TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Respeitem seus limites, diz especialista sobre recuperação de sequelas da covid-19

Antes da preocupação com a volta ao trabalho, cada pessoa deve obedecer o próprio limite pessoal, diz a médica Linamara Rizzo Battistella

Entrevista com

Linamara Rizzo Battistella, médica fisiatra do Hospital das Clínicas da USP

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 15h00

“É preciso respeitar os seus limites”, resume a médica fisiatra do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da USP, Linamara Rizzo Battistella, professora especialista na reabilitação de pacientes da crise da covid-19. A médica, que é professora titular da Faculdade de Medicina, atua na Rede Lucy Montoro, serviço público de reabilitação que atende esses pacientes. Antes da preocupação com a volta ao trabalho, cada pessoa deve obedecer o próprio limite pessoal, diz a médica, argumentando que o tratamento depende da condição de saúde de cada pessoa.

Veja trechos da entrevista ao Estadão:

Como analisa esse momento das pessoas que ficaram doentes com a covid, tiveram alta, e estão tentando voltar ao trabalho? Qual é a orientação?

Não é pergunta de resposta única. O covid é multifatorial. Há uma reserva cardíaca comprometida em função de ter sido a parte cardiorrespiratória a mais afetada. A pessoa tem limitações para atividades que exigem força e resistência. É diferente do caso de quem está na frente de um computador, que pode até alternar diferentes períodos, levanta, vai pegar uma água, um papel, volta para o computador. Tem demanda energética, mas você consegue fazer isso de maneira um pouco mais suave. É diferente de um indivíduo que volta à atividade na qual ele precisa se locomover com rapidez, levantar peso. São situações particulares. Pessoas que tiveram complicações músculo-esqueléticas importantes, e essa é uma constante, apresentam uma condição muscular que chamamos de sarcopenia, e temos visto isso com bastante frequência nos pacientes. Atualmente já temos 700 pacientes com avaliação por seis meses. Esses pacientes não podem voltar para as atividades que exijam deslocamentos rápidos. O risco de quedas é maior. Uma pessoa que tenha que atravessar uma rua, por exemplo, que pode ter uma falha na passada, pode acabar resultando numa queda com complicações graves ou até em atropelamento. Por outro lado, quem trabalha com esforço cognitivo intenso, que precise se ater a números, planilhas, lidar com textos, que tenha de configurar textos para construir seu programa de computador, com discreta alterações cognitivas do sistema nervoso, essas alterações podem ficar maiores, depois de um tempo.

Mas há uma recuperação?

Hoje nós nos arriscamos a afirmar que há recuperação, mas o tempo de cada pessoa precisa também é diferente.Temos um caso, de uma jovem senhora, que trabalhava com telemarketing, que ficou com um problema importante no volume de voz. Essa pessoa não volta agora, ela vai precisar de um tempo maior. Esse é um desafio dessa doença. Ela é polissistêmica. As alterações são muito variadas, mas em todos esses quadros há um dado que acompanha o paciente: é uma fadiga intensa.  Isso é uma manifestação da doença e, com ajuda da reabilitação, pode voltar para as atividades. É uma etapa transitória. E a questão emocional também é importante. Há muita ansiedade. É uma doença que deixa um rastro de ansiedade, de medo, e de dificuldades no sono.

Varia muito de pessoa para pessoa, do tamanho do impacto que a doença causou no organismo?

Isso é fundamental entender. Esse impacto está relacionado com as condições prévias da pessoa, antes inclusive da pessoa ter a infecção. Se ele já teve alteração de pressão, excesso de peso, isso vai impactar nas consequências. É uma doença que está nos trazendo de volta para a medicina interna. Nós precisamos olhar o paciente de forma integral.

A sra. falou dos 700 pacientes. Mas temos aí milhões de pacientes que tiveram a doença. São cerca mais de 10 milhões no país. O sistema está cuidando pouco?

Aqui em São Paulo estamos reabilitando um grande número de pacientes. Agora, os pacientes têm medo de voltar. Quando você liga para saber deles, eles falam: 'não, eu estou bem, se não melhorar, eu vou'. O que se entende, porque há a vida prática também. Mas as pessoas têm medo de se reinfectar. O HC está avançando na direção de atender, inclusive, nas Unidades Básicas de Saúde. Naturalmente não somos nós que vamos atender lá, mas vamos conversar com os profissionais dessas unidades para assumir protocolos e a gente poder construir um caminho único para o paciente. Ele sai do hospital e pode continuar o tratamento mais perto da casa dele. Há uma preocupação das secretarias de Saúde, do município e do Estado, que trouxeram para o HC essa demanda, para quando ele sair do hospital possa continuar o tratamento mais perto de sua casa.  Estamos tentando atender da melhor forma. Olha, qualquer vida perdida é inexplicável.  Ponto. A vida é o melhor ativo que a gente tem. E São Paulo tem feito um trabalho exemplar. A gente atende bem na fase aguda. O paciente, quando sai do hospital, já sai com orientação de procurar a reabilitação. Há um esforço para encurtar essa recuperação para que ele possa, rapidamente, voltar para a sua atividade em boas condições.

