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Riscos desconhecidos

'Novas substâncias químicas que trazem risco de vida estão sendo colocadas em comprimidos vendidos como se fossem LSD ou ecstasy'

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2016 | 03h00

Estudo divulgado na última semana revelou que novas substâncias químicas que trazem risco de vida estão sendo colocadas em comprimidos vendidos como se fossem LSD (ácido lisérgico) ou ecstasy, duas das drogas sintéticas mais populares entre os jovens.

O trabalho do Centro de Controle de Intoxicações (CCI), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), identificou as drogas fentanil e butilona. Só em agosto, seis jovens entre 18 e 30 anos foram intoxicados por essas substâncias e um deles morreu por parada cardíaca. 

O fentanil é derivado opioide, usado como anestésico e analgésico, cerca de 50 vezes mais potente que a morfina. Foi o uso dessa substância que matou o cantor Prince, em junho. Já a butilona tem uma estrutura química semelhante à das anfetaminas, é empregada em alguns países como agrotóxico e repelente, mas também tem efeitos euforizantes e alucinógenos. Ela pode levar a intoxicações tão graves como as provocadas por cocaína ou metanfetamina. As informações foram divulgadas pelo Estado.

De acordo com o CCI, em um único exame foram encontradas quatro drogas distintas. A interação entre as diferentes substâncias pode potencializar seus efeitos, alguns deles com riscos para a vida, como taquicardia, arritmia, depressão respiratória, convulsões, hipertermia, hipertensão arterial e enfarte, entre outros.

O grande problema é que a origem dessas drogas é impossível de ser controlada, já que são ilícitas, produzidas clandestinamente no País ou importadas por traficantes. São comuns variações nas doses, contaminação por substâncias desconhecidas ou mesmo a troca ou a combinação entre diferentes componentes por questões econômicas ou de mercado. Assim, quem consome nunca sabe exatamente o que está tomando.

Muitos dos jovens, no calor do momento, misturam esses comprimidos com álcool, o que aumenta a chance de problemas. Como as sintéticas são, em geral, associadas às festas e às baladas, elas têm certo status de “drogas da moda” entre os mais novos. Muitos não enxergam perigos que elas podem trazer. 

Um relatório de 2013 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime já apontava um aumento de 50% do número de novas substâncias psicoativas. De lá para cá, essa tendência continuou. O que surge como novidade na Europa e nos EUA chega alguns anos depois nos países em desenvolvimento. A internet facilita a aquisição de novas drogas, com uma velocidade que pega de surpresa as autoridades, os médicos e os próprios consumidores.

Redução de danos. Do ponto de vista da saúde, algumas estratégias podem ser empregadas na tentativa de reduzir danos. A primeira delas seria fornecer mais informação para os jovens sobre os riscos dessas substâncias. É importante que eles entendam a dificuldade de atestar a “origem” desses produtos, os efeitos colaterais e o problema das interações entre eles e com a bebida.

Além disso, é fundamental que as equipes de saúde dos hospitais sejam informadas sobre quais as novas drogas que circulam, seus efeitos e possíveis medidas de suporte clínico e tratamento. 

Em alguns países, como na Holanda, há centros financiados por agências governamentais em que os consumidores podem levar seus comprimidos para testar sua composição e dose. Embora esse tipo de serviço seja pouco viável em países que não têm legislações específicas para o consumo dessas substâncias, ele poderia ajudar a evitar mortes.

Há também sites, alguns deles feitos por usuários, que ajudam a checar informações e deixar alertas para eventuais riscos do uso dessas novas substâncias. Um exemplo é o australiano pillreports.com. O neurosoup.com também vai nessa mesma linha. Vale dar uma olhada.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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