Tiago Queiroz/Estadão
Medidas emergenciais em comunidades podem evitar mortes pelo coronavírus em São Paulo. Tiago Queiroz/Estadão

Reduzir população em favelas e investir em higiene podem salvar até 26 mil do coronavírus em SP

No Rio, cenário sem medidas de intervenção poderia causar até 93 dias sem vagas em UTIs

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 15h00

A adoção de uma série de medidas contra o novo coronavírus em favelas – que envolvam reduzir em até metade a densidade demográfica das comunidades, criem estruturas de saneamento emergenciais e ofereçam produtos de higiene – poderia reduzir a pressão sobre o sistema de saúde e salvar milhares de vidas. No Estado de São Paulo, poderiam ser até 26 mil vidas salvas; no Rio, 15 mil.

Os cálculos são de um grupo de pesquisadores especialistas em modelagem de dinâmica de sistema que se uniram ao coletivo Favelas contra o Coronavírus. Uma vez que nas comunidades é praticamente impossível aplicar o isolamento social – uma das principais recomendações para evitar a expansão da covid-19 – e nem sempre é garantido que a medida mais eficaz de proteção seja posta em prática o tempo todo, que é lavar as mãos, a ideia dos pesquisadores foi propor outras saídas. que envolvem, entre outras coisas, um esvaziamento das favelas.

Eles criaram um simulador para estimar o efeito de sete ações combinadas em diferentes proporções: remoção temporária de moradores das favelas para equipamentos públicos ou para hotéis, subsídio a insumos de higiene, renda básica para comprar produtos de higiene; estruturas emergências de saneamento; expansão de UTIs e uso de máscaras faciais. 

A primeira análise foi feita para o Estado do Rio, onde vive, proporcionalmente, a maior população em favelas no Brasil. Segundo dados do IBGE, no Estado há 2,2 milhões vivendo em favelas, 13% da população, em uma densidade demográfica média de 9.900 pessoas por km². 

Na melhor combinação de medidas, o grupo avaliou que reduzir pela metade a densidade demográfica das favelas do Estado, com a transferência temporária de cerca de 5.000 pessoas/km², a criação de estruturas emergenciais de saneamento em todas as favelas que não tem o serviço, o fornecimento de produtos de higiene para 50% dos domicílios, e a construção de 20 UTIs/dia no Estado desde o início da epidemia poderiam salvar até 15 mil vidas – ou 16% das potenciais vítimas do Estado. 

Sem intervenções (não só nas favelas, mas em todo o Estado), estimam os pesquisadores, o Rio poderia ficar entre 41 e 93 dias sem vagas em UTIs (do melhor ao pior cenário). Com essa estratégia acima, os dias sem UTI cairiam para algo entre 34 (no melhor cenário, com outras intervenções nas cidades) e 52 dias. 

Para São Paulo, essas mesmas condições poderiam salvar até 26 mil vidas, ou 14% das potenciais vítimas, porque a população de favela em SP é proporcionalmente menor que a do Rio (7% do total). 

Sem intervenção, o Estado poderia ficar entre 42 (melhor cenário) e 105 (pior cenário) dias sem vagas em UTI para novos doentes (não só de coronavírus, mas de qualquer doença ou acidente). Com essas medidas, os dias sem leito disponível caem para algo entre 38 e 70 dias sem UTI.

“Estamos diante de um problema que já é complexo, mas que é piorado pela desigualdade, pela pobreza. As pessoas não têm nem sequer acesso à água limpa todos os dias. Fomos ouvi-los sobre o que estava faltando e daí elaboramos essas estratégias combinadas”, afirma o engenheiro Vinícius Picanço, professor de Operações e Sustentabilidade do Insper.

No simulador, que pode ser acessado na internet, foram pensadas pelo menos seis estratégias, com mais ou menos gente sendo retirada das favelas, com mais ou menos investimento em saneamento de emergência e em produtos de higiene. Cada uma teria um impacto diferente no potencial de contaminação e na pressão sobre o sistema de saúde.

“Não tem uma bala de prata. Não dá para confiar em uma medida só e dizer que com isso estará tudo bem. O simulador ajuda a fazer a combinação das dosagens adequadas para cada favela para que a estratégia seja bem sucedida. Não temos uma solução única”, diz Picanço.

