Nilton Fukuda|Estadão
A médica Fabricia Jung trabalha a partir de telemedicina Nilton Fukuda|Estadão

A médica Fabricia Jung trabalha a partir de telemedicina Nilton Fukuda|Estadão

Regulamentada às pressas por causa do coronavírus, consulta médica a distância explode no Brasil

Atendimentos remotos registram alta de até sete vezes em 15 dias; procura de jovens por serviço é mais comum, mas idosos têm ajuda de filhos e netos para usar sistema virtual

Fabiana Cambricoli , O Estado de S.Paulo

Atualizado

A médica Fabricia Jung trabalha a partir de telemedicina Nilton Fukuda|Estadão

Regulamentada às pressas no País por causa do surto de coronavírus, a telemedicina teve nas duas últimas semanas uma explosão em número de atendimentos. O total de profissionais que passaram a oferecer o serviço também cresceu e consultas a distância entraram na rotina de hospitais, operadoras e clínicas. Em alguns casos, a demanda pela teleconsulta aumentou sete vezes em 15 dias, segundo levantamento feito pelo Estado com empresas que oferecem a modalidade.

Por resistência principalmente de conselhos regionais de Medicina, atendimentos online não eram permitidos no Brasil até março. No dia 19, com a escalada da covid-19 e a necessidade de reduzir a ida desnecessária a prontos-socorros, o Conselho Federal de Medicina (CFM) enviou ofício ao Ministério da Saúde informando que liberava, em caráter temporário, atendimentos virtuais para triagem e monitoramento de pacientes em isolamento.

No dia seguinte, o ministério editou portaria em que regulamentava a prática em caráter extraordinário para o período da pandemia, abrindo possibilidade para que o atendimento a distância fosse feito não só em casos de suspeita de covid, mas para outros quadros clínicos em que o atendimento remoto se mostrasse como alternativa para reduzir o deslocamento de pessoas e, consequentemente, a propagação do vírus.

Centros médicos que já ofereciam a modalidade mesmo sem aval do CFM tiveram alta expressiva na demanda nas últimas semanas. No Hospital Albert Einstein, que desenvolve ações de telemedicina desde 2012, o número de teleconsultas diárias saltou de 80 para 600 após a regulamentação. “Cerca de 450 delas são por sintomas relacionados à covid-19 e as outras 150 são de outras doenças. Estávamos com 100 médicos nesse projeto, mas estamos contratando mais profissionais e devemos chegar a 500”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein.

Entre os pacientes que usam a plataforma de telemedicina do hospital estão beneficiários das operadoras Amil e Care Plus. Na primeira, os atendimentos aumentaram seis vezes. Na segunda, o número de teleconsultas passou de 100 por mês para 100 por dia. “Já preconizávamos esse tipo de atendimento justamente em situações como essas, em que o deslocamento não é recomendado. Além da parceria com o Einstein para casos que seriam de pronto-atendimento, decidimos autorizar todos os médicos credenciados a fazerem consultas a distância”, explica Ricardo Salem, diretor médico da Care Plus.

Empresas adaptaram plataformas para nova modalidade

Outras dezenas de empresas adaptaram suas plataformas para passar a oferecer o serviço. A Doctoralia, que tem como carro-chefe a marcação online de consultas presenciais, usou a tecnologia de telemedicina que já tem em outros países e começou a oferecer o atendimento virtual no Brasil no mesmo dia em que a portaria do governo foi editada.

Na primeira semana, agendou 5.170 consultas virtuais. Na semana seguinte, o número passou para 8.855, alta de 71%. “Já tivemos mais de 3 mil profissionais cadastrados para oferecer atendimento online. Para poder atender pela nossa plataforma, os médicos precisam ter o CRM e o RQE (registro de especialista) validados”, diz Cadu Lopes, CEO da Doctoralia. Ele conta que as especialidades mais buscadas são psiquiatria, dermatologia, urologia e ginecologia.

Na GSC Integradora de Saúde, mais de 3 mil médicos se cadastraram em apenas 48 horas para oferecer atendimento online. “O objetivo é aumentar a oferta de teleconsulta para tirar pacientes do front dos hospitais. Além de diminuir o risco de colapso do sistema, evita que um paciente se contamine ou seja vetor de transmissão para outras pessoas”, destaca Ana Elisa Siqueira, CEO da GSC.

