Olya Adamovich/Pixabay.com
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Saiba como criar um bom ambiente para os filhos depois do divórcio

Para ajudar pais e mães nessa fase, especialistas dão dicas de como falar sobre a separação com as crianças e fazer um espaço especial para elas na nova casa

Hanna Ingber, The New York Times

09 de abril de 2022 | 05h00

No dia em que meu ex e eu tivemos de contar aos nossos filhos que estávamos nos divorciando, sentamos no sofá da sala enquanto eles brincavam no tapete. Foi um momento crucial. E Isaac, de quase 5 anos, sentindo que algo grande e transformador estava para acontecer, tinha uma pergunta muito importante: o que iria acontecer com seus Legos?

Um dos aspectos mais difíceis do divórcio com filhos talvez seja dizer adeus ao lar conjugal como era antes e criar uma nova configuração para as crianças, seja para um acordo de guarda compartilhada ou visitas curtas. Além de ser um desafio em termos de logística, criar um novo espaço também pode carregar todo o peso emocional do divórcio. A decisão de quebrar o que deveria ficar intacto ocorre em meio a brigas por móveis e brinquedos favoritos.

E isso acontece em um momento no qual muitas pessoas estão com raiva e sobrecarregadas. Como disse Jann Blackstone, mediadora de custódia de filhos e autora de seis livros sobre divórcio e coparentalidade: “A maioria das pessoas não está no seu melhor durante os términos”.

Para as crianças envolvidas, acertar essa transição é fundamental. “As crianças operam no pressuposto de que seu mundo é estável e continuará estável. Então, quando vem o divórcio, a base do sistema de crenças das crianças fica abalada de uma maneira que muitas vezes as faz questionar sua realidade”, disse Julie A. Ross, diretora executiva de uma organização de educação em parentalidade, a Parenting Horizons. “As crianças se perguntam: ‘Meus pais vão se divorciar de mim?’”.

Ross disse que os pais precisam mostrar aos filhos de forma concreta que a família e o sentimento de pertencimento vão ficar bem.

“O espaço físico é uma representação concreta do espaço emocional”, disse ela.

Aqui vai um guia para ajudar pais e mães a enfrentarem a situação. O guia traz as melhores práticas de especialistas em coparentalidade e dicas de pais e mães que nos escreveram para contar como passaram pela experiência.

Prepare-se

“É importante que os pais e mães tenham uma ideia de como será a vida das crianças e como apresentar isso para elas”, disse Blackstone. Jerome A. Scharoff, advogado de divórcio e pai em Merrick, Nova York, disse que quando ele e sua ex estavam se preparando para se separar, ele garantiu aos filhos que ficaria na mesma cidade que a mãe. Ele aconselha seus clientes que compartilham guarda a morar perto dos ex.

Antes de meu ex e eu contarmos aos nossos meninos que estávamos nos separando, comecei a conversar com eles sobre crianças que eles conheciam e que tinham pais divorciados. Eu queria que meus filhos vissem o divórcio como algo relativamente normal, não algo para se temer ou de que se envergonhar, antes de eles saberem o que estava por vir.

Fale a respeito

Pode parecer óbvio, mas é essencial explicar o que está acontecendo a seus filhos. Algumas pessoas ficam tão abaladas com o divórcio que não falam com seus filhos sobre o assunto. Mas as crianças têm perguntas e precisam de informações para ajudá-las a processar tudo.

Depois que meu ex e eu decidimos nos divorciar, dei para meus filhos quase todos os livros infantis que pude encontrar sobre famílias com duas casas. Meus filhos os devoraram. Eles pareciam ansiar pelas informações que esses livros continham e os puxavam das prateleiras na hora de dormir para que eu os lesse toda noite. Alguns dos favoritos foram Two Homes, de Claire Masurel, e Emily’s Blue Period, de Cathleen Daly.

Crie um espaço especial

Depois chega a hora de resolver onde seu filho vai ficar no novo lugar. Especialistas em parentalidade me disseram que é crucial criar um espaço que pertença inteiramente ao seu filho. Ross disse que, se você não pode dar um quarto para seu filho, você pode pegar um canto da sala e pôr uma estante, uma cama e um móvel para roupas. Arrume pôsteres, colchas, travesseiros ou qualquer outra coisa para deixá-lo mais aconchegante.

“Você não quer que seu filho se sinta uma visita na sua própria casa”, disse ela. Pontos extras se você colocar uma foto do seu filho com a pessoa de quem você se separou.

Envolva as crianças

Chame seus filhos para decorar o espaço. Isso pode facilitar a transição e dar a eles algum controle sobre o que está acontecendo. Ann Reitan, de Bend, Oregon, disse que seu filho, então com 9 anos, ficou preocupado com a segurança da família depois que os pais se separaram. Nos primeiros anos, ele verificava se a casa estava trancada e sempre trancava as portas do carro.

“Deixá-lo ter escolhas deu a ele uma sensação de controle numa situação que ele não tinha como controlar”, escreveu Reitan. “Ele também pôde escolher a cor da pintura de um dos banheiros – laranja bafo de dragão não é algo que eu escolheria, mas ele ainda gosta.”

