Rio Grande do Sul amplia área de risco de febre amarela

O número de municípios do Estado da zona de risco passou de de 87 para 99 depois de mais uma morte

Elder Ogliari, de O Estado de S. Paulo,

08 de janeiro de 2009 | 20h21

A volta da febre amarela silvestre em humanos, depois de 42 anos, colocou as autoridades sanitárias do Rio Grande do Sul em alerta. O governo do Estado ampliou o número de municípios da zona de risco, de 87 para 99, e começou a distribuir mais 500 mil doses da vacina para os postos de saúde de todo o Estado nesta quinta-feira, 8, sem descartar a possibilidade de pedir mais um lote ao Ministério da Saúde nos próximos dias. Veja também: Febre amarela volta a matar no RS depois de 42 anos Nesta semana a Secretaria da Saúde confirmou que a morte de Veridiana Teixeira, de 31 anos, foi causada pela doença. Moradora de Santo Ângelo, ela esteve no interior de Eugênio de Castro, município vizinho onde havia ocorrido mortandade de macacos, no dia 30 de novembro. No dia 18 de dezembro, em casa, começou a sentir dor de cabeça e febre. Apesar de medicada, passou apresentar manchas na pele e olhos amarelados. O quadro evoluiu para insuficiência renal e morte no dia de Natal. Dois outros casos são considerados suspeitos pela Secretaria da Saúde. O primeiro é de um morador de Nova Santa Rita, na região metropolitana de Porto Alegre, que viajou a Pirapó, na zona de risco, no feriado de Natal, e morreu na noite de terça-feira na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. O segundo é de um homem que foi à mesma zona de matas próximas a rios de Pirapó e está em internado num hospital de São Luiz Gonzaga, no oeste do Estado. O material enviado para análise do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, vai confirmar ou descartar a hipótese. Embora não tenha recebido notificação oficial, a Secretaria de Saúde também sabe, pela imprensa, que dois óbitos ocorridos na Argentina recentemente podem ter sido provocados por febre amarela contraída na mesma região geográfica, mas a oeste do Rio Uruguai, no outro lado da fronteira. O oeste do Rio Grande do Sul está na zona de transição da doença, uma faixa que sobe pelo oeste de Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo, espalha-se por todo o território de Minas Gerais e chega ao oeste da Bahia e sul do Piauí, onde ocorrem surtos esporádicos. Mesmo assim as notícias recentes surpreenderam os gaúchos. A última morte de humanos por febre amarela no Estado havia ocorrido em 1966. Para as autoridades sanitárias, o alerta de presença da doença na região dispara quando há mortandade de macacos, animais que estão sob constante vigilância desde 2001, quando sofreram um surto de febre amarela que não chegou aos humanos. Desde novembro, a Secretaria da Saúde já recebeu 311 notificações de mortes de macacos por suspeita de contágio. A doença é transmitida entre os macacos e para humanos que entram nas matas sem vacina pelo mosquito haemagogus, que não vive nas zonas urbanas. O secretário da Saúde, Osmar Terra, diz que a vacina é indispensável para todos os moradores e para todas as pessoas que viajam para as zonas de risco, em qualquer lugar do mundo. Por isso as doses foram enviadas a todas as prefeituras do Estado. "Quem não mora lá e nem vai viajar para lá não precisa se imunizar", ressalva. Embora saibam que os mosquitos fazem o vírus circular entre os macacos, as autoridades sanitárias não têm uma explicação exata para a volta da febre amarela ao Rio Grande do Sul. "Pode ter ocorrido redução de predadores ou proliferação do transmissor, por fatores diversos, talvez até o aquecimento global, mas isso não é científico", comenta o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Francisco Paz. Estado sob ameaça de doenças tropicais O subtropical Rio Grande do Sul está sendo rondado por doenças tropicais. Além da febre amarela detectada nesta virada de ano, o Estado enfrentou seu primeiro surto de dengue em 2007, quando quase 300 pessoas da região noroeste foram infectadas pela moléstia. Teme-se ainda, por indícios, a possível presença da leishmaniose e da malária em futuro próximo. Assim como para o caso da febre amarela, as explicações para as novas ameaças ainda não chegam á exatidão, mas o diretor do Centro Estadual de Vigilância em Saúde, Francisco Paz, acredita que a "nova ecologia" esteja entre elas. Além do aquecimento global, que favorece a migração de determinadas espécies de mosquitos para zonas que antes eram mais frias, multiplicaram-se as facilidades para as viagens e deslocamentos dos humanos, que, muitas vezes, carregam consigo vírus e bactérias que vão infectar novos ambientes. Os serviços de vigilância sanitária já detectaram um caso de leishmaniose em cão, em São Borja, e supõem que a doença, conhecida do Sudeste para o norte do Brasil, tenha migrado da Argentina para o oeste do Rio Grande do Sul. O mosquito palha (lutzomyia) transmite o protozoário do gênero leishmania ao homem. A leishmaniose é doença crônica, classificada como grave, e provoca febre, perda de peso, anemia e inchaço do fígado e baço. Apesar de não estar em zona de malária, o Rio Grande do Sul pode enfrentar casos da doença no futuro. A presença do mosquito anopheles, transmissor do protozoário P. falciparum, já foi detectada em alguns pontos do Estado. A doença começa com dores de cabeça, fadiga, febre e náuseas e pode levar à morte.

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