Alex Silva/Estadão
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Registro de tuberculose que resiste a remédio triplica e chega a 3 por dia

Incidência geral da doença voltou a subir no País após quatro anos em queda; especialistas culpam crise econômica e diminuição de investimentos em saúde

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Após quatro anos em queda, a taxa de incidência de tuberculose voltou a crescer no País em 2016 e 2017 e o número de infecções multirresistentes, ou seja, que não respondem aos dois principais medicamentos, triplicou em uma década, chegando a mil somente no ano passado, segundo dados do Ministério da Saúde obtidos pelo Estado.

Doença diretamente relacionada às condições socioeconômicas da população, a tuberculose registrou aumento, segundo especialistas, principalmente por causa da crise econômica que atingiu o País nos últimos anos, o que teria diminuído os investimentos no sistema de saúde e piorado a vida da população em aspectos que contribuem para a infecção, como moradias inadequadas e sem circulação de ar.

O próprio Ministério da Saúde destaca a crise, ao lado de melhorias no diagnóstico, como uma das possíveis causas para o crescimento da incidência. "O aumento do coeficiente de incidência da tuberculose nos dois últimos anos pode representar uma ampliação do acesso às ferramentas de diagnóstico. No entanto, também pode estar relacionado aos desafios no controle da doença devido à determinação social, ao lado de uma importante crise econômica pela qual o país tem passado nos últimos anos", destacou a pasta em boletim epidemiológico publicado no último mês.

O documento mostra que o índice de casos por 100 mil habitantes, que era de 34,1 em 2015, foi para 34,3 em 2016 e alcançou 35,3 em 2017. No ano passado, a taxa teve uma leve queda (ficou em 34,8), mas continua superior ao coeficiente registrado em 2014 e 2015.

Somente em 2017, 73,2 mil pessoas foram infectadas pela doença no Brasil, das quais 1,1 mil apresentaram a forma multirresistente da tuberculose, o triplo do registrado em 2009, quando apenas 339 pacientes tiveram infecção resistente. O índice de mortalidade por tuberculose permanece estável no País, mas a doença, embora curável e com tratamento gratuito na rede pública, ainda mata cerca de 4,5 mil brasileiros por ano.

Causas. Para médicos especialistas no tema e ativistas pelo combate à doença, o contingenciamento de recursos públicos no período de crise foi determinante para o cenário de piora. "(O aumento da incidência) É uma resposta à deterioração dos serviços de saúde. Há muita rotatividade dos profissionais de saúde, eles não recebem o treinamento adequado, não há identificação com a comunidade e o diagnóstico acaba sendo tardio", afirma a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Membro da secretaria executiva do Fórum Tuberculose Rio de Janeiro (Estado com a segunda maior taxa de incidência da doença no Brasil, atrás apenas do Amazonas), o psicólogo Roberto Pereira cita como exemplo do enfraquecimento do SUS o recente anúncio de fechamento, por parte do governo do Rio, do principal hospital público para tratamento da doença no Estado. "O Hospital Santa Maria era, inclusive, especializado no tratamento de casos multirresistentes. A gente avança um pouco e depois tem um retrocesso gigantesco", diz ele. Questionada sobre o fechamento do hospital, a Secretaria Estadual da Saúde do Rio não se manifestou.

A piora nas condições de vida dos brasileiros nos últimos anos também contribuiu para o cenário negativo, destaca Carlos Basília, coordenador do Observatório Tuberculose Brasil. "Essa doença não é só um fator infeccioso isolado, ela está dentro de um contexto social. Não me espanta que, com o empobrecimento, o desemprego em massa e a retirada de investimentos, a doença volte a crescer." 

Exemplo de como a tuberculose tem forte ligação com as condições de vida da população é a incidência da doença em favelas cariocas. "Enquanto no Brasil a taxa é de cerca de 35 casos por 100 mil habitantes, na favela da Rocinha, chega a 300", comenta Margareth.

Mais análises. Segundo a coordenadora do Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde, Denise Arakaki, ainda são necessárias análises mais aprofundadas para verificar as causas do aumento da incidência da tuberculose nos últimos anos. "Um ou dois anos de crescimento na incidência é pouco tempo para dizermos se a doença, de fato, voltou a aumentar ou se cresceu a notificação por causa da melhoria no diagnóstico. De qualquer forma, para não sermos surpreendidos no futuro, vamos realizar uma reunião com especialistas em maio para verificar se esse aumento é real e definir o que fazer", disse ela. Denise citou ainda, como outro fator que explicaria o aumento, um trabalho mais ativo do ministério nos últimos anos na busca de casos entre a população carcerária, um dos grupos mais afetados.

