GABRIELA BILO / ESTADAO
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Fernando Reinach
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Resposta retardada

Qualquer medida tomada hoje demora pelo menos 15 dias para ter efeitos observáveis

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 05h00

No Brasil e no mundo, os governos têm se deparado com a difícil decisão de quando iniciar e terminar as medidas de distanciamento social. O norte da Itália, Londres e Nova York demoraram para iniciar o isolamento e estão sofrendo com um número enorme de casos. Nessas cidades, as medidas foram retardadas, e duas semanas depois elas foram atingidas por um crescimento exponencial de casos. Muitas cidades que sequer possuem casos da covid-19 estão com os hospitais vazios e já iniciaram o isolamento. Outras estão esperando aparecer os primeiros casos. Qual é a decisão correta? 

A grande dificuldade enfrentada pelos governos é um fenômeno pouco familiar no nosso dia a dia, que é lidar com sistemas que apresentam resposta retardada. Em uma sentença é o seguinte: qualquer medida tomada hoje demora pelo menos 15 dias para ter efeitos observáveis e, quando revertida, demora mais 15 dias para que os efeitos da reversão sejam sentidos na prática.

Aqui vai uma analogia que ajuda a entender um problema. Imagine uma caixa de água com um registro na saída. Ligado a esse registro temos um cano muito longo. Ao abrirmos o registro, a água só sai na outra ponta do cano 15 dias depois (é longo mesmo!). Aí você imagina uma pessoa na ponta do cano (João) e outra pessoa controlando o registro (Maria). Elas desconhecem o comprimento do cano, mas possuem um telefone para conversar. No inicio desse experimento imaginário o registro está fechado e João, na ponta do cano, quer encher um balde com água. Então ele liga para Maria, que controla o registro, e diz: Maria, abre um pouco o registro. Maria abre. Minutos depois João reclama: Maria, você abriu o registro? Sim, abri um pouco. Mas, Maria, a água não esta chegando, abre mais um pouco. Ela obedece. E essa rotina se repete ao longo de 15 dias, com João desconfiando da honestidade de Maria, que já abriu o registro completamente. Quinze dias depois, as primeiras gotas de água começam a sair do cano. Mas, aos poucos, a água começa a sair em maior volume e João fica preocupado, o balde vai transbordar. Ele espera um pouco, mas o volume de água continua a aumentar, afinal 15 dias atrás, ele tinha pedido para Maria abrir mais o registro.

Logo João entra em pânico, o volume crescente de água que jorra do cano encheu o balde, que transbordou e a enxurrada pode alagar tudo. Ai, ele liga para Maria: Maria, tem água demais por aqui, fecha já esse registro. Ela fecha, mas a quantidade de água que sai do cano continua a crescer. Maria, você tem certeza que fechou o registro? Ela jura que sim. E a água continua a jorrar com um fluxo crescente por mais 15 dias, derrubando o balde e alagando a casa de João. Nessa fábula, nenhum dos dois entendia direito que as ações de Maria, comandadas por João, tinha uma resposta retardada em 15 dias. E mais, eles não tinham ninguém ao longo do tubo informando o fluxo de água a cada momento.

Nessa analogia, João é o sistema de saúde, preparado para tratar os casos de covid-19 nos diversos hospitais, e as pessoas isoladas, observando a ausência de um número significativo de casos. O registro fechado é o isolamento social. Maria representa os governantes que mantêm os registros fechados. João também representa as pessoas preocupadas com a crise econômica que precisam de água para irrigar a economia e evitar a recessão que ameaça o País. Esses dois Joãos pressionam Maria para abrir a registro. Maria tem o poder para decidir, foi eleita para governar. Se ela liberar o distanciamento social, abrindo o registro, vai demorar 15 dias para os casos chegarem aos hospitais. Mas se chegarem um grande número de casos no hospital e ela decidir reverter a decisão, fechando o registro novamente, os casos vão continuar a crescer exponencialmente por mais 15 dias, para desespero de todos.

Uma das ferramentas que pode ajudar Maria e João a operarem o registro de maneira científica é a instalação de pontos de monitoramento ao longo desse longo cano. Pontos esses que possam informar qual o fluxo de água ao longo do cano a cada momento. No mundo da epidemia, esses pontos de monitoramentos são baseados na testagem contínua da população. Logo perto do registro, o controle possível é medir a taxa de transmissão no vírus na população. Quando ela aumenta, sabemos que mais água vai chegar no ponto seguinte, o aumento de casos leves da doença, que ocorre dias depois. Alguns dias depois aumentam os casos de hospitalização, mais adiante aumentam os casos graves e, finalmente, logo antes da boca do túnel, é possível observar o aumento de mortes, um passo antes da saturação dos hospitais e o colapso do sistema de saúde.

Para cada um desses pontos é possível organizar sistemas de monitoramento. Os epidemiologistas sabem como montar esses pontos de monitoramento, já fazem isso para doenças como a gripe, mas no meio dessa crise está sobrando pouco espaço mental, dinheiro e agilidade para montar os pontos de gerenciamento capazes de ajudar os governos a administrar o isolamento social. Essa é uma tarefa para epidemiologistas, engenheiros e estatísticos, que, claro, precisam ser orientados por médicos, mas que devem correr em paralelo ao esforço brutal que é administrar a avalanche que casos que vai aparecer nas próximas semanas. A China está montando um sistema como esse e já calcula a cada dia a taxa de propagação do vírus e inclusive o aparecimento de casos assintomáticos. Sem isso vai ser mais difícil administrar com sabedoria a saída do isolamento social.

*É BIÓLOGO

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