Revisão confirma que vacina contra Aids pode ter funcionado

Os médicos que surpreenderam o mundo científico ao anunciar recentemente uma vacina que teria evitado algumas infecções pelo vírus da Aids divulgaram nesta terça-feira detalhes do seu trabalho, e disseram que uma cuidadosa revisão ratificou as impressões iniciais.

MAGGIE FOX, REUTERS

20 de outubro de 2009 | 11h03

Os detalhes do estudo, que mostrou que a vacina experimental evitou quase um terço das infecções entre 16 mil voluntários tailandeses, foram publicados na revista New England Journal of Medicine.

"Essa é uma validação dos resultados", disse Jerome Klim, coronel do Exército dos EUA e médico do Instituto de Pesquisa do Exército Water Reed, em Maryland, um dos coordenadores do estudo.

Kim e seus colegas apresentarão os detalhes nesta terça-feira em uma reunião de pesquisadores da vacina contra a Aids em Paris.

A pesquisa combinou duas vacinas: a Alvac, do laboratório Sanofi-Pasteur, concebida para o combate à chamada varíola dos canários; e a frustrada vacina para Aids Aidsvax, desenvolvida pela empresa californiana VaxGen, que hoje pertence à ONG Global Solutions for Infectious Diseases.

O estudo, patrocinado pelos governos dos EUA e da Tailândia, reduziu em 31,2 por cento a taxa de contaminação ao longo de três anos, segundo uma análise dos dados.

A equipe de Kim salientou que o efeito foi modesto e difícil de interpretar, que a vacina não está nem perto de ter uso comercial, e que ela pode não funcionar para a cepa do HIV prevalecente na África, onde a doença é mais comum.

Dias depois do anúncio dos resultados, em setembro, alguns pesquisadores não-identificados disseram à revista Science e ao The Wall Street Journal que o estudo era mais fraco do que inicialmente pareceu. Eles contestavam os métodos estatísticos usados na análise dos dados.

A equipe de Kim realizou três análises diferentes -- uma chamada de análise de intenção de tratamento, outra chamada de análise modificada de intenção de tratamento, e uma terceira chamada análise pró-protocolo.

Kim disse que a análise modificada de intenção de tratamento foi a mais precisa, por excluir sete voluntários que, segundo se soube posteriormente, haviam sido contaminados com o HIV antes de serem vacinados.

Pessoas que questionaram as conclusões, segundo as reportagens, diziam que as análises pró-protocolo e de intenção de tratamento eram estatisticamente insignificantes.

Kim afirmou que sua equipe respondeu aos questionamentos a respeito disso de modo a satisfazer os resenhistas independentes da publicação -- um processo chamado revisão por pares, que é um dos serviços fornecidos por publicações médicas e científicas.

Em comentário na revista, Raphael Dolin, do Centro Médico Beth Israel Deaconess e da Escola de Medicina de Harvard, em Boston, disse que o estudo havia sido rigorosamente preparado e conduzido.

"Embora os métodos de cada tipo de análise possam ser debatidos, todos os três resultaram em um efeito possível, embora modesto, da vacina na prevenção do HIV", escreveu Dolin.

Mas ainda não se sabe quanto tempo dura essa proteção, e qual foi a participação de cada uma das duas vacinas. "Precisamos tentar entender por que vimos o que vimos," disse Kim.

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