Sobre as infecções multirresistentes, a coordenadora disse que o número de casos cresceu de forma expressiva por causa da inclusão no SUS, em 2014, de um teste rápido molecular que verifica a resistência da bactéria a um dos principais antibióticos usados no tratamento, a rifampicina. "Os casos diagnosticados estão crescendo, mas a resistência no Brasil continua baixa, principalmente porque aqui os remédios só são disponibilizados pelo governo, não são vendidos em farmácia, o que evita o uso indiscriminado", destaca Denise.

Para Margareth, no entanto, embora a inclusão do teste rápido tenha, de fato, aumentado o número de diagnósticos de casos multirresistentes, esse não é o único fator que explica a alta. "Tem crescido a resistência a alguns medicamentos e, além disso, a ocorrência de casos multirresistentes é favorecida pelas situações dos doentes ditos crônicos, que ficam rodando na rede sem ter diagnóstico ou acompanhamento no tratamento. Se a doença não é tratada adequadamente, ela pode voltar mais resistente", diz.

Paciente recebe diagnóstico correto só no terceiro médico consultado

Foram necessárias três passagens por especialistas e um mês de angústia para que a auxiliar administrativa Érica Barbosa Decaris, de 31 anos, tivesse o diagnóstico correto do seu problema de saúde. Mesmo com tosse persistente e muita dor nas costas, nenhum dos dois médicos que ela procurou inicialmente cogitaram a hipótese de ela estar com tuberculose.

"Primeiro, fui a um pronto-socorro do SUS e o médico disse que era pneumonia. Fiz o tratamento, mas logo depois voltaram os sintomas. Então decidi pagar um clínico particular e ele me disse que era inflamação nos brônquios, mas o tratamento também não adiantou. Só o terceiro médico disse que podia ser tuberculose e me orientou a fazer o exame", conta ela, que teve a doença no ano passado. "Acho que os médicos não estão preparados para situações como essas", completa.

Para Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), é "inadmissível" esse atraso na detecção. "É injustificável que em um país com mais de 70 mil casos, nossos pacientes estejam sendo diagnosticados tardiamente", ressalta.

A demora no diagnóstico fez com que Érica iniciasse o tratamento quando a doença já estava mais avançada. "Eu já estava tossindo sangue e a doença tinha afetado os dois pulmões", conta.

Depois da descoberta, a auxiliar administrativa passou a ir diariamente ao posto de saúde, durante seis meses, para tomar os medicamentos. No Brasil, o tratamento contra a tuberculose só é oferecido na rede pública e os remédios são de uso exclusivo dos serviços de saúde, ou seja, não podem ser comprados em farmácia. "No começo foi muito difícil porque eu sentia dores no corpo e enjoos por causa dos remédios, mas me apeguei ao pensamento de que cada dia que eu ia ao posto era um dia a menos no meu tratamento", relata.

Érica teve que se afastar do trabalho por quatro meses, usar máscara no início do tratamento e dormir na sala por alguns meses pois, enquanto não estivesse curada, a recomendação era não dividir o quarto com o irmão para que não houvesse o risco de transmissão. Mas o que mais chateou a paciente foi o preconceito de amigos. "Pessoas me viam na rua com a máscara e não conversavam nem chegavam perto. Sempre fui bem amparada no posto de saúde na parte médica, mas acho que faltou uma rede de apoio psicológico."

Saiba mais sobre a doença

INFECÇÃO

A tuberculose é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, mas nem todos os pacientes infectados pela cepa manifestam a doença. Isso porque, nos casos das chamadas infecções latentes, a bactéria fica adormecida no organismo e pode desencadear a doença em situações como queda da imunidade. Estima-se que um quarto da população mundial esteja infectado.

SINTOMAS

A principal manifestação da tuberculose é a tosse persistente. Procure um médico se apresentar tosse com febre por mais de duas semanas. A tosse pode ser seca ou com secreção.

TRATAMENTO

O tratamento contra a tuberculose é longo, mas bastante eficaz. Geralmente dura seis meses, período em que o paciente deve ir diariamente à uma unidade de saúde receber os medicamentos. Os remédios são oferecidos somente na rede pública, de forma gratuita. Nos casos de infecções multirresistentes, o tratamento pode levar até dois anos.

VACINA

A vacina BCG, geralmente aplicada nos primeiros dias de vida do bebê, protege a criança contra as formas graves da tuberculose, mas não impede que, na vida adulta, o indivíduo seja infectado pela doença.

PÚBLICOS 

Os grupos com maior incidência de tuberculose são presidiários, portadores de HIV e população em situação de rua. Outros públicos também têm maior risco de desenvolver a doença, como idosos, diabéticos e pacientes com doenças autoimunes que utilizam medicamentos imunossupressores.

 

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