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Retrospectiva sobre a covid-19 mostra dificuldades com remédios, politização e impasses sobre vacina

Lembrar este ano de pandemia é fundamental para uma reflexão

Sergio Cimerman, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2020 | 05h00

Final de ano chegando. Todos querendo confraternizar. Não é momento ainda. Devemos ter cautela e medo do novo coronavírus. Resolvi fazer, aqui, o mesmo que a televisão faz todos os anos: uma retrospectiva, mas, a minha, especificamente sobre a covid-19. Não é tão agradável, mas fundamental para uma reflexão.

O começo. Com a descoberta do novo vírus, que ameaça todos os continentes, a OMS resolve decretar pandemia. Cuidados extras são determinados pelas autoridades sanitárias internacionais. No primeiro momento não se tinha certeza da real necessidade do uso de máscaras. Muita divergência até que se consegue comprovar que inclusive as máscaras caseiras seriam de grande valia no esforço de não proliferação da covid-19. Medida esta que perdura até hoje aliada à higienização das mãos e ao distanciamento social. 

O meio. Passamos, então, pela fase de histeria nacional – e até internacional – apregoando o uso de cloroquina/hidrocloroquina para tratamento precoce mesmo em casos brandos. A comunidade cientifica embasada em evidências veio revelar que não existia benefício clínico no uso desses medicamentos, mas em vários locais a cloroquina foi usada de modo intenso. Passamos momentos difíceis com ameaças de morte, agressões em mídias sociais e tantas outras ofensas morais em detrimento de fazer uma medicina correta. Depois, enveredamos para a ivermectina e caminhamos para prescrever de modo irrestrito corticoides e anticoagulantes. O valor destas duas últimas medicações foi mostrado em pacientes com casos moderados a graves com estudos grandes e com avaliação dos pares em questão de seriedade. 

Até agora não temos droga efetiva para o Sars-Cov-2. Parece que o remdesivir e anticorpos monoclonais talvez em associação possam exibir ação efetiva, mas em casos críticos. Imunobiológicos são outra opção, diminuindo a famosa tempestade de citocinas. Com o avançar de casos e mortes no mundo, o pânico e as fake news foram marcantes em 2020. Isto atrapalhou consideravelmente a informação correta dos profissionais da saúde. O que muito nos ajudou foi a imprensa séria, que ia atrás de tais inverdades e separava para a população o joio do trigo. 

Outro ponto a se destacar foi não testarmos de modo adequado. Toda literatura médica apontava para o padrão ouro do RT-PCR e, muitos fazendo testes rápidos, que em nada colaboravam. Pelo contrário: confundiam diagnóstico. Quem mais testou mais acertou. Isolou mais precocemente contactantes. Nos perdemos neste tópico. Vamos perder exames pela validade dos kits. Perder dinheiro público neste momento. A politização foi crucial. Trocamos dois ministros da Saúde e simplesmente não houve a confluência de ideias do governo federal com os estaduais e municipais. Notou-se que muitos queriam tirar uma casquinha de vantagens na questão das eleições. Triste realidade brasileira. 

Com a luz de reais possibilidades de imunizar a população, experimentamos outro momento de politização. Deveríamos nos unir e agilizar o processo. O governo de São Paulo parece mais organizado e estruturado – e em breve, com a conclusão do estudo de eficácia, poderemos ter uma vacina chinesa à disposição. O governo federal, por outro lado, ainda engatinha: tanto na aquisição de vacinas quanto de insumos necessários.

Quando comparamos com outras nações, notamos nosso atraso. Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos já iniciam a vacinação. E nós? Nada ainda! Os recursos econômicos existem e devem ser aplicados na saúde. Vacinar a todos com segurança só irá trazer tranquilidade a nossa economia e, assim, circular novos projetos e investimentos por parte do empresariado. 

E o fim? Espero que em 2021, Papai Noel traga realmente muita saúde a todos nós e que sejamos abençoados com uma vacinação efetiva e com mínimos efeitos colaterais. Enquanto este momento não chega, devemos manter os mesmos preceitos de distanciamento social, higienização de mãos e uso adequado e permanente de máscaras. Desejo união entre todos com muita saúde e que 2021 chegue rapidamente trazendo luz e esperança à população mundial. Saúde a todos!!!

SERGIO CIMERMAN É COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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