Divulgação/OSID
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Rússia diz negociar produção em massa da vacina com o Brasil e que imunidade pode durar 2 anos

Índia, Coreia do Sul e Cuba também estão em conversas com o Instituto Gamaleya, que desenvolveu a vacina SputnikV

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 10h57

Os especialistas do Instituto Gamaleya de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia, da Rússia, informaram em uma entrevista coletiva com mais de 300 jornalistas de todo mundo nesta quinta-feira, 20, que a vacina contra a covid-19 estará pronta para ser exportada em novembro. Eles confirmaram também que já negociam com o Brasil e outros países uma parceria para a produção maciça do produto. O imunizante sido visto com desconfiança pela comunidade científica pela falta de transparência na divulgação dos resultados dos testes e a rapidez das pesquisas. 

"Estamos conversando com outros países, como Índia, Brasil, Coreia do Sul e Cuba", afirmou Alexander Gintsburg, diretor do Instituto Gamaleya de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia, na Rússia, onde a vacina SputnikV foi desenvolvida. "Eles têm potencial para produzir a vacina, para servir de 'hub', de  base, para a distribuição da vacina."

Segundo Gintsburg a prioridade dos russos será a de negociar com países que queiram produzir o imunizante e tenham capacidade para tanto. No entanto, disse, há planos também para exportar a vacina.

O governo do Paraná assinou um protocolo de intenções com representantes russos para a participação nas testagens de fase 3 da vacina e, eventualmente, também na produção do imunizante. O governo da Bahia também confirmou que teve uma reunião com os russos em que uma paceria começou a ser discutida. 

A Anvisa informou, no entanto, que "até o momento o laboratório russo responsável pelo desenvolvimento da vacina não apresentou nenhum pedido de autorização de protocolo de pesquisa ou de registro da vacina."

A Sputnik V obteve um registro provisório do governo russo no início da semana passada, diante de várias críticas da comunidade científica internacional segundo as quais os russos não estariam cumprindo as etapas preconizadas internacionalmente para a aprovação de uma vacina.

Até agora, os russos não publicaram sequer os estudos referentes às fases 1 e 2 dos testes, que precisarão ser apresentados à Anvisa em caso de testagem no país. Na entrevista, os cientistas afirmaram apenas que o estudo será publicado em  uma grande revista científica ainda este mês.

"Não se trata de estabelecer preconceito com determinados países", frisou o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM), Juarez Cunha. "Temos várias vacinas sendo desenvolvidas em diferentes plataformas em diversos países. Apenas estamos receosos de que não sejam cumpridas as etapas usuais exigidas para qualquer vacina ou medicamento."

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que está em contato com autoridades russas para receber e analisar os dados, mas a vacina não está entre as nove já incluídas na iniciativa Covax, que visa à compra coletiva e distribuição da imunuização pelo mundo.

"Estamos vivendo uma situação atípica em que vários avanços estão sendo feitos muito rapidamente e muitos laboratórios não publicaram ainda dados ou publicaram dados parciais", constatou o especialista em vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flávio Guimarães. "Mas os russos levaram isso a um patamar extremo, em que além do fato de não terem apresentado absolutamente nenhum estudo ainda dizem que têm o registro da vacina pulando a fase 3."

Durante a coletiva realizada nesta manhã, os cientistas russos informaram que o registro provisório não os libera da fase 3 e que, paralelamente à testagem em massa da vacina, pretendem imunizar grupos mais vulneráveis, como profissionais de saúde atuando na linha de frente do combate ao novo coronavírus.

Segundo Denis Logunov, vice-diretor científico do Instituto Gamaleya de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia, a vacina russa foi testada em vários animais, como porquinhos da índia, coelhos, ratos e dois tipos de macacos, sem apresentar nenhum efeito colateral.

Posteriormente, informou, foi testada também em um grupo de 220 voluntários humanos, com idades de 18 a 60 anos. Os participantes apresentaram resposta imunológica positiva e os efeitos colaterais relatados foram brandos, como dores de cabeça. De acordo com os cientistas russos, esses testes corresponderiam às fases 1 e 2 das testagens.

Os voluntários estão produzindo anticorpos, seus organismos reagiram bem e todos apresentaram uma boa resposta imune, garantiu Logunov. Os russos explicaram que conseguiram chegar tão rapidamente a uma vacina porque estavam trabalhando num outro imunizante semelhante, contra a Mers - a síndrome respiratória do oriente médio, causada também por um coronavírus. Segundo eles, a vacina já havia chegado na fase 2, revelando segurança e resposta imune.

Por outro lado, eles também já tinham desenvolvido, em 2014, a partir da mesma metodologia, uma vacina contra o ebola, que foi testada, em fase três, em mais de duas mil pessoas.

"Com todos esses dados e baseados no fato de que a plataforma de adenovírus já foi usada antes em 20 mil pessoas, conseguimos o registro da nossa vacina, que nos permite produzir a vacina para os grupos de risco, pessoas que têm maior risco de ser afetados pelo vírus", explicou Logunov. "Mas somos obrigados a fazer mais ensaios clínicos, já acordamos um protocolo de 40 mil pessoas, para checar o grau de eficácia da vacina. Teremos, então, o registro definitivo, e poderemos começar a produção em massa."

A tecnologia usada engloba dois tipos de adenovírus humanos (que não causam nenhuma doença) que servem como vetores para levar para dentro do organismo fragmentos genéticos de uma proteína da coroa do Sars-Cov2. A vacina é administrada em duas doses, com intervalo de 21 dias. Os russos acreditam que ela poderá oferecer imunidade por dois anos.

Flávio Guimarães afirma que a estratégia russa faz sentido do ponto de vista científico. "A estratégia é interessante porque se usassem o mesmo adenovírus nas duas doses, o organismo poderia 'reconhecer' o vírus vetor e o inativá-lo", explicou. "Usando um adenovírus diferente, eles driblam esse problema."

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