Raimundo Pacco/EFE
Raimundo Pacco/EFE

Retomada das atividades no Pará registra aglomeração e desrespeito aos protocolos de distanciamento

Prefeitura de Belém e Governo do Pará discordam de alguns pontos do plano de retomada da economia e moradores culpam governantes pela falta de informações

Roberta Paraense, especial para O Estado

02 de junho de 2020 | 11h00

BELÉM - O retorno das atividades econômicas em 47 municípios da região metropolitana de Belém, de Marajó Oriental, Baixo Tocantins e do Araguaia foi intenso. A movimentação desta segunda-feira, 1.º, principalmente na capital paraense, chegou próximo à normalidade, quando a cidade não estava ameaçada com a pandemia do novo coronavírus. Nos pontos de ônibus e no centro comercial, muita aglomeração e desrespeito aos protocolos de distanciamento social e sanitários, estabelecidos em decreto estadual e municipal, que preveem a retomada gradual da economia e da prestação de serviços.

A volta ao trabalho levou muitos paraenses às ruas e a movimentação foi alta tanto nos bairros nobres quanto na periferia, com a reabertura de 2.500 estabelecimentos comerciais que estavam fechados desde o dia 7 de maio. As ruas do centro ficaram lotadas de famílias que foram às compras, de pessoas que procuravam bancos, de comerciantes e lojistas.

Por volta das 9h30, uma fila se formou em frente à uma loja de decoração e de utilidades para o lar, próxima à prefeitura de Belém. Funcionários do estabelecimento tentavam manter a regra de 50% de ocupação do espaço, restringindo a entrada de clientes. Com chuva que caiu a tarde, porém, os consumidores entraram no local e ficaram todos aglomerados.

Ainda no centro comercial, houve disputa por uma vaga de estacionamento. Na Praça Felipe Patroni, que normalmente é bastante movimentada por estar cercada de órgãos públicos – atividade suspensa até o momento –, houve grande fluxo de consumidores indo ao comércio. Às 10h, filas de carros estavam à espera de vagas na Rua João Diogo.

Na Avenida 16 de novembro, os pontos de táxi e de ônibus estavam cheios. Os coletivos também passavam lotados, quando deveriam circular com menos da capacidade máxima de pessoas sentadas. No complexo do Ver-o-Peso, uma grande quantidade de ambulantes e consumidores tomava conta do espaço.

Desrespeito

Pelas ruas estreitas do centro comercial, a maior parte das pessoas que circulavam fazia o uso de máscaras de proteção, mas se mantinham aglomeradas, sem respeitar o distanciamento social de 1,5 metro. 

Grande parte dos lojistas não oferecia álcool em gel aos clientes, tampouco limitava o acesso à parte interna de uma pessoa por família, como rege o decreto municipal. A ocupação de maneira intercalada dos caixas de pagamento das lojas, para respeitar a distância mínima, pouco foi vista pela reportagem.

Um estabelecimento de produtos eletrônicos, localizado Rua 13 de Maio, tentou seguir as normas, com o controle da entrada de clientes. Porém, devido à calçada estreita, as pessoas na fila que aguardavam ao lado fora se esbarravam umas nas outras, disputando o curto espaço com carros e ambulantes. 

Comerciantes denunciam falta de informação

Thelma Trindade, de 55 anos, foi às compras e disse que não imaginou encontrar tantas pessoas nas ruas. “Faço máscaras e roupas para vender, e resolvi comprar tecidos hoje. Mas já vou voltar pra casa, pois nunca imaginei ver tanta gente circulando no meio de uma pandemia”, espantou-se.

Ao tentar justificar o não cumprimento dos protocolos de higiene e de distanciamento, os lojistas culpam os governantes pela falta de informações concretas para o primeiro dia de retorno às atividades, depois do lockdown de três semanas e de mais uma semana com medidas de circulação mais rígidas. “Uma hora o governador diz que vai abrir tudo, depois, o prefeito diz que não vai. Não sabemos nem como nos preparar, nem a quem ouvir”, disse o vendedor José Carlos Mota.

Na última sexta-feira, em coletiva à imprensa, o governador Helder Barbalho (MDB) anunciou o programa Retoma Pará, com a liberação de 36 atividades econômicas, entre elas o comércio de rua, salões de beleza, barbearias e shoppings center. Na oportunidade, os protocolos a serem adotados na retomada e os meios de fiscalizações não foram anunciados. Segundo Barbalho, as informações sairiam em edição extra do Diário Oficial do Estado (DOE) no mesmo dia, mas não saiu.