A rede de clínicas populares Dr.Consulta foi outra que também passou a oferecer atendimento virtual após a regulamentação. Em duas semanas, já foram abertas agendas para profissionais de 20 especialidades e feitas mais de 2 mil consultas online, segundo Renato Pelissaro, diretor de marketing e atendimento ao cliente da companhia. “A quantidade de atendimentos tem dobrado a cada três ou quatro dias. Vemos que o público da consulta virtual é predominantemente jovem e das classes A e B”, relata.

Mas há idosos que, com a ajuda de filhos e netos, também têm usado o serviço para evitar a ida a um consultório, conta Fabrícia Cristina Marques Jung, médica do Dr.Consulta. “São pessoas com doenças crônicas que precisam ser monitoradas, mas que estão com medo de sair de casa por serem do grupo de risco. Às vezes só precisam de um ajuste de tratamento, uma troca de receita. Já atendi um paciente de 85 anos e outro de 95 por videoconferência”, conta a médica, que tem feito atendimentos da própria casa.“Expulsei meu marido do escritório para ficar sozinha por causa do sigilo médico”, brinca Fabrícia.

Há jovens que, mesmo sem estar no grupo de risco, procuram atendimento online para preservar parentes idosos. “Moro com minha mãe, que é idosa, e com meu irmão, que tem problema respiratório. Estava há três dias com sintomas de sinusite, mas não queria ir ao pronto-socorro para não correr risco de me contaminar e trazer o vírus para casa”, conta o gerente de recrutamento e seleção Renan de Carlos Sertorio, de 30 anos, que buscou o atendimento online da Care Plus.

 “No começo fiquei meio receoso porque não sabia como o médico poderia me examinar a distância. Mas ele fez perguntas muito precisas, me passou alguns medicamentos e agora estou 100%”, relata.

As prescrições dos medicamentos feitas em consulta virtual são enviadas geralmente por e-mail, com assinatura do médico certificada digitalmente. Todas as informações devem ser registradas em um prontuário eletrônico.

Atraso na regulamentação traz insegurança a médicos e pacientes, diz especialista

A falta de uma regulamentação prévia para a telemedicina traz agora insegurança para a prática no Brasil, segundo Antonio Carlos Endrigo, diretor de tecnologia da informação da Associação Paulista de Medicina (APM). “A última resolução do CFM sobre telemedicina é de 2002. Desde então, a tecnologia deu um salto brutal, mas, por causa do conservadorismo dos conselhos, não avançamos. A portaria do ministério veio em boa hora, mas, como não tínhamos normas prévias, os médicos estão perdidos em como se adaptar”, diz.

“Eles estão usando o que têm à mão para fazer os atendimentos, como whatsapp ou skype, mas essa não é a melhor forma de garantir a privacidade dos dados. Se já tivéssemos regulamentação, os médicos estariam melhor preparados”, ressalta.

CFM não dá prazo para divulgar nova proposta de regulamentação

Procurado para comentar a demora em editar regulamentação para a prática, o CFM afirmou que concluiu em fevereiro a consulta pública para atualizar a resolução de 2002 e que uma comissão especial foi criada para analisar as sugestões e encaminhar a minuta da nova resolução para análise do plenário do conselho. O órgão não deu previsão de quando o documento será concluído e publicado.

Vale lembrar que o CFM chegou a publicar em fevereiro de 2019 uma resolução que atualizava as regras de atendimento a distância no Brasil, mas teve de revogar a norma semanas depois por críticas recebidas de parte dos conselhos regionais, que alegavam não ter sido incluídos no processo de discussão.

Além da portaria do Ministério da Saúde que regulamentou em caráter extraordinário a prática, o Congresso aprovou, na última semana, projeto de lei sobre o assunto, que aguarda sanção presidencial. O texto, porém, também limita a validade das regras ao período que durar a pandemia. Passado o surto, o tema volta a ser de regulação exclusiva do CFM.

