Remédio é promissor, mas não faz milagres

A pesquisa inicial com o rimonabant foi orientada por uma hipótese simples: se um receptor no cérebro (chamado canabinóide) estimula a sensação de fome, poderia o bloqueio dele levar a uma redução do apetite e, com isso, ao tratamento de pessoas com excesso de peso ou obesas? Pesquisas mostraram que um dos receptores em questão - o CB1 - existe não apenas no sistema nervoso central, mas também no tecido adiposo (gordura), no fígado, nos músculos, no pâncreas e no trato gastrointestinal. Os receptores cerebrais regulam a vontade de comer, enquanto os receptores localizados no trato gastrointestinal, por exemplo, emitem os sinais de saciedade. "Acreditávamos que o tecido adiposo era só um órgão de armazenamento, mas as novas evidências indicaram que ele poderia estar secretando hormônios", explicou Gerard Le Fur, médico que chefiou o time de pesquisadores da Sanofi-Aventis. Investigações adicionais demonstraram que o rimonabant é eficaz não apenas para ajudar as pessoas a controlar o apetite e perder peso, mas tem potencial também para o manejo da dislipidemia (aumento anormal da taxa de lipídios no sangue) e da diabete. Munida da primeira droga capaz de bloquear os CB1 e do conhecimento de que tais receptores existiam não apenas no cérebro, a equipe de Le Fur deu-se conta de que estava diante da rara oportunidade científica de desenvolver um tratamento direcionado simultaneamente a vários órgãos com múltiplos benefícios potenciais de saúde. Para o médico paulista Álvaro Avezum, o rimonabant é promissor e atraente. Diretor da divisão de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Avezum disse que "além de ajudar a reduzir a gordura abdominal, e portanto a cintura e o peso, outro benefício é seu efeito no perfil metabólico, independente da perda de peso", disse ele. "Ele leva ao aumento do HDL, à redução dos triglicerídios, e diminui a atividade de inflamação, que provoca o enfarte." Segundo Avezum, que esteve no congresso em Atlanta, a pergunta recorrente aos líderes dos estudos clínicos com a droga, Jean Pierre Després e Luc F. Van Gaal, foi sobre o tipo de paciente que poderá usar o medicamento. "Será o mesmo tipo de paciente que se submeteu ao estudo, ou seja, quem tem obesidade claramente identificada por um índice de massa corporal acima de 30, mais diabete ou algum outro fator de risco associado", explicou Avezum. O índice da massa corporal é calculado com o peso dividido pela altura ao quadrado. Efeitos Colaterais - Os efeitos colaterais detectados inicialmente nos estudos clínicos incluem náusea, vômitos e aumento de ansiedade e depressão, explicou Avezum. "Para começar, o rimonabant não chegará ao mercado como pílula para emagrecer", afirmou Avezum. "Para isso, o melhor remédio é comer menos e melhor, levar uma vida mais saudável e ativa, fazer mais exercício e queimar mais gordura", disse ele. E Després reforça: "A causa da explosão das doenças cardiovasculares é o meio ambiente tóxico criado pela vida moderna sedentária. É esse o problema a ser atacado". "Não há um remédio milagroso para isso e o rimonabant não é e não deve ser visto como uma pílula de dieta", disse ao Estado o médico canadense. Després lidera há anos uma cruzada em favor da adoção da medida da circunferência abdominal, em lugar da massa corporal, como melhor indicador da síndrome metabólica, que leva às doenças cardiovasculares e diabete. Ele é insuspeito em seu empenho para impedir que o Acomplia seja visto como solução mágica. Os estudos que conduziu com a droga e sobre a epidemia global de obesidade foram financiados pelo Sanofi-Aventis.

Agencia Estado,

21 de março de 2006 | 09h55

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