Hiroko Masuike/The New York Times
Hiroko Masuike/The New York Times

Saia, dizem especialistas, mas mantenha distância e tenha uma máscara à mão

Recomendações valem para quem vive em lugares onde as medidas de restrição estão sendo relaxadas

Michael Levenson, Tara Parker-Pope e James Gorman, The New York Times

19 de maio de 2020 | 16h23

O clima mais quente pelos Estados Unidos faz lembrar dos verões despreocupados — piqueniques no parque, nadar na praia, fogos de artifício no 4 de julho. Mas ninguém parece despreocupado agora.

À medida que os estados passam a relaxar as restrições destinadas a combater a pandemia de coronavírus, mesmo as atividades mais simples ao ar livre parecem repletas de mil perguntas e cálculos.

É seguro encontrar amigos no parque, desde que eles fiquem a dois metros de distância, do outro lado de um cobertor? Que tal um hambúrguer e uma cerveja em um restaurante ao ar livre? Qual é o risco de uma viagem à praia ou de uma ida à piscina com as crianças?

A boa notícia: as entrevistas mostram um consenso crescente entre especialistas de que, se os americanos vão sair de casa, é mais seguro ficar em áreas descobertas do que no escritório ou no shopping. Com ar fresco e mais espaço entre as pessoas, o risco diminui.

Mas os especialistas também expressaram especial cautela sobre refeições ao ar livre, usar vestiários de piscinas compartilhadas e de multidões em lugares como praias. Embora sair de casa possa ajudar as pessoas a lidar com o cansaço da quarentena, existe o risco de baixar a guarda ou encontrar pessoas que não estão em segurança.

"Sair de casa é importante para a saúde", disse Julia L. Marcus, epidemiologista e professora da Harvard Medical School. “Sabemos que o risco de transmissão do coronavírus é menor ao ar livre que em ambientes fechados. Em um fim de semana ensolarado e bonito, acho que sair é indicado, mas também acho que há coisas a se fazer para reduzir o risco (de contaminação).”

Embora muitas atrações aguardadas da temporada tenham sido canceladas ou fechadas, incluindo os parques de diversões da Disney, o festival Coachella na Califórnia e o Free Shakespeare in the Park em Nova York, os governadores de todo o país abriram campos de golfe, trilhas e praias, na esperança de restaurar alguma aparência de um verão normal para os americanos inquietos.

Alguns parques, incluindo pequenos em áreas urbanas como o Ellis Island e maiores como Joshua Tree National Park, permanecem fechados. Mas o Yellowstone reabrirá de forma limitada na segunda-feira, e o Grand Canyon reabriu sua entrada ao sul na sexta-feira. No condado de Los Angeles, as praias reabriram na quarta-feira, mas não para se bronzear. Somente atividades como corrida, natação e surf são permitidas.

Mesmo na região mais afetada de Nova York, algumas restrições serão atenuadas. Connecticut planeja permitir assentos ao ar livre em restaurantes e exposições ao ar livre nos jardins zoológicos na quarta-feira. Nova Jersey, Nova York, Delaware e Connecticut abrirão praias do estado no fim de semana do Memorial Day (última segunda-feira de maio), restringindo-as a 50% da capacidade. Mas as praias e piscinas da cidade de Nova York permanecerão fechadas.

As diferentes abordagens deixaram muitos americanos confusos em relação a como devem se comportar de modo seguro fora de casa. Os especialistas têm uma resposta simples: pratique o distanciamento social e use uma máscara quando isso não for possível.

Idealmente, as pessoas deveriam socializar apenas com aqueles com quem já convivem em suas casas, dizem eles. Se você decidir encontrar amigos, estará aumentando o risco, mas pode tomar precauções. É importante manter as reuniões com poucas pessoas. Não compartilhe alimentos, utensílios ou bebidas, mantenha suas mãos limpas e fique a pelo menos dois metros de distância de pessoas que não moram em sua casa.

"Estar ao ar livre é muito melhor do que em um ambiente fechado em quase todos os casos", disse Linsey Marr, professora de engenharia e cientista de aerossóis da Virginia Tech. "Há tanta diluição que acontece ao ar livre. Contanto que você fique a pelo menos dois metros de distância, acho que o risco é muito baixo.”

A vida durante a pandemia é mais segura ao ar livre, em parte, porque mesmo um vento leve dilui rapidamente o vírus. Se uma pessoa próxima estiver doente, o vento espalhará o vírus, expondo potencialmente as pessoas próximas, mas em quantidades muito menores, com menor probabilidade de serem prejudiciais.