“Como estamos falando do colapso do sistema de saúde, tivemos uma preocupação em tentar minimizar os dias sem UTI disponível. Medidas menos intensas ou não fazer nada pode levar a mais de cem dias sem UTI para ninguém, não só para casos de coronavírus”, complementa o pesquisador.

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Paraisópolis cria rede de solidariedade para conter danos do coronavírus

Auxílio a diaristas em aplicativo e distribuição de marmitas estão entre as ações na comunidade

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 15h00

Comunidades carentes se organizam numa ampla rede de solidariedade para tentar colocar comida na mesa do brasileiro, enquanto o auxílio emergencial do governo de R$ 600 não chega à população que perdeu o trabalho do dia para noite por causa da pandemia do novo coronavírus.

Em Paraisópolis, zona Sul de São Paulo, foi criada a campanha “Adote uma diarista” dentro da plataforma digital Emprega Comunidade, que é uma espécie de LinkedIn da favela. Normalmente, essa rede profissional conecta empresas com candidatos que moram na periferia. Agora passou a ter também a função de ajudar as diaristas, dispensadas do trabalho, a terem alguma renda.

“Por conta da pandemia tivemos um crescimento muito grande do número de mulheres diaristas procurando apoio. Elas estão desesperadas porque não têm dinheiro para pagar aluguel, fazer as compras básicas”, diz Rejane Santos, fundadora do Emprega Comunidade.

A intenção da campanha é ajudar as diaristas por três meses, oferecendo uma cesta básica, um kit com produtos de higiene e um bônus de R$ 300. Recursos doados por empresas, pessoas físicas e uma vaquinha virtual bancam a campanha. Rejane conta que a expectativa inicial era ajudar cerca de 500 diaristas, mas já recebeu a inscrição de mil. Destas, 150 estão recebendo o benefício.

Eduarda Dantas dos Santos, de 21 anos, é uma das diaristas que está recebendo ajuda do programa da comunidade. “Se não fosse isso, a gente não estaria aqui para contar a história”, diz. Com dois filhos pequenos, trabalhava como diarista fazia três anos e tirava cerca de R$ 2 mil por mês, indo a três casas por semana.

Com a pandemia, a patroa americana voltou para os Estados Unidos. As outras duas a dispensaram sem oferecer qualquer ajuda. “A gente da periferia está numa situação difícil: se sair de casa morre, se ficar, passa fome. O governo tem que ajudar.” Eduarda fez a inscrição para receber o auxílio emergencial de R$ 600. Mas quando acessa ao site, a resposta tem sido: “pedido em análise”.

Esse também é resposta que a diarista Andréia Neres da Silva, de 42 anos, mãe de três filhos, tem recebido do programa de auxílio emergencial. Desde que foi dispensada, sem nenhum apoio, das quatro casas onde fazia faxina em bairros nobres da capital (Pinheiros, Morumbi e Moema), ela vive com R$ 130 que recebe do Bolsa Família, do programa da comunidade e de doações de pessoas que se sensibilizaram com sua situação, depois que o filho mais velho, também desempregado, colocou um pedido de ajuda nas redes sociais. “A situação é angustiante, desesperadora.”

Ela conta que a  patroa de uma colega disse que, enquanto tivesse trabalho, a diarista também teria. “Que Deus abençoe, fico feliz pelo próximo também. Estamos todos no mesmo barco”, diz Andréia, sugerindo que essa seria a atitude que ela esperava por parte de suas patroas.

Andréia e Eduarda não estão sozinhas na falta de renda provocada pela pandemia. Estudo do Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos dados da Pnad contínua do IBGE, mostra que havia em 2018 (último dado disponível) 2,5 milhões de diaristas no País.

Janaína Mariano de Souza, presidente do Sindoméstica, que representa as empregadas domésticas da Grande São Paulo, diz que tem recebido de 20 a 25 mensagens por dia de diaristas pedindo ajuda. Mas, como elas não têm carteira assinada, a orientação é buscar o auxílio emergencial do governo. Aos empregadores que procuram a entidade, o pedido é que mantenham o pagamento da diária e que façam uma compensação posterior, conta.

