Sabor não é o único vilão das calorias

O fato de pensar no sabor de uma torta de chocolate ou de um quindim pode ser o suficiente para muita gente salivar e pôr fim a qualquer regime. A culpa pelo estrago na silhueta é quase sempre creditada ao prazer iniciado logo nas papilas gustativas da boca e que acaba chegando ao sistema de recompensa do cérebro. Mas pode ser que o paladar não seja o único responsável pela preferência por comidinhas muito calóricas. Um estudo com camundongos que não têm a capacidade de sentir sabores mostra que eles acabam optando, depois de um tempo de experimentação, por um líquido adocicado em vez de água pura, mesmo que para eles não haja diferença de gosto. Na hora da escolha, o que parece importar na verdade, ao menos para esses animais, são os efeitos metabólicos proporcionados pela ingestão de caloria. A pesquisa foi apresentada no sábado pelo pesquisador brasileiro Ivan de Araujo, da Universidade Duke, durante o 2º Simpósio de Neurociência, em Natal (RN). Seu trabalho acrescenta novas ferramentas para as teorias sobre a obesidade. ?Muita gente acredita que o grande vilão da história é o paladar. Eu construí um modelo para separar o que é de fato responsabilidade dele e o que não é?, explica Araujo. Ele percebeu que os mesmos circuitos cerebrais que respondem à palatabilidade (o sistema de recompensa do cérebro, que é ativado tanto pelo consumo de chocolate, como por drogas, sexo e jogos), também são sensíveis à ingestão de calorias. ?É claro que a palatabilidade é importante para o consumo, mas estamos percebendo que ela não explica tudo. Os efeitos metabólicos podem exercer influência no comportamento?, diz ele. No experimento, ele colocou à disposição dos ratinhos que não sentem sabor, inicialmente, duas garrafas com água pura, uma de cada lado da gaiola. Por algum motivo não muito bem compreendido, os animais costumam ter um lado preferido e consomem mais dessa garrafa do que da outra. Na segunda etapa ele deixou a água pura no local preferido e misturou uma boa quantidade de sucrose na outra garrafa. ?Inicialmente, eles ficavam indiferentes, mas com o tempo vimos que eles trocavam de lado e começavam a consumir muito mais da água com açúcar. Eles não sentiam a diferença no paladar, mas perceberam que houve uma mudança no líquido. Mesmo se depois trocássemos as garrafas de lugar, eles aprenderam a consumir aquela que tinha mais calorias.? Na terceira etapa Araujo resolveu testar se realmente os bichos não estavam sentindo gosto e, em vez de sucrose, usou sucralose - um adoçante com o mesmo sabor, mas sem calorias. ?Aí o efeito de preferência desapareceu?, conta. ?Acreditamos que o sistema de recompensa é ativado por vias diferentes, uma do paladar e outra do efeito da caloria.? A recompensa metabólica acaba reforçando as propriedades da comida. Segundo Araujo, o córtex gustatório codifica a informação mesmo sem a presença do receptor do sabor. Em última instância talvez se consiga controlar a tão maléfica obesidade.

Agencia Estado,

26 de fevereiro de 2007 | 09h29

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