Kay Thomas, professora do South Carolina Honors College, disse que levou a filha para ver apartamentos depois que decidiu se separar. “Deixá-la escolher o lugar para morar e a mobília do quarto a fez se sentir especial, ela não ficou de fora do processo”, disse. Desde então, Thomas fundou uma organização e um podcast para ajudar as pessoas que estão enfrentando o divórcio.

Victoria Shestack Aronoff, de Maplewood, Nova Jersey, disse que a parte mais difícil foi perceber a mudança dos filhos naquelas circunstâncias. “Eu ficava o tempo todo me preocupando com o fato de que estávamos nos mudando de uma casa grande e maravilhosa para um apartamento pequeno e ruim”, escreveu ela.

Mas ela tentou parecer animada com a mudança, dizendo aos filhos: “‘Olha, seu quarto já está pintado de azul com borboletas! Olha, a sala é marrom e laranja!’ (Horrível na época e horrível ainda hoje, dez anos depois). ‘Uau, vamos dividir o quintal com outras três pessoas, que divertido!’”

Ela disse que seus filhos, então com 3 e 6 anos, adoraram o novo lugar e concordaram com sua sugestão de que era um “país das maravilhas”.

Pense além da cama e da escova de dentes

Quanto mais você puder fazer com que ambos os lugares deem a sensação de casa – mesmo que a criança venha só durante as férias ou feriados – melhor. Isso significa, se possível, ter escova de dentes, pijama, roupas, brinquedos e livros nos dois lugares. Tente reduzir o máximo que puder o que seu filho carrega de um lugar para o outro.

Mas pense nas coisas que fazem um lar. “Quando a criança vem, o mais importante é que ela se sinta parte da família e que os outros membros da família também a vejam dessa maneira”, disse Blackstone, explicando que você deve dar tarefas para as crianças, mesmo que elas só venham de vez em quando.

Meus pais se divorciaram quando eu era pequena e, quando criança, me incomodava que, quando ia para a casa do meu pai, tínhamos apenas geleia de uva e pão branco, presumivelmente o que minha família adotiva preferia. Eu sou uma pessoa mais morango e trigo integral – e não ter essa opção disponível fazia com que eu me sentisse uma visita, não uma parte integrante da casa.

Um pedido do meu eu de 11 anos: se você for madrasta ou padrasto e fizer as compras da casa, pergunte aos seus enteados que tipo de comida eles querem na geladeira.

Não implique com as regras

Pode parecer um pouco controverso, mas esqueça esse negócio de ter as mesmas regras em ambas as casas. Se você e seu ex conseguissem concordar na criação dos filhos, vocês provavelmente não estariam se divorciando. Além disso, embora eu possa estar um pouco traumatizada com o lance da geleia de uva, posso confirmar que cresci com regras totalmente diferentes nas duas casas e isso não me afetou. Meu pai nos deixava ficar acordados até tarde, assistir a filmes proibidos para menores e pular um banho ou outro – era incrível.

Ross disse que, fora das questões de segurança, quando os pais e mães tentam impor as mesmas regras em ambas as casas, surgem conflitos desnecessários. Quando pais e mães brigam por coisas como tarefas domésticas ou a hora de dormir, ela disse, surge o risco de forçar os filhos a escolher um lado e possivelmente se sentirem desleais com o outro.

Algumas pessoas temem que isso possa causar confusão, mas Ross disse que acha que as crianças conseguem lidar com essa realidade. “As crianças vivem o tempo todo com regras diferentes”, disse ela. “As regras na escola são um pouco diferentes das regras em casa, e elas se ajustam numa boa”.

Não esqueça os filhos em idade universitária

Um leitor pediu que abordássemos como pais divorciados que têm filhos jovens devem lidar com a situação.

Blackstone disse que às vezes as coisas ficam confusas para os jovens cujos pais se separam quando eles estão na faculdade. “Imagine chegar na sua cidade natal nas férias e não saber para onde ir”, disse ela.

Essa faixa etária também pode sentir que a separação muda tudo o que eles acreditavam sobre a infância, disse Ross. Eles sugeriram que os pais e mães se sentem com os filhos jovens e conversem sobre o assunto, reconhecendo que deve ser difícil para eles.

Nada disso é fácil. Meus filhos tiveram a experiência de ver os pais se mudarem quatro vezes nos últimos anos. Em nossas várias mudanças, meu ex e eu continuamos morando perto um do outro, o que foi bom para Isaac e seu irmão, Aarav. E, a cada vez, meu ex e eu tentamos aprender com os erros anteriores.

Na minha última mudança, meus meninos desenvolveram uma estratégia de como lidar com seus Legos. Eles os embalaram em caixas que não foram no caminhão da mudança. Eu levei as caixas comigo.

Quando desempacotamos, algumas de suas criações de Lego haviam se quebrado. No primeiro momento, Isaac ficou desapontado e muito frustrado. Mas depois ele percebeu que tinha apenas uma opção: reconstruir.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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