Remédio de R$ 45 mil deve para o lixo no RN

Cada vez que abre a gaveta de sua mesa de trabalho, a funcionária do governo do Rio Grande do Norte sente "o dinheiro indo embora". Sob sua guarda estão três frascos de uma droga importada e caríssima contra o câncer de pulmão. Os 90 comprimidos custaram R$ 45 mil e perderão a validade em quatro meses. "É uma droga de uso muito restrito e que não teve a eficácia comprovada. Simplesmente não temos o que fazer com ela", diz Maria José Pieretti, diretora do Departamento de Medicamentos Excepcionais do governo. A compra não aconteceu por descuido. Sabia-se exatamente seu valor quando ela foi encomendada. O governo foi obrigado pelos tribunais a fornecer o Iressa, produzido por um laboratório britânico, a um doente de câncer de pulmão de Natal. Situações assim estão ficando comuns. Doentes recorrem à Justiça quando não encontram seus remédios no Sistema Único de Saúde. Baseiam-se na Constituição, que diz que saúde é "direito de todos" e "dever do Estado". Em todo o País, no ano passado, os governos desembolsaram pelo menos R$ 285 milhões em remédios que não fazem parte da lista do SUS. Segundo a sentença, a Secretaria de Saúde teria de fornecer o Iressa por tempo indeterminado. O problema é que, após os três primeiros frascos, o médico decidiu que o doente não precisava mais da droga. Era tarde. O governo potiguar já havia importado mais três. "Telefonamos para avisar, e ele limitou-se a dizer que não precisava mais", lembra Maria José. No início do ano, o doente morreu. "Estou esperando setembro, quando perde a validade, para jogá-lo fora", diz ela. Até lá, ao abrir a gaveta, vai continuar lembrando que aqueles R$ 45 mil comprariam 4,5 milhões de aspirinas ou 2,2 milhões de comprimidos contra hipertensão.

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