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Telemedicina: o que é, para que serve, como funciona e principais cuidados

CONTEÚDO ABERTO PARA NÃO-ASSINANTES: Liberação da prática ocorre excepcionalmente durante o período de pandemia do novo coronavírus; saiba como está a regulamentação

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 16h18
Atualizado 17 de abril de 2020 | 13h52

Com o objetivo de evitar aglomerações em hospitais e centros de saúde durante a pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro sancionou nesta quinta-feira, 16, a lei que autoriza o uso da chamada telemedicina enquanto durar a crise provocada pela covid-19, mas vetou a validade das receitas médicas virtuais emitidas sem assinatura eletrônica certificada, alegando riscos de "fácil adulteração".

Bolsonaro também barrou a ampliação desse modo de atendimento após o fim da pandemia, o que, segundo o texto original, deveria ser regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O Planalto vetou o trecho justificando que a matéria deve ser regulada em lei, "ao menos em termos gerais". O CFM afirma que ainda está avaliando a situação. 

O projeto que deu origem à lei foi aprovado pelo Congresso no fim de março. No último dia 31, o Senado aprovou o projeto de lei que autoriza o uso da telemedicina no Brasil em quaisquer atividades da área de saúde. Desde então, ressaltou que a decisão era válida em caráter excepcional e enquanto durar o combate à covid-19.

Em ofício enviado ao Ministério da Saúde no dia 19 de março, o Conselho Federal de Medicina (CFM) já havia dado aval médico para a liberação da telemedicina no País. Quatro dias depois, no dia 23, o Ministério da Saúde publicou, em edição extra do Diário Oficial da União (DOU), portaria regulamentando o atendimento médico à distância.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável pelo setor de planos de saúde no Brasil, afirma que definiu novas medidas para o enfrentamento da pandemia. A Diretoria Colegiada da reguladora propôs ações para viabilizar a utilização da telessaúde, flexibilizar normativas econômico-financeiras e adotar medidas regulatórias temporárias no âmbito da fiscalização. Confira aqui quais são elas. O Projeto de Lei 696/2020, de autoria da deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP), foi aprovado na Câmara dos Deputados no dia 25 de março. 

Em São Paulo, também no dia 31 de março, o governador do Estado, João Doria (PSDB), anunciou que especialistas do Instituto do Coração (Incor) e do Hospital das Clínicas (HC) darão apoio a mais de 100 hospitais da rede pública estadual com o uso de teleconsultoria, podendo ser estendido para a rede particular. O objetivo principal auxiliar o tratamento de pacientes com o novo coronavírus.

Desta forma, uma equipe estará em conexão por videoconferência com outros médicos de hospitais da rede, analisando os casos mais complexos, discutindo e sugerindo alternativas para as melhores decisões. A primeira fase começou na última quinta-feira, 26, com o Conjunto Hospitalar do Mandaqui, na zona norte da capital paulista.

Diante da liberação do uso da telemedicina - que já foi alvo de polêmicas entre os contrários e os favoráveis - muitos questionamentos surgem sobre essa prática.

Confira a seguir perguntas e respostas sobre o tema. Os questionamentos foram respondidos pelo presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Carlos André Uehara; pelo diretor técnico do Sabará Hospital Infantil, Renato Vieira; pelo membro da diretoria executiva da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Mário Roberto Hirschheimer; pela mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP) Merces da Silva Nunes e teve apoio de matérias do Estado.

O que é e como funciona a telemedicina?

A modalidade é usada para atendimento pré-clínico, de suporte assistencial, de consulta, monitoramento e diagnóstico no Sistema Único de Saúde (SUS) ou na rede privada. O atendimento médico à distância pode ser feito diretamente entre médicos e pacientes, por meio de tecnologia da informação e comunicação que garanta a integridade, segurança e o sigilo de informações. Toda a consulta deve ser, obrigatoriamente, registrada em prontuário clínico com indicação de data, hora, tecnologia utilizada e o número do Conselho Regional Profissional do médico e sua unidade da federação.

Os médicos estão autorizados a emitir atestados ou receitas médicas desde que assinados eletronicamente e acompanhados de informações sobre o profissional. Também devem seguir os requisitos estabelecidos pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).

No documento, assinado pelo presidente do CFM, Mauro Luiz de Britto Ribeiro, o órgão detalhou que passam a ser permitidas as seguintes modalidades de telemedicina: 1) teleorientação, para que médicos possam à distância orientar e encaminhar pacientes em isolamento; 2) telemonitoramento, situação em que o médico monitora à distância parâmetros de saúde do paciente, e 3) teleinterconsulta, para troca de informações e opiniões entre médicos, para auxílio diagnóstico ou terapêutico.

