Repasse de R$ 3 milhões mantém pronto-socorro aberto por 30 dias

Segundo secretário estadual da Saúde, David Uip, período será suficiente para realização da auditoria nas contas da Santa Casa 

Fabiana Cambricoli e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2014 | 22h24

SÃO PAULO - O repasse emergencial de R$ 3 milhões feito pela Secretaria Estadual da Saúde para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo será suficiente para manter o pronto-socorro aberto por um período de 20 a 30 dias, tempo em que a auditoria nas contas da unidade deverá ser finalizada. A previsão foi feita pelo secretário estadual da Saúde, David Uip, nesta quinta-feira, 24, em entrevista à Rádio Estadão, e confirmada pelo provedor da instituição, Kalil Rocha Abdalla.

O pronto-socorro da unidade ficou fechado por 30 horas entre terça e quarta-feira por falta de recursos para a compra de materiais e medicamentos. A entidade afirmou que uma dívida de R$ 50 milhões com os fornecedores de insumos a impediu de abastecer seus estoques.

“Vinte a 30 dias é o tempo que eu acho que nós vamos precisar para adiantar essa avaliação, que é uma avaliação pró-ativa na tentativa de melhorar a gestão da Santa Casa”, disse o secretário. Somente após a análise das contas é que a pasta vai autorizar o repasse de mais verbas emergenciais.

Na quarta-feira, Uip divulgou dados mostrando que a Santa Casa recebia repasse acima do divulgado pela instituição. Segundo o secretário, são R$ 34 milhões mensais vindos dos governos federal e estadual, 2,6 vezes a mais do que o recebido pela tabela SUS. Quando anunciou o fechamento do pronto-socorro, a entidade havia dito que o repasse governamental era de R$ 20 milhões mensais.

Nesta quinta, o provedor afirmou ao Estado “fazer questão” da auditoria. “Eles colocaram em xeque a gestão, então, agora, quero meu atestado de capacidade e honestidade.” Abdalla disse que as contas estarão disponíveis para o governo, mas que não serão abertas, por enquanto, para a imprensa.

Ainda não foi marcada uma data para o início da auditoria. A Secretaria Estadual da Saúde disse que espera a indicação dos nomes dos representantes dos governos federal e municipal. Um integrante do Ministério Público também será convidado a participar.

Segundo membros da diretoria da Santa Casa, a análise das contas deverá ser iniciada na semana que vem.

Acusações. As trocas de farpas entre os governos estadual e federal continuaram. A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde reiterou as declarações dadas pelo ministro Arthur Chioro na quarta, de que a Secretaria da Saúde havia deixado de repassar cerca de R$ 74 milhões de dinheiro federal para a Santa Casa entre 2013 e 2014. Pela manhã, Uip chegou a declarar que estava apurando o erro.

No início da noite, porém, a pasta estadual divulgou nota afirmando que o cálculo do ministério estava errado e que “está rigorosamente em dia com a entidade e não deixou de repassar um centavo sequer dos recursos do SUS encaminhados pelo Ministério da Saúde”.

De acordo com a secretaria, “o que o ministro tenta fazer, de maneira errônea, é dizer que São Paulo deixou de pagar dois tipos de incentivos federais, no valor anual de R$ 36 milhões cada, mas que na verdade foram incorporados ou adicionados ao valor pago pelos atendimentos de média e alta complexidades da Santa Casa, por determinação do próprio Ministério”.

A pasta disse ainda que o ministro errou “ao multiplicar por dois cada um desses valores, já que o dinheiro repassado ao Estado é um só.”

Após a divulgação da nota, o Ministério da Saúde se limitou a divulgar o mesmo posicionamento, em que reitera que houve erro no repasse. 

Demanda baixa. No primeiro dia de atendimento normal após ficar fechado por 30 horas, o Pronto-Socorro da Santa Casa registrou movimento abaixo do normal nesta quinta-feira.

Segundo a assessoria de imprensa da instituição, das 22h de quarta, quando o serviço foi reaberto, até as 16h15 desta quinta, o local havia atendido 158 pessoas (8,7 por hora). Isso representa pouco mais que a metade da média em dias normais, quando a unidade recebe 360 pacientes a cada 24 horas.

Com poucos pacientes na recepção do PS, o operador de máquina Flávio Oliveira, de 38 anos, conseguiu sair da Santa Casa em menos de meia hora após tratar o incômodo nos olhos que sentia. “O atendimento foi muito bom”, disse.

Os exames e cirurgias eletivas também voltaram a ser feitos normalmente. “Quando soube que tinham parado de atender algumas pessoas, fiquei preocupada”, diz a dona de casa Maria Aparecida Santos, de 63 anos, que trouxe o neto, Ricardo de Jesus, de 8 para um exame de sangue. 

Menos sorte teve Ângela Cristina, de 57 anos, que há um ano não consegue receber o resultado de uma tomografia do braço e da mão. Ele sairia na quarta, mas, por causa da paralisação, Ângela não conseguiu entrar na unidade e perdeu uma consulta marcada há seis meses por não ter o resultado.

Segundo a Santa Casa, os pacientes que tinham exame marcado durante a paralisação podem fazê-los até uma semana. As cirurgias eletivas serão remarcadas. O hospital vai analisar caso a caso para redefinir a agenda.

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