"A carga do vírus é importante", disse Eugene Chudnovsky, físico do Lehman College e do Centro Universitário da Universidade da Cidade de Nova York. “Um único vírus não deixa ninguém doente, pois será imediatamente destruído pelo sistema imunológico. Acredita-se que seja preciso algumas centenas a alguns milhares de vírus SARS-CoV-2 para sobrecarregar a resposta imunológica.”

Embora o risco de transmissão ao ar livre seja baixo, isso pode acontecer. Em um estudo com mais de 7,3 mil casos na China, apenas um foi conectado à transmissão em ambiente aberto. Nesse caso, um homem de 27 anos conversou ao ar livre com um viajante que acabara de voltar de Wuhan. Sete dias depois, ele teve seus primeiros sintomas de covid-19.

"O risco é menor ao ar livre, mas não é zero", disse Shan Soe-Lin, professor do Yale Jackson Institute for Global Affairs. "E o risco é maior se você tiver duas pessoas que ficam paradas por um longo tempo próximas uma da outra, como deitadas em uma toalha na praia, e menor para aquelas que estão andando e passam por outras pelo caminho."

Um estudo recente descobriu que apenas falar pode lançar milhares de gotículas que podem permanecer suspensas no ar por oito a 14 minutos. Mas o risco de inalar essas gotículas é menor ao ar livre.

Para muitos americanos que passaram meses ansiosos em casa, os parques e as trilhas abertos parecem as opções mais seguras atualmente. No Memorial Park, em Maplewood, Nova Jersey, na quinta-feira, Gabriella Gabriel, 22 anos, estava se exercitando com sua amiga Candace Brodie, também de 22 anos, em colchonetes a alguns metros de distância na grama.

"As pessoas estão espalhadas e não há como alguém estar em cima de mim", disse Gabriella. "Mas em uma piscina ou praia, todo mundo está tão condensado — perto demais para se sentir confortável."

Os especialistas concordaram que o risco de nadar em piscinas, lagos ou oceano não é por conta da água, mas da exposição a pessoas dentro e perto da água. Embora os cientistas não tenham dados sobre o novo coronavírus especificamente, outros coronavírus não são estáveis na água e são muito sensíveis ao cloro, disse Angela Rasmussen, virologista da Escola de Saúde Pública da Universidade Columbia.

"O contato com a água da piscina, a água doce em um lago ou rio ou a água do mar teria um risco de transmissão extremamente baixo, mesmo sem diluição (o que reduziria ainda mais o risco)", disse Angela em um e-mail. “Provavelmente, o maior risco para a recreação aquática no verão são as multidões — um vestiário lotado, uma doca ou uma praia, especialmente se associado a um distanciamento físico limitado ou proximidade prolongada a outras pessoas. As fontes mais concentradas de vírus nesse ambiente serão as pessoas que ficam na piscina, não a piscina em si.”

Especialistas dizem que uma pessoa andando, correndo ou andando de bicicleta muito perto por alguns segundos não é uma grande preocupação. Mas eles recomendam que os corredores usem uma máscara ou alguma proteção que cubra boca e nariz se forem passar próximo de outras pessoas.

Se alguém coloca uma manta de piquenique dentro do seu perímetro de dois metros e planeja ficar um pouco por ali, essa é uma preocupação maior. Tente evitar o contato com outras pessoas. Isso apenas aumenta o risco de exposição. Tais encontros podem ocorrer à medida que mais pessoas saem de casa.

Um desafio em cidades densas é encontrar dois metros para chamar de seus em uma pista de corrida ou em uma ciclovia. Um café ao ar livre pode parecer seguro, até as pessoas começarem a andar na calçada sem máscaras.

Algumas cidades, incluindo Nova York, Boston, Minneapolis e Oakland, na Califórnia, fecharam as ruas para o trânsito, dando espaço para as pessoas se espalharem. Outras estenderam calçadas para dar mais espaço aos pedestres e aos assentos ao ar livre.

Outra preocupação: como pode levar duas semanas para que os sintomas apareçam depois que uma pessoa é infectada, não há como saber se você está indo à praia ou ao parque no meio de um surto local invisível, disseram especialistas. É mais um motivo para tomar precauções.

"Se voltarmos agora ao antigo normal e não seguirmos mais a estratégia de distanciamento social, será como uma bomba-relógio", disse Peter Jüni, epidemiologista da Universidade de Toronto e do Hospital St. Michael. "Você nunca sabe onde e quando explodirá". / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.