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Rir, pensar, calar

A liberdade de tirar sarro será sempre a primeira a ser atacada

Daniel Martins de Barros, colunista

13 de janeiro de 2020 | 02h00

Resisti a escrever sobre o caso do especial de Natal do grupo Porta dos Fundos. Acho que fiquei intimidado pela agressividade que cerca o dissenso hoje. Opiniões diversas são sempre ocasião para bate-boca. Desaprendemos a discordar sem ofender e não queria entrar em briga. E sabia que, nesses tempos em que chamar à reflexão é considerado provocação, qualquer coisa que escrevesse seria provocativa, uma vez que o objetivo desse espaço é exatamente propor reflexões.

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Até que veio a determinação do desembargador Benedicto Abicair para que a Netflix retirasse o filme do catálogo. Foi demais para mim. Disposto a levar os xingamentos habituais, resolvi pensar junto com o leitor. Não para saber se o filme é bom ou ruim, se está certo ou errado, se deve ou não ser censurado. Mas para tentar entender por que raios ele incomoda tanto.

Como escreveu o ministro Dias Toffoli ao cassar a liminar de Abicair, “não é de se supor, contudo, que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã, cuja existência retrocede há mais de 2 (dois) mil anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros”. Perfeito. Nenhum cristão – entre os quais me incluo, vale dizer – discorda de tal afirmação. Um fiel que acreditasse ameaçado o futuro de sua religião por causa de um filme não demonstraria ter lá muita fé.

Alguém poderia dizer então que não se trata disso, mas de respeito: seria simplesmente errado rir da fé alheia. Esse argumento também não se sustenta. A gente ri – mesmo que secretamente – de um monte de coisa alheia: sotaque, opinião, fé. Não é questão de princípio. Até porque um dos mais antigos relatos de alguém rindo dos deuses dos outros vem da própria Bíblia. O profeta Elias desafiou os profetas de Baal para mostrar quem servia ao Deus verdadeiro. Após clamarem inutilmente para que Baal mostrasse seu poder “Elias começou a zombar deles. ‘Gritem mais alto!’, dizia, ‘já que ele é um deus. Quem sabe está meditando, ou ocupado, ou viajando. Talvez esteja dormindo e precise ser despertado’.” (1º Livro de Reis, capitulo 18, verso 27).

Então se Cristo não é afetado quando tiram sarro dele; se o cristianismo segue ileso diante das piadas mais infames; se rir da religião alheia não é pecado, qual é o problema, afinal? No fundo o problema não é com Jesus. (Nem com Maomé, quando os muçulmanos se iram diante de charges do profeta. Nem com o Palmeiras quando se zomba do time, etc.). É com o riso. E conosco.

Por mais briga que haja em grupos de mensagens e redes sociais, é muito raro ver alguém tentando censurar juridicamente uma opinião discordante – sabemos que nem todos irão acreditar nas mesmas coisas e lidamos (uns melhor, outros pior) com isso. Mas rir é diferente. Quem quiser discordar que discorde. Mas não me venham fazer troça. Aí já é demais.

Em sua irreverência – ou seja, na falta de reverência, daquele respeito sagrado – o humor dessacraliza o objeto de culto ao transformá-lo em objeto de riso. E para o fiel de qualquer credo é extremamente desafiador olhar assim para seu deus. Uma risada apenas pode abalar os alicerces da fé. Pois o humor é brutal. Ao contrário da teologia e da filosofia, que se esforçam em raciocínios complicados e argumentos profundos para fazer seus questionamentos, o humor mete o pé na porta da mente e obriga o público a pensar “e se?”. E esse condicional é ameaçador para a fé de muitos.

Não é por outro motivo que as tentativas de censura são mais comuns sobre as sátiras do que sobre outras formas de expressão. Não que eu considere a liberdade de expressão um valor absoluto. Nenhum valor é absoluto – nem a vida, nem a liberdade, nada – tudo depende de contexto. Pode ser justificável sacrificar a vida para garantir a liberdade, mas pode também se dar o oposto. É difícil colocar um valor como soberano em toda e qualquer situação. Mas a liberdade de tirar sarro será sempre a primeira a ser atacada. Como disse George Orwell, “Toda piada é uma pequena revolução”. E as revoluções são muito perigosas. Menos por ameaçar o que cremos do que por ameaçar nossa crença.

*DANIEL MARTINS DE BARROS É PSIQUIATRA

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