Ribeirão Preto chega a 4.880 casos de dengue no ano

RIBEIRÃO PRETO - A Secretaria da Saúde de Ribeirão Preto confirmou nesta quarta-feira, 23, mais 1.295 casos de dengue. A cidade totaliza 4.880 casos da doença neste ano. As ocorrências positivas ocorreram: 970 em janeiro, 2.942 em fevereiro e 968 em março. Um dos casos confirmados é de uma morte, ocorrida no final de janeiro: a vítima foi a auxiliar de enfermagem Flávia Patrícia Quirino, de 36 anos. A morte foi por dengue clássica, mas em decorrência de complicações. Ribeirão Preto registrou em 2010 a sua pior epidemia de dengue, com cerca de 30 mil casos - nove pessoas morreram, cinco delas com o quadro hemorrágico.

Brás Henrique especial para O Estado de S. Paulo,

23 Março 2011 | 16h20

Dengue x escola

A dengue se alastrou pelo País nos últimos anos, com epidemias e mortes em várias cidades. Para tentar descobrir se existe algum impacto da saúde no desempenho escolar, com alunos da quarta série do ensino fundamental (quinto ano, atualmente), a dengue foi escolhida com uma variável no estudo feito por Daniel de Araújo Roland, da Faculdade de Economia e Administração (FEA), da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto. "Os dados usados não são os mais adequados, mas, apesar do resultado não conclusivo, o estudo apontou um forte impacto negativo da dengue no desempenho escolar", resume Roland, que se tornou em fevereiro deste ano mestre em Ciências, na área de Economia Aplicada, pela FEA.

O estudo, intitulado O efeito da saúde sobre o desempenho escolar, demorou cerca de um ano e meio. Segundo Roland, esse tipo de estudo é comum nos Estados Unidos, no Reino Unido, na França e até na Índia. Mas no Brasil alguns dados sobre educação surgiram somente na última década, como a Prova Brasil e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Informações da Prova Brasil de 2005 e 2007 e indicadores do banco de dados do Sistema Único de Saúde (Datasus) de 2004 e 2005 foram usados por Roland nesse estudo.

Diante de dificuldades estatísticas, Roland adotou estratégias alternativas na primeira etapa de seu estudo, utilizando dados agregados por microrregião, como oferta de infraestrutura (números de hospitais e leitos disponíveis), da Assistência Médico-Sanitária (AMS), e indicadores de qualidade (coeficiente de mortalidade infantil e porcentual de nascidos vivos abaixo do peso), do Datasus, ambos do governo federal. Coletou os dados por municípios, quase 5 mil de todo o País, divididos em 554 microrregiões, para estimar a influência das variáveis de saúde no desempenho escolar. A primeira questão era: será que a cidade com mais hospitais, por exemplo, tem melhor desempenho escolar? Resultado inconclusivo, pois os dados usados talvez não fossem os ideais.

A segunda parte do estudo questionava se a cidade que teve surto de dengue teve efeito negativo no desempenho escolar. Com dados da Prova Brasil de 2005 e índices do Datasus de 2004 e 2005, Roland chegou a um resultado melhor. "Não foi completamente satisfatório, mas há indícios de que a dengue afeta o desempenho escolar", informa ele. Nessa etapa do estudo, seguindo os critérios adotados, 78 municípios brasileiros (acima de 5 mil habitantes) com surtos de dengue foram isolados pelo pesquisador - essas cidades aumentaram em mais de dez vezes a taxa da doença de 2004 para 2005. E 43 desses municípios, que tiveram surto de dengue na faixa etária de 10 a 14 anos (público-alvo), também foram analisados.

Uma das técnicas de estimação apresentou resultado não significante. Outro, porém, apontou grande impacto do surto de dengue no desempenho escolar, sempre com resultados negativos. Em quatro especificações do trabalho, na disciplina de matemática, na Prova Brasil em 2005, o impacto negativo, em média, foi de 10,24 pontos para surto de dengue na população e de 8,25 pontos para surtos na faixa de 10 a 14 anos. Para a disciplina de português, o impacto foi de 9,3 pontos negativos para a população e negativa de 5,62 pontos negativos na faixa etária de 10 a 14 anos.

O estudo indicou que estes impactos representavam até 25% do desvio padrão. Roland informa que, levando-se em conta que a média do desempenho dos alunos na Prova Brasil é de 180 pontos, isso representa uma redução acima de 6% na média dos alunos nas cidades que tiveram surto de dengue. "Os resultados não são contundentes, mas indicativos", comenta ele, que pretende aprofundar o estudo em curso de doutorado. "A incidência de dengue pode levar os alunos a perderem praticamente todo um ano de aprendizado no desempenho escolar." E ele finaliza: "A dengue tem efeito perverso maior do que as pessoas imaginam, não só na saúde, mas impactando na educação, que é fundamental para um país, pois é ela que leva a pessoa a ser mais produtiva para a própria nação."

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