Asmaa Waguih/Reuters
Asmaa Waguih/Reuters

Revolução egípcia pode ter salvado tesouro neolítico

Governo tinha liberado área de sítio arqueológico para a construção de resort turístico

Reuters

03 Junho 2011 | 13h13

A insurreição popular do Egito pode ter ocorrido na hora certa para salvar um sítio arqueológico neolítico que possui as evidências mais antigas em relação a agricultura do país e pode fornecer dados importantes da ascensão da civiliação faraônica.

O sítio está localizado em uma reserva natural protegida ao longo das margens norte do lago Qarun, que até recentemente era mantido virtualmente intocado, apesar de ficar apenas a 70 km da capital Cairo.

Um mês antes do início dos protestos que derrubaram o presidente Hosni Mubarak, o governo egípcio delimitou um área de 2,8 quilômetros quadrados da reserva e fez uma concessão para o Grupo Amer para a construção de um resort turístico.

Desde que Mubarak foi deposto, três ministros do país que aprovaram a venda foram presos e enfrentam acusações de corrupção por casos não relacionados com a negociação com o grupo.

Um deles, o Ministro da Habitação Ahmed el-Maghrabi, disse à Reuters em janeiro que arqueólogos oficiais do governo deram sinal verde para o empreendimento. Agora, o responsável pela área diz que a informação não é verdadeira.

"Eu não dei nenhuma autorização. As escavações ainda não terminaram", disse Zahi Hawass, chefe do Conselho Supremo de Antiguidades.

Grupos de conservação do Egito têm minimizado o negócio com o Amer dizendo que ele foi feito sem a supervisão adequadae e que a chegada de um grande número de turistas iria resultar em danos sérios na região.

"Este é uma parte do problema. É a destruição do patrimônio egípcio para as futuras gerações", disse Ali Fahmi, diretor do grupo conservacionista Amigos do Lago Qarun. "Isso abre um precedente para a profanação de áreas protegidas"

Baleia e fósseis de primatas

O governo egípcio declarou, em 1989, 1.110 quilômetros quadrados ao norte do lago um protetorado natural, uma área que também apresenta um ageologia única, pedreiras de basalto faraônicas e fósseis de antigas baleias e primatas.

Arqueologisas disseram que os restos de uma fazenda neolítica pode conter pistas de um salto tecnológico que levou a uma fazenda de irrigação ao logo do Nilo.

"Nós temos evidências de atividades agrícolas antigas no Egito". É anterior aos faraós, é anterior à primeira dinastia, do período que o Egito se tornou um estado", disse Willeke Wendrich, professora de arqueologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

"O que temos na margem norte do Fayoum é algo único no mundo. O que temos são paisegens neolíticas que, por serem desertas, não foram usadas para construções", disse a professora.

Khaled Saad, gerente do departamento da pré-história do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito (SCA, na sigla em inglês), disse que há quatro anos o Ministro do Turismo decidiu que queria construir hotéis e atrações turísticas em uma área de 20 km quadrados que se estende ao longo de 10 km da margem norte do lago.

Foi então formado um comitê para aprovar a área designada para o projeto que incluiu o primeiro-ministro Ahmed Nazif, o ministro do Turismo Zoheir Garranah, Maghrabi e outros oficiais do governo, disse Saad.

Em dezembro, a Autoridade de Desenvolvimento Turístico, que está ligado ao Ministério do Turismo, fez uma concessão de 99 anos das terras para o Grupo Amer, cobrando US$ 28 mil no primeiro ano. Maghrabi disse no início de janeiro que a SCA levou arqueologistas para pesquisarem a área antes do projeto ser levado adiante.

"A área foi completamente 'limpa' pelo departamento de antiguidades. Nos certificamos disto", disse Maghrabi na época. "O projeto foi aprovado há vários anos, mas não houve progresso até que o departamento de altiguidades terminou o trabalho. E eles terminaram o trabalho".

Mais pesquisas "cruciais"

Mas Hawass, do conselho de antiguidades, disse que o trabalho ainda está em andamento e que está exigindo um novo assentamento.

"Há duas semanas eu pedi a Khaled Saad para me trazer um relatório para dar sua opinião como arqueologista. E agora nós iremos formar um grande comitê de arqueologistas para decidir sobre o futuro das terras", disse Hawass.

Saad disse que a pesquisa mencionada por Maghrabi foi feita entre março de 2009 e outubro de 2010 e tinha como objetivo verificar a existência de antiguidades no sítio arqueológico. "Eu disse que havia", ele lembra.

O sítio contém restos valiosos de épocas anteriores e posteriores ao período faraônico, informou Saad.

Eles também encontraram restos de 24 baleias que nadaram nas águas da região há 42 milhões de anos, incluindo uma de espécie desconhecida.

Weindrich disse que futuras pesquisas na área são cruciais para o descobrimento das origens da civilização egípcia.

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