Andreas Gebert/Reuters
Andreas Gebert/Reuters

Rússia aprova regulamentação da primeira vacina contra covid-19, diz Putin

Segundo o presidente, imunizante é seguro e já foi administrado em uma de suas filhas; regulamentação abre caminho para vacinação em massa, mas comunidade científica desconfia da rapidez e falta de transparência na produção

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 06h33

O presidente Vladimir Putin disse, nesta terça-feira, 11, que a Rússia se tornou o primeiro país do mundo a aprovar a regulamentação para uma vacina contra a covid-19, após menos de dois meses de testes em humanos. A aprovação abre caminho para a imunização em massa da população russa, ainda que o estágio final de ensaios clínicos para testar a segurança e eficácia não tenha sido concluído. 

A velocidade com que a Rússia está se movimentando para lançar sua vacina destaca a determinação em vencer a corrida global por um produto eficaz, mas despertou preocupações de que pode estar colocando o prestígio nacional acima da ciência e segurança sólidas. Moscou, no entanto, afirmou que a aprovação é sinônimo da sua “proeza científica”.

Em uma reunião governamental na televisão estatal, Putin afirmou que a vacina, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, é segura e que até mesmo foi administrada em uma de suas filhas. “Sei que funciona de maneira bastante eficaz, forma uma forte imunidade e, repito, passou em todos os testes necessários”, disse Putin. O presidente espera que o país comece a produzir a vacina em larga escala em breve. O ministro da Saúde russo, Mikhail Murashko, já havia anunciado que a imunização deve começar em outubro.

A partir da aprovação pelo Ministério da Saúde do país, inicia-se um estudo maior envolvendo milhares de participantes, comumente conhecido como fase 3. Esses ensaios, que exigem uma certa taxa de participantes que contraem o vírus para observar o efeito da vacina, são normalmente considerados precursores essenciais para que um imunizante receba aprovação regulatória.

Especialistas em todo o mundo têm insistido que a corrida para desenvolver vacinas contra o novo coronavírus não comprometerá a segurança. Entretanto, pesquisas recentes mostram uma crescente desconfiança do público nos esforços dos governos para produzir rapidamente - e sem transparência - o imunizante.

Os profissionais de saúde russos que tratam pacientes com covid-19 terão a chance de se voluntariar para serem os primeiros vacinados, juntamente com professores, logo após a aprovação do imunizante, disse uma fonte à Reuters no mês passado.

Mais de 100 vacinas possíveis estão sendo desenvolvidas em todo o mundo para tentar frear a pandemia de covid-19. Pelo menos quatro estão em testes finais de fase 3 em humanos, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Rússia batiza vacina como ‘Sputnik V' 

O governo russo anunciou que o nome da vacina aprovada será “Sputnik V”. Essa é uma referência ao primeiro satélite orbital, lançado pela União Soviética em 1957, no contexto da Guerra Fria, e que deu início à corrida espacial.

O nome também evocou como o governo de Putin viu a busca pela vacina - um motivo de orgulho nacional e competição em escala global, com laboratórios nos Estados Unidos, Europa, China e outros lugares também em busca de uma vacina em potencial.

De acordo com Kirill Dmitriev, CEO do Fundo Russo de Investimentos Diretos (RFPI, na sigla em russo), Moscou vê o sucesso da Rússia em se tornar o primeiro país a aprovar uma vacina. Dmitriev informou ainda que o país já recebeu pedidos de mais de 20 países para 1 bilhão de doses do seu imunizante recém-registrado.

Para a Rússia, liderar a corrida das vacinas é um caminho para uma maior influência geopolítica. Mas o país também está tentando evitar parecer dependente das potências ocidentais, com as quais as relações são historicamente ruins, disseram analistas.

No mês passado, autoridades de segurança dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá acusaram hackers ligados a um serviço de inteligência russo de tentar roubar informações de pesquisas que trabalhavam para produzir vacinas contra o coronavírus nesses países. Autoridades russas negaram isso, e Kirill Dmitriev, chefe do Fundo que financiou o esforço de vacinação do país, considerou política a acusação internacional.

Teste limitado e falta de transparência

Em uma audiência no Congresso neste mês, Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, testemunhou que seria problemático se os países disponibilizassem uma vacina antes de testes extensivos.

“Espero que os chineses e os russos estejam realmente testando a vacina antes de administrá-la a qualquer pessoa, porque as alegações de ter uma vacina pronta para distribuir antes de fazer o teste, eu acho, são problemáticas”, disse Fauci.

Impulsionados pela urgência da pandemia, os países em todo o mundo estão fazendo encomendas antecipadas de vacinas e gastando bilhões de dólares para ajudar as empresas a aumentar a produção antes que os imunizantes se provem seguros e eficazes. O risco é principalmente financeiro - se as vacinas não tiverem sucesso em ensaios clínicos em grande escala, elas não serão usadas.

A principal vacina candidata russa até agora foi testada em pequenos ensaios clínicos iniciais projetados para encontrar a dose certa e avaliar a segurança. O imunizante foi administrado em cientistas que o desenvolveram, em autoexperimentação que é incomum na ciência moderna, em 50 membros do exército russo e alguns outros voluntários.

A maior parte do que os cientistas externos sabem sobre a vacina experimental vem de fontes indiretas e não de estudos médicos publicados pelos pesquisadores russos. Dmitriev reconheceu que, embora isso possa ser incomum em outros lugares, a Rússia é tradicionalmente reservada em seus esforços científicos. Mas, segundo ele, os resultados das fases 1 e 2 serão divulgados até ao final deste mês.

“Você tem que pensar um pouco sobre o sistema russo; depois que o Sputnik estava voando por cinco dias, apenas no dia cinco a Rússia reconheceu que havia um satélite voando”, comparou.

Dmitriev disse que sua confiança pessoal na vacina da Rússia era tão alta que ele, sua esposa e seus pais, ambos com mais de 70 anos, foram cobaias. Ele informou que apenas sua esposa relatou uma febre leve na primeira noite após a imunização.

OMS diz que está discutindo nova vacina com a Rússia

Após o anúncio do presidente Vladimir Putin, a OMS informou que está discutindo com as autoridades de saúde russas o processo para uma possível pré-qualificação para a vacina contra a covid-19 recém-aprovada, disse o porta-voz da OMS na terça-feira.

"Estamos em contato próximo com as autoridades de saúde russas e as discussões estão em andamento com relação à possível pré-qualificação da vacina pela OMS, mas, novamente, a pré-qualificação de qualquer vacina inclui a revisão e avaliação rigorosas de todos os dados de segurança e eficácia necessários", disse o porta-voz da OMS Tarik Jasarevic em coletiva da ONU, em Genebra, referindo-se a ensaios clínicos. 

A OMS ainda lista a vacina russa na fase 1 de produção. / WP e Agências internacionais

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