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Redes sociais e gravidez precoce

Especialistas acreditam que o uso mais disseminado das redes sociais teria também um impacto no comportamento sexual

Jairo Bouer *, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 03h00

Será que as redes sociais estão por trás da queda das taxas de gravidez na adolescência nos países desenvolvidos? Novos números divulgados na semana passada no Reino Unido revelam uma diminuição de 50% das garotas que engravidaram nos últimos oito anos, o índice mais baixo já registrado!

Apenas 21 a cada mil adolescentes com idade entre 15 e 17 anos engravidaram em 2015. Em 2007, eram 42 a cada mil. Entre as garotas mais novas, com idade entre 13 e 15 anos, a queda foi ainda mais acentuada, de 8,1 para 3,1, a cada mil meninas, no mesmo período. Os dados do Escritório Nacional de Estatísticas (ONS) foram divulgados pelo jornal britânico Daily Mail.

No início dos anos 2000, foi aplicada no Reino Unido a estratégia de “dez anos para reduzir a gravidez na adolescência”, que previa, entre outras iniciativas, a melhora dos programas de educação sexual nas escolas e acesso facilitado aos métodos contraceptivos, incluindo a pílula do dia seguinte.

Mas, para os especialistas, a explicação por trás dessa queda não está apenas em mais informação e mais pílula. Para eles, houve uma mudança de postura das garotas em relação à educação, ao projeto de vida e ao estigma atrelado à gravidez nessa fase da vida. Elas hoje querem permanecer mais tempo na escola e adiar a maternidade. Além disso, eles acreditam que o uso mais disseminado das redes sociais teria também um impacto no comportamento sexual. Essas garotas mais conectadas fariam parte da chamada “geração sensata”, jovens que evitam comportamentos de risco, como fumar, beber e usar drogas. Nesse contexto, elas adotariam também maior cuidado no sexo. Haveria uma coincidência temporal entre a queda nas taxas de gravidez e o tempo crescente que essas garotas passam nas redes sociais.

Outro trabalho da Florida Atlantic University, dos EUA, publicado no fim de 2016, no Archives of Sexual Behavior, dá força a essa teoria. Para os pesquisadores, a geração dos encontros mediados pelos aplicativos faz, na prática, menos sexo do que seus pais. Fechados em seus quartos, o interesse em “brincar” de marcar encontros pode ser bem maior do que o desejo genuíno de fazer sexo.

A maior segurança e a menor pressão de ficar apenas no virtual também podem ter peso, tudo isso em um mundo em que eles vivem uma autonomia inédita para lidarem com a vida sexual. Bom lembrar que os EUA, nos últimos anos, também têm alcançado as taxas de gestação na adolescência mais baixas da sua história.

Vulnerabilidades. No Brasil, a situação ainda é bastante complicada. Apesar da queda das taxas nas últimas décadas, os números ainda são bastante desiguais e, em média, seguem elevados. Os casos são mais concentrados nas populações mais vulneráveis e, também, nas Regiões Norte e Nordeste. 

Dados do Ministério da Saúde apontam cerca de 1,1 milhão de gestações na adolescência no Brasil em 2016. Um a cada quatro ou cinco partos acontece em garotas de 10 a 20 anos. Além de estruturar melhor programas de educação sexual nas escolas, principalmente na rede pública, seria importante rediscutir acesso a métodos contraceptivos mais eficazes. Sabe-se, por exemplo, que o uso de pílula convencional ou de preservativo entre as garotas é bastante irregular. Elas têm vergonha de retirarem comprimidos e camisinhas nos postos, se esquecem de usar o método e ainda têm receio dos impactos dos hormônios no peso e na aparência. 

Alguns países inovaram e já oferecem pílula do dia seguinte nas escolas. Como método de uso eventual, ele acaba sendo mais popular entre as meninas. Porto Alegre, por exemplo, iniciou em 2016, um programa de colocação de implantes hormonais subcutâneos, que podem durar até três anos. A ideia é garantir proteção maior às meninas mais vulneráveis de 15 a 18 anos, que tenham autorização dos pais.

Mas é importante trabalhar também a quebra de paradigmas e uma nova postura das garotas em relação à gravidez precoce, investindo em educação e projeto de vida. Uma última lembrança: estudo recente feito nos EUA, na Universidade de Indiana, mostra que um pequeno aumento no salário mínimo poderia reduzir em até 2% a taxa de gravidez na adolescência. Com mais estímulos para se inserir no mercado de trabalho, as meninas se cuidariam mais e adiariam uma possível gestação. 

* É PSIQUIATRA

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