Esse retorno à vida produtiva pode ajudar a superar as sequelas?

Eu arrisco dizer que em 98% dos casos, sim. Quando você está voltando para uma atividade que você tem prazer de fazer, ajuda muito na recuperação. Mas, às vezes, você não está exatamente naquele emprego que você gostaria, que te desafia, ou então o ambiente de trabalho não é acolhedor. Aí, se você já não gostava muito de estar naquele papel, a doença leva você a gostar menos ainda. E nem você, nem eu, vai a um lugar se não for bem recebido, não é verdade? Mas no emprego a gente não pode escolher, você tem de trabalhar onde a função é necessária. Muitas vezes, o fato de o ambiente não ser o mais amigável, ajuda a pessoa a não ter entusiasmo para voltar. Aí, também, São Paulo tem trabalho interessante. A gente percebe que as instituições, as associações de classe, estão coerentes com a importância do que a pandemia trouxe e da necessidade das pessoas voltarem, até como forma de melhorar o desempenho funcional, mas também de a gente devolver a competitividade do País. E o trabalho que traz prazer também significa saúde.

Que orientação daria para quem está nesta fase, teve alta, e precisa trabalhar? Ter paciência ou insistir no retorno?

Olha, a orientação é: respeite os seus limites. Todos os dias nos colocamos em posição de desafio, ou seja, se estou fazendo exercício, quero fazer mais cinco minutos; se estou trabalhando, abraço mais um objetivo; mas a gente precisa respeitar nossos limites. Ainda mais se a gente está em fase de recuperação. Não significa deixar de fazer, mas significa fazer com mais cautela, quando necessário com ajuda, e sempre buscando a cada dia um passo a mais, com segurança. Neste processo de recuperação, o passo, mesmo pequeno, deve ser para a frente. Nós tivemos aqui pacientes que trabalhavam na limpeza urbana, telemarketing, médicos que operavam com muita destreza, professores de faculdade, donas-de-casa, pessoas que trabalham em escritório. Em todos os casos o que dizemos é: respeite o seu limite, busque apoio dos seus colegas e traga para nós todas as suas dúvidas.

Como é feito esse trabalho?

Nós montamos equipes de teleatendimento, grupos de orientação e quando ele tem condições de condicionamento físico, que nós oferecemos no programa de reabilitação, um condicionamento físico mais suave, não é transformar a pessoa sedentária num atleta, mas que vai devolver a coordenação, agilidade e o equilíbrio emocional. É preciso entender que a gente não é capaz de fazer o que fazia com dez anos, é a primeira lição da vida. A gente precisa se ajustar aos diferentes momentos. A segunda lição da vida é que a gente não precisa se conformar com fazer menos, pode fazer mais de uma forma diferente. Então a gente simula atividades do indivíduo. A equipe descreve com o paciente toda a rotina de trabalho dele e vamos mostrando os pontos de atenção. Desde o deslocamento, levantar da cadeira, levantamento de um peso, os pontos de atenção da coordenação e da memória. Reproduzimos cada uma das etapas para garantir que essa ação ocupacional, um dos focos importantes do processo, seja feita com total segurança da ajuda necessária. Por exemplo: às vezes um pequeno apoio, um suporte, para reduzir o peso do braço ajuda o indivíduo a voltar para as atividades de informática na atividade que exige uso do computador. Procuramos ajustar a atividade que esteja próximo daquilo que ele vai fazer.

E isso acontece onde? É feito no HC?

No HC. A maior unidade da Rede Lucy Montoro fica dentro do Hospital das Clínicas. O nosso Instituto fica na Vila Mariana, onde há unidade de internação e ambulatório, mas temos também um espaço dentro do HC, no prédio central. Temos também uma área no Jardim Umarizal, no Campo Limpo; uma no Morumbi, onde há o maior número de leitos, de reabilitação; e na Lapa, onde há o trabalho de orientação para as atividades ocupacionais e um espaço grande de condicionamento físico e atividades laborais para ajustes no mundo do trabalho. É onde se faz os ajustes finais para a pessoa voltar às atividades profissionais e até para os afazeres domésticos: cuidados ao usar o forno, como usar o apoio da pia. Tudo isso é feito pelas terapeutas ocupacionais.

E sobre a pandemia. O que estão esperando?

Estamos no meio de um tsunami e qualquer previsão é mais instintiva do que científica. Mas eu vejo dentro desse tsunami uma luz clara oferecendo uma oportunidade de a gente fortalecer o sistema de saúde, fortalecer o SUS.

Serviço

O serviço de reabilitação da Rede Lucy Montoro é considerado referência no setor no País. Ligado à Faculdade de Medicina da USP, o serviço atende pacientes em tratamento de reabilitação em cinco unidades na capital, mas se entende também ao interior do Estado e Litoral. 

Na capital, os locais de atendimento se localizam no Hospital das Clínicas, área da Avenida Rebouças, Vila Mariana, Jardim Umarizal, Morumbi e Lapa.

No Interior - Botucatu, Campinas, Fernandópolis, Marília, Mogi Mirim, Pariquera-Açú, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São José dos Campos, São José do Rio Preto, Sorocaba

Litoral - Santos, além de uma Unidade Móvel.

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