secretário de Saúde, Edmar Santos.

Witzel também destacou a importância dessas unidades para aliviar o sistema. Ao final de sua declaração sobre a unidade do Leblon, voltou a dar sinais de que já planeja uma reabertura da economia quando os índices da Saúde melhorarem. “Com o tempo e a certeza de que não estaremos colocando vidas em risco, poderemos ter a volta gradual e regionalizada das atividades que hoje estão suspensas”, disse. 

Outra unidade que está com as obras quase prontas é a do Maracanã, na zona norte, que será o maior hospital de campanha estadual, com 400 leitos. A previsão de inauguração é nos primeiros dias de maio. As demais unidades serão abertas de modo gradativo ao longo do mês que vem, dependendo da demanda em cada região do Estado. 

Dentro dos hospitais fixos da rede, a secretaria afirma que já abriu, ao longo da pandemia, 521 vagas exclusivas para vítimas da covid.  Além dos leitos, outro problema é a falta de respiradores. O Executivo fluminense tem reclamado da demora do governo federal para enviar equipamentos ao Estado. Segundo a secretaria de Saúde, 37 novos respiradores foram distribuídos às unidades nesta semana. 

No caso da enfermaria, a ocupação dos leitos da rede  é menor do que na UTI: 66%. O aumento semanal, contudo, ocorre em ritmo parecido.

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