Marmitas

Elizandra Cerqueira, da Associação de Mulheres de Paraisópolis e sócia do empreendimento social Mãos de Maria, que além de outras atividades tem um restaurante na comunidade, viu seu negócio ser afetado pela pandemia. Para atender à demanda da comunidade por alimentação e continuar empregando 20 cozinheiras, ela e a sócia decidiram produzir marmitas que são distribuídas de graça para os moradores da favela.

“Desde 23 de março já distribuímos 15 mil marmitas e a demanda tem sido maior do que esperávamos”, diz Elizandra. Ela criou uma vaquinha na internet, onde quem quiser contribuir compra uma marmita por R$ 10. O dinheiro é usado para a aquisição dos ingredientes e para pagar o salário das cozinheiras. Empresas e pessoas físicas, até aqueles que vivem no exterior, têm contribuído para bancar a marmita. A equipe também recebe doação em produtos para preparar as refeições.

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ONGs se mobilizam para ajudar favelas no Rio a combater covid-19

Comunidades no Estado totalizam ao menos sete mortes pelo novo coronavírus

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 15h00

RIO - Eliana Sousa Silva está à frente da campanha A Maré diz Não ao Coronavírus, cujo objetivo é distribuir cestas básicas e produtos de higiene a pelo menos seis mil famílias que vivem no complexo de favelas, na zona norte do Rio. Depois de três semanas vivendo sob medidas de restrição por causa da epidemia da covid-19, já falta comida na mesa de muitos moradores das comunidades mais pobres do Rio e produtos básicos para higiene pessoal.

Pelo menos sete mortes por covid-19 já foram registradas em cinco favelas cariocas: Rocinha (2), Vigário Geral (2), Maré (1), Manguinhos (1) e Cidade de Deus (1). Autoridades sanitárias temem uma rápida disseminação da doença e um elevado número de mortes nas comunidades devido à alta densidade populacional e à falta de saneamento básico.

Os primeiros a correr em apoio aos moradores das comunidades mais pobres foram justamente as ONGs, como a Redes da Maré, fundações e lideranças comunitárias. Somente no Rio, são pelo menos quinze movimentos grandes para a distribuição de comida e produtos de higiene pessoal e limpeza em comunidades.

Além das condições precárias das moradias e, muitas vezes, da falta de água, a maioria dos moradores das comunidades é formada por trabalhadores informais. Eles não têm como se manter em isolamento sem sair de casa todos os dias para trabalhar, sob o risco de não ter o que comer.

“E muito difícil cumprir os protocolos de isolamento, distanciamento social, uso de álcool gel nas comunidades”, pondera Eliana , falando sobre a Maré. “São 140 mil pessoas vivendo numa área de 4,5 quilômetros quadrados, há uma dificuldade real de fazer esse distanciamento acontecer. Seria preciso uma estratégia de prevenção diferente para não haver uma contaminação em massa.”

Mas o governo do Estado e a prefeitura também lançaram ações emergenciais voltadas para as áreas mais carentes. Desde a última quinta-feira, a Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) já realizou ações de higienização em mais de 50 comunidades.

“As operações de higienização nas comunidades vão permanecer durante o período que for necessário para minimizar os riscos de contaminação por contato pelo novo coronavírus”, explicou o presidente da Comlurb, Paulo Mangueira. “Vamos avaliar a cada dia onde os serviços devem ser intensificados, avaliando a frequência de acordo com o fluxo de moradores.”

Para tentar minimizar a questão da falta de água em algumas comunidades – foram mais de 500 queixas de desabastecimento nas últimas semanas –, a Cedae informou que atua em operações de atendimento à população com 450 funcionários nas ruas, 250 deles nas comunidades. Segundo a empresa, há 40 novos caminhões-pipa somente para atender a essas áreas, além da instalação de caixas d'água em áreas de ocupação irregular.

A Secretaria de Assistência Social reservou  mil quartos de hotéis para abrigar idosos e outras pessoas em condições mais vulneráveis que não tenham condições de se manter em isolamento nas comunidades. Até agora, no entanto, apenas 43 quartos foram ocupados.

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