Uma resolução publicada pelo CFM em 2002 (nº 1.643) já apresentava conceitos sobre a telemedicina, no entanto, até agora, a prática da era vetada no País e os médicos que a praticassem poderiam sofrer punições por parte do conselho profissional. Nos Estados Unidos e em países da Europa, o atendimento à distância já é bastante utilizado.

A Portaria n.º 467/2020, do Ministério da Saúde, ampliou os serviços de telemedicina?

Sim, e contemplou o atendimento pré-clínico, de suporte assistencial, consulta, monitoramento e diagnóstico realizado à distância por profissionais da medicina. Ainda de acordo com a portaria, durante o atendimento os médicos poderão emitir atestados ou receitas médicas em meio eletrônico e a emissão dos documentos a distância será válida em meio eletrônico, mediante uso de assinatura eletrônica por meio de certificados e chaves emitidos pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil).

Além disso, em relação aos atestados, o documento deverá conter:

  1. identificação do médico, incluindo nome e o número do CRM;
  2. identificação e os dados do paciente;
  3. registro de data e hora;
  4. o prazo de duração do atestado.

Posso adquirir uma receita de remédio controlado pelo atendimento à distância?

O presidente Jair Bolsonaro sancionou nesta quinta-feira a lei que autoriza o uso da chamada telemedicina enquanto durar a crise provocada pela covid-19, mas vetou a validade das receitas médicas virtuais emitidas sem assinatura eletrônica certificada, alegando riscos de "fácil adulteração

Para vetar as receitas médicas virtual emitidas sem assinaturas reconhecidas, o Planalto alegou que o dispositivo "ofende o interesse público e gera risco sanitário à população, por equiparar a validade e autenticidade de um mero documento digitalizado, e de fácil adulteração, ao documento eletrônico com assinatura digital com certificados ICP-Brasil (Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira), como meio hábil para a prescrição de receitas de controle especial e nas prescrições de antimicrobianos, o que poderia gerar o colapso no sistema atual de controle de venda de medicamentos controlados, abrindo espaço para uma disparada no consumo de opioides e outras drogas do gênero, em descompasso com as normas técnicas de segurança e controle da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa)."

A emissão de receitas à distância já tinha sido autorizada por portaria do Ministério da Saúde publicada em março, mediante uso de assinatura eletrônica por meio de certificados e chaves emitidos pela ICP-Brasil.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) esclarece que a assinatura digital com certificados ICP-Brasil deve ser utilizada nas receitas de controle especial e nas prescrições de antimicrobianos. Desta forma, as farmácias  que disponham de recurso para realizar a consulta ao original em formato eletrônico podem considerar o documento válido.

"Essas orientações continuam válidas, tendo em vista que se referem somente a documentos que podem ser originados eletronicamente e se baseiam nas disposições contidas na Medida Provisória 2.200-2/2001, que instituiu a ICP-Brasil, a qual garante autenticidade, integridade e validade jurídica aos documentos emitidos em formato originalmente eletrônico", disse, em nota, a Anvisa. "A recente lei publicada não altera tais dispositivos".

A Anvisa lembra que a prescrição eletrônica com assinatura digital tratada nas orientações da agência não é o mesma que a prescrição digitalizada (cópia digitalizada de uma receita emitida manualmente). 

Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) afirma que está avaliando, juntamente com o Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), um meio que atenda aos padrões de segurança, aliado aos princípios éticos. "Também estão sendo estudadas ferramentas tecnológicas que possibilitem a viabilização, segura, da receita digital", disse, em nota, o Cremesp.

Questionado sobre como o paciente e o médico de teleatendimento devem proceder, por enquanto, a orientação do Cremesp é que "pacientes encontrem junto a seus médicos a melhor forma para retirarem suas receitas, podendo ser via portador ou um parente. O importante é que a receita esteja com os dados legíveis tanto do paciente como também do médico e da medicação prescrita, além da data de emissão da receita", afirmou.

Diante do confinamento e cancelamento temporário de consultas, por parte dos médicos, pacientes precisam buscar as alternativas existentes no momento para conseguir receitas controladas para comprar medicamentos de uso contínuo. Durante a pandemia, idosos e pessoas com doenças crônicas podem fazer atendimento por telemedicina. Se o médico se sentir à vontade, pode prescrever a receita e combinar uma forma de entrega do documento. No entanto, em muitos casos, a prescrição da receita depende de uma primeira consulta presencial para que o médico possa conhecer o paciente.

