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Reinventar as cidades

Confinados ou não, os arquitetos e os urbanistas não pararam de pensar

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 12h00

Confinados ou não, os arquitetos e os urbanistas não pararam de pensar. E os historiadores e os filósofos deram a sua contribuição. Como resultado, a imprensa europeia, às vezes a americana, nos comunicam maciçamente o seu diagnóstico e seus conselhos com a seguinte pergunta: como reconstruir as cidades de maneira que elas possam resistir, no caso de, algum dia próximo ou distante, uma nova pandemia se abater sobre elas?

Nada de surpreendente nisso. Em várias ondas, as grandes doenças, mas também os percalços da história influíram consideravelmente no urbanismo. Na Grécia antiga, a cidade de Mileto – na costa do Mar Jônio - foi destruída pelos exércitos persas. A cidade foi reconstruída pelo arquiteto Hipódamo, mais bela do que a primeira, o mesmo arquiteto que inventou o plano ortogonal e inspirou mais de uma cidade.

Em 430 A. C., Atenas foi inteiramente reconstruída depois de uma peste. Em Londres, houve uma longa sequência de pestes; a de 1850 causou milhares de mortes, o que levou à criação de uma rede de esgoto. Às vezes, a causa não é uma grande doença nem a destruição das guerras, mas a vontade de uma nação, como Brasília, ou a vontade de um homem. Napoleão III encomendou ao barão Haussmann a realização de uma obra titânica em Paris.

Haussmann destruiu ruas inteiras, desapropriou inúmeros imóveis, provocou a desordem na vida cotidiana da população, demoliu 4 mil habitações, e depois de lançar o caos na capital, inventou uma Paris totalmente nova, admirável, onde nós vivemos hoje.

Será que os Hipódamos e os barões Haussmann do nosso século se mostrarão no mesmo nível dos seus grandes antecessores? Por enquanto, já é possível notar que alguns temas estão sendo privilegiados, de Roma a Frankfurt ou Paris: é preciso controlar a terrível expansão das cidades modernas que são desconfortáveis, sufocantes, ameaçadas de uma perpétua embolia, uma coleção de tristezas e solidões. E o que é pior: elas são propícias às pandemias.

A nossa, a do covid-19, mostrou apreciar as grandes cidade e não os centros menores nem as aldeias, que conseguiram resistir à praga. Nas minhas leituras aleatórias tenho observado que diversos projetos pretendem, ao mesmo tempo, reduzir o tamanho das megalópoles e transformar periferias em espaços amplos, aprazíveis e ecológicos, substituindo estes enormes edifícios sujos e degradantes nos quais proliferam os traficantes de drogas, os bandidos, os que põem fogo nos carros, as crianças tristes. O desespero e a violência.

Excelente ideia, mas para realizá-la seria necessária a energia de dez barões Haussmann, pelo menos. Numerosos projetos propõem iniciativas mais realistas. Deste concurso de “caixas de ideias”, a grande vencedora é a bicicleta. A passagem do carro para a bicicleta já estava bastante adiantada antes mesmo do surgimento da covid-19.

Nas cidades dos países do Norte, como a Alemanha, todas as manhãs, hordas de ciclistas desfilam tranquilamente, sentados sobre seus selins, rumo aos seus escritórios: nada de barulho, nariz ao vento, sem o perigo de que algum maluco no volante os possa atropelar.

Em Paris, a atual prefeita já havia decretado o reino da bicicleta, com a criação de ciclovias e zonas proibidas para os carros. Houve protestos dos motoristas, que alegaram um ataque à sua liberdade, etc. Mas o longo período de confinamento fez evoluir a imagem da bicicleta. Há até mesmo um boom do comércio de bikes. Estas boas medidas permitirão que os parisienses evoluam. Em todo caso, a prefeitura está preparando um novo plano: avenidas belíssimas, o Boulevard Saint Michel, ou a esplêndida Rue de Rivoli que corta Paris.

Outra ideia para acabar com os engarrafamentos de Paris: encorajar o trabalho em casa, graças ao celular, à Internet.

O longo confinamento usou amplamente estes recursos para que as pessoas pudessem continuar trabalhando. Nos primeiros dias, foi um sucesso. Depois, a decepção. Esta solidão, a falta dos cochichos dos colegas, do barulho das disputas, ninguém ao nosso lado. Muitos não gostaram desta experiência. Este é um dos desafios, um dos paradoxos que os eventuais urbanistas terão de resolver: as megalópoles nos condenam curiosamente à solidão. Somos mais sozinhos em um formigueiro do que em uma aldeia de 50 pessoas. E se nos propõem que trabalhemos em casa, definharemos por causa do isolamento. E agora a covid-19, que nos proíbe de estarmos próximos uns dos outros, de dar um aperto de mão, de nos abraçarmos e, indubitavelmente, de fazer o amor.

Jean Paul Sartre escreveu uma bela peça para ilustrar a seguinte ideia: “O inferno são os outros”. Está aí uma besteira: “O inferno é a ausência dos outros”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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