O documento foi publicado apenas na manhã de domingo, 31, tendo o texto sido reeditado à tarde. O decreto prevê as medidas do programa Retoma Pará com o retorno dos segmentos econômicos de forma gradativa, mantendo o distanciamento e protocolos específicos, dada à classificação por nível de risco de cada região de saúde estabelecida pela gestão estadual. 

A jurisdição das medidas, no entanto, é de competência da prefeitura municipal, que, por sua vez, publicou o Decreto n.º 96.378/2020 apenas na manhã desta segunda-feira, 1.º, quando os comerciantes já estavam na ativa.

Brigas políticas

Mesmo com o alvoroço dos belenenses para ter uma definição concreta de como seria o retorno às atividades, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (MDB), um dia após o anúncio do governo do Estado, apenas antecipou que não seguiria à risca o plano de Barbalho. Os dois são adversários políticos.

Zenaldo se manteve contrário a alguns pontos do plano estadual. Ele afirmou não concordar que Belém seja incluída junto à Região do Marajó Oriental e do Baixo Tocantins, na análise do programa Retoma Pará. Outro ponto questionado pelo gestor municipal foi a quantidade de segmentos autorizados a funcionar na cidade.

“Nós (Prefeitura) temos muitas convergências e concordâncias no que foi apresentado, e, em alguns pontos, não há comunicação entre o que tratou o Estado e o que a municipalidade está tratando. Por exemplo, a inclusão de Belém em uma região trazendo o Marajó e o Baixo Tocantins. Isso tem rebaixado o conceito da possibilidade de abertura em Belém”, afirmou Zenaldo.

Entre uma das determinações municipais que contrariam o decreto estadual está a abertura de barbearias, salões de beleza e shoppings centers para esta segunda-feira. Estes estabelecimentos estão autorizados a reabrir somente na próxima quinta-feira, 4. Permanecem fechados também na capital paraense as academias de ginástica, bares, restaurantes e casas noturnas e estabelecimentos similares, atividades imobiliárias, agências de viagem  e praias, balneários e clubes, que também estão proibidos pelo decreto estadual.

Em vídeo publicado nas suas redes sociais, Barbalho falou sobre o processo de reabertura. “Nas últimas 24 horas no Estado, lamentavelmente, perdemos duas vidas para o coronavírus. Mas se formos fazer uma comparação em determinados momentos do pico da doença, de fato há uma redução muito considerável”, comparou. As decisões foram tomadas a partir dos dados científicos que mostram a diminuição na curva de contágio e no número de óbitos, segundo o governador.

Barbalho pediu à população que não confunda esse processo gradativo com cenário de liberação geral. “Nós temos tratado isso de maneira científica para avaliar, dia a dia, o comportamento do contágio, número de óbitos, para tomada de decisão. Que todos possam seguir a orientação de cada município, que possam seguir a orientação do governo do Estado, que estabeleceu, através de coloração, o grau, o nível do risco de cada região de saúde, para que nós não tenhamos necessidade eventualmente de haver um regresso para estágios de maior restrição”, disse. 

Pará cai no ranking de isolamento

O Pará alcançou a 14.ª posição no ranking brasileiro de isolamento social no domingo, 31. Em números percentuais, a taxa representou 49,96% de pessoas se mantendo em casa para evitar a proliferação do novo coronavírus. O lockdown no Estado teve a duração de 17 dias e finalizou no último domingo, 24. No período de 25 a 31 de maio, durante a primeira semana sem a suspensão total de serviços não essenciais e o fim do controle do fluxo de pessoas em vias públicas, a média da taxa de isolamento foi de 44,33% em todo o Pará.

De acordo com o secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Ualame Machado, o índice maior de pessoas nas ruas já era previsto. "A redução no índice de isolamento já era esperado, uma vez que após o lockdown as pessoas já podem sair de casa sem precisar comprovar a necessidade e sem serem multadas, além das atividades que começaram a ser retomadas hoje. É fundamental lembrar que não é o fim do isolamento social, é preciso manter todas as medidas possíveis para evitar o contágio e não termos que retroceder", afirmou.

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