O Código de Ética Médica prevê a possibilidade de prescrição, por parte do médico, de tratamento ou outros procedimentos sem exame direto do paciente em casos de urgência ou emergência?

O médico está proibido de prescrever tratamento ou outros procedimentos, sem prévio exame presencial do paciente, exceto em situações de urgência, emergência ou quando estiver impossibilitado de realizar o exame pessoalmente. Todavia, diante da situação de emergência em saúde pública, decorrente da covid-19, o atendimento à distância foi autorizado, visando, sobretudo, evitar e/ou reduzir a circulação de pessoas, a exposição desnecessária dos profissionais de saúde e a superlotação de clínicas e hospitais.

Como a telemedicina pode ajudar durante a pandemia do novo coronavírus?

A ideia é usar a telemedicina como ferramenta de enfrentamento da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Desta forma, seria possível reduzir a procura por outros atendimentos, permitindo que os hospitais cuidem dos pacientes infectados com covid-19 e casos de urgência e emergência. Outros tipos de atendimentos podem ser esclarecidos pelo atendimento remoto sem a necessidade de uma consulta presencial. Além disso, a ferramenta pode ser utilizada para monitoramento de pacientes confirmados com a doença, que estejam em isolamento domiciliar.

É possível diagnosticar caso positivo do novo coronavírus pelo atendimento à distância?

É importante reforçar que o diagnóstico confirmado do novo coronavírus deve ser feito presencialmente, pois depende da realização de exames. Pelo atendimento à distância somente é possível orientar para o isolamento em alguns casos, monitorar e controlar o quadro clínico de casos mais leves, como já explicado anteriormente. Em caso de febre, acompanhada de sintomas como tosse seca ou falta de ar, procure atendimento médico presencial. A partir do diagnóstico, a pessoa saberá se precisa de internação ou se pode fazer o monitoramento à distância de sua casa.

Quais cuidados o paciente precisa ter quando não conhece o médico que fará o atendimento à distância?

O atendimento pode ser feito por telefone, plataforma de mensagens ou videoconferência. Especialistas recomendam que o paciente opte pela terceira opção, em caso de não conhecer o médico que o irá atender. Fazendo previamente uma consulta aos conselhos de medicina para verificar o perfil do responsável pelo atendimento. Caso seja o próprio médico ou uma indicação confiável, o paciente pode realizar tranquilamente a consulta pelas outras duas opções também.

Quanto custa, em média, um atendimento à distância?

No âmbito do sistema Único de Saúde (SUS) e dos planos de saúde, não deve ocorrer qualquer pagamento adicional (no SUS pela gratuidade do atendimento e nos planos de saúde porque o valor da consulta está incluído na mensalidade paga pelo usuário). A remuneração deverá ocorrer nas consultas particulares e a forma de pagamento deverá ser ajustada de comum acordo entre as partes. O preço deve variar de 75% a 100% do valor da consulta presencial.

Como funciona o atendimento à distância para as crianças?

As crianças precisam de assistência médica com frequência e, muitas vezes, os pais ficam em dúvida se é necessário procurar um pronto-socorro. Como a ida a um hospital sempre representa um risco, já que é um ambiente onde circulam pessoas com doenças respiratórias transmissíveis, o objetivo da telemedicina é ajudar as famílias a evitar idas desnecessárias ao pronto-socorro neste período de pandemia da covid-19.

Em quais casos a telemedicina é recomendada às crianças?

  1. Problemas como resfriados simples, dor de garganta, tosse, dores de cabeça, alergia, rinite alérgica, sangramentos nasais ou vermelhidão nos olhos.
  2. Irritações e alergias de pele, infecções menores, coceira, infecções da pele ou verrugas, picada de inseto, assaduras e reação vacinal.
  3. Dúvidas sobre saúde geral das crianças, aleitamento materno ou vacinação de seu filho.

