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Rio atrasa fórmula para criança alérgica a leite

Segundo famílias, alimento está em falta há um mês; lata custa R$ 180 e pode durar só um dia; governo alega falha de distribuição

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2016 | 05h00

Em estado de calamidade financeira, o governo do Estado do Rio está atrasando o fornecimento de fórmula especial para bebês e crianças alérgicas ao leite de vaca. Trata-se de um alimento fundamental – muitas vezes, o único possível – para quem não pode consumir leite comum. Famílias ouvidas na semana passada pelo Estado contam que já faz um mês que não conseguem retirar o produto, cuja lata custa, em média, R$ 180, e pode durar apenas um dia – o que dá um gasto mensal de R$ 5.400. 

Estão em falta o Neocate LCP e Neocate Advance, ambos à base de aminoácidos. No caso de crianças com alergias alimentares múltiplas – a frutas, legumes, glúten, grãos e carnes –, a fórmula se torna ainda mais necessária. “É uma sensação de impotência muito grande. Minha filha se alimenta exclusivamente de Neocate, tem risco de choque anafilático. Além de não receber a fórmula, também não consigo a caneta de adrenalina, que é o que salva a vida dela em caso de choque, embora exista uma decisão judicial em dezembro que obriga o Estado a fornecer”, disse a dona de casa Monique Araújo.

A filha, Maria Eduarda, de 2 anos, tem alergia múltipla e apresenta reações, como urticárias e dificuldades respiratórias, mesmo sem comer os alimentos proibidos – basta sentir o cheiro deles. Na quinta-feira, Monique passou quatro horas na Secretaria Estadual de Saúde tentando um posicionamento sobre os produtos e saiu de mãos vazias. A caneta de adrenalina é importada e chega a custar R$ 1,5 mil a dose única. 

“O governo não dá previsão nem explica o motivo. O Neocate é o principal alimento do meu filho. A falta me revolta, ainda mais depois que vi a licitação do governo do Estado para compra de filé mignon e framboesa”, criticou a tatuadora Alessandra Klabin, referindo-se a uma compra que seria feita para abastecer o Palácio Guanabara, sede do governo estadual – mas foi cancelada, depois que a notícia veio à tona. Seu filho, Johann, também com alergia alimentar múltipla, tem 5 anos e síndrome de Cri du Chat, o que faz com que o Neocate seja crucial para seu desenvolvimento. 

Algumas famílias relatam que no fim de 2015 já haviam tido dificuldade em receber a fórmula; na ocasião, houve uma compra emergencial. “Minha filha tem alergia a 34 alimentos, não come nenhuma proteína animal, apenas cinco legumes, orgânicos, e o Neocate. Só a família mesmo para ajudar a comprar as latas. Tive de reduzir a quantidade recentemente, pela falta do repasse, e ela ficou doentinha”, lamentou a funcionária pública Tatiane Póvoas, mãe de Manuela, de 3 anos, que consome 19 latas por mês. 

A Secretaria de Estado de Saúde informou, por meio de nota, que “vem realizando esforços para regularizar o fornecimento de Neocate”, sem dar mais explicações sobre o motivo do desabastecimento. 

Capital. O município do Rio, que afirma estar em “situação fiscal absolutamente confortável”, segundo palavras do prefeito Eduardo Paes, também está com o fornecimento falho. A administradora Luiza Saraiva, mãe de um bebê de 1 ano com alergia a 11 alimentos, liga todos os dias para saber sobre a chegada da fórmula (usa duas latas por semana). E não recebe previsão. “Uma funcionária chegou a me dizer: ‘É sempre assim em ano eleitoral’. É esse leite que mantém meu filho com o peso adequado e crescendo”, lamentou. 

A Secretaria Municipal de Saúde explicou que “por mudanças na distribuição do fabricante do Neocate houve atraso no repasse do produto” e garantiu, na sexta-feira, que “a entrega do produto aos pacientes já está restabelecida”. Beneficiários contaram que as latas estão sendo racionadas e ouviram a promessa de que somente nesta semana a distribuição estaria regularizada.

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