O uso dessa ferramenta deve ser feito de forma excepcional, como meio de evitar o trânsito de pessoas e de oferecer assistência a pacientes em situação de isolamento social, conforme preconizado pelo CFM e pelo Ministério da Saúde. Em caso de dúvidas do profissional, o paciente em teleatendimento deve ser orientado a buscar consulta presencial para avaliação de sinais e sintomas e adoção de medidas terapêuticas necessárias.

O atendimento à distância é aliado do presencial?

O médico do atendimento à distância fará perguntas ao paciente, sendo o mesmo tipo de triagem do atendimento presencial. Ao monitorar o paciente, poderá encaminhar, sempre que necessário, o paciente para atendimento em um hospital. São serviços complementares. Em alguns casos, não basta somente a conversa, o monitoramento, o médico precisa colocar a mão no paciente para examiná-lo.

Quais são os prós e os contras debatidos sobre a telemedicina?

O lado positivo da telemedicina é, sem dúvida, tornar a saúde acessível ao maior número de pessoas, em qualquer tempo e lugar, reduzindo de forma significativa o tempo e os custos de deslocamento de pacientes, além de propiciar contato com profissionais de diversas outras especialidades. A telemedicina revela uma nova forma de trabalho para todo o setor da saúde e pode representar um novo campo de trabalho para muitos profissionais.

O lado negativo, mais imediato e visível, é a falta de contato pessoal com o médico e a eventual falta de proteção, guarda e segurança de informações sigilosas, inclusive, prontuário, do paciente, o que pode significar o aumento de demandas judiciais e ações de reparação de danos.

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Por sugestão do filho, pediatra de 79 anos se transforma em doutor virtual

No grupo de risco, médico se adapta ao modelo e deixa de oferecer consulta presencialmente

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 05h00

Com 79 anos de idade e 55 de profissão, o pediatra Henrique Klajner ficou chateado (e um tanto contrariado) ao ter que fechar temporariamente seu consultório na semana passada. Idoso e, portanto, parte do grupo de risco para quadros graves de coronavírus, ele foi convencido pelo filho, o também médico Sidney Klajner, a não trabalhar mais presencialmente.

“Ele me disse para parar de ir ao consultório, mas ainda fiz atendimentos por mais uma semana. Agora estou recluso por ordem do filho”, brinca Henrique.

Foi também por sugestão de Sidney que o pediatra decidiu iniciar as consultas online. “Não queria parar de atender porque gosto de ajudar. É difícil abandonar um paciente, então ele me deu essa ideia. Uso Whatsapp, FaceTime, o que for possível na hora. Sou idoso, mas sou um entusiasta da tecnologia. Agora entrei de cabeça. Nessa semana, já fiz três consultas e foi muito bacana. Já tenho outras agendadas para a semana que vem”, conta o especialista, animado.

Para Henrique, a telemedicina, além de evitar o deslocamento de pessoas, pode ser uma alternativa para aproveitar a expertise dos profissionais mais velhos sem que eles tenham que ser expostos ao risco. “Já me cadastrei no Einstein como voluntário. Sei que não posso ficar na linha de frente, mas posso dar apoio na retaguarda”, diz ele referindo-se ao Hospital Albert Einstein, instituição que ajudou a fundar e hoje é presidida pelo filho.

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No Sistema Único de Saúde, Curitiba e Vitória têm atendimento remoto

Iniciativas na rede pública ainda são tímidas, mas também tiveram aumento na pandemia do coronavírus

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 05h00

Apesar de crescer em ritmo mais lento na rede pública do que na rede privada, a telemedicina também vem ganhando novas iniciativas no Sistema Único de Saúde (SUS) por causa do surto de coronavírus.

Uma delas é da prefeitura de Curitiba, que criou uma central de atendimento para a covid-19. Os cidadãos com dúvidas ou sintomas da doença são atendidos inicialmente por 92 voluntários, todos estudantes de Medicina, que dão orientações sobre a doença. Quando julgam necessário, encaminham o paciente para uma videoconsulta com um médico. Desde o dia 27 de março, quando o serviço passou a ser oferecido, já foram 13 mil ligações, das quais 112 foram encaminhadas para a consulta à distância.

A prefeitura de Vitória adotou estratégia parecida, com enfermeiros fazendo a triagem e encaminhando para médicos, que fazem triagem e monitoramento de casos suspeitos ou confirmados. Tanto os médicos quanto os enfermeiros são servidores da prefeitura que estão em home office por fazerem parte do grupo de risco.

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