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Saídas para a dor

Não podemos nem deixar de falar do tema nem reforçá-lo como válido contra sofrimento

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 17h03

Já aconteceu com você. O sol está forte e a gente mal consegue abrir os olhos, até que entramos em um lugar fechado e aí sim não enxergamos mais nada. O contraste súbito atrapalha a visão. E quando voltamos para nossos silenciosos aposentos vindos de uma festa barulhenta? Aquele silêncio soa estranho aos ouvidos.

Coisa parecida acontece quando temos visitas por um tempo em casa e de repente elas se vão. Uma sensação de vazio toma conta do lugar. Ao alívio soma-se a solidão, um desconfortável sentimento de “E agora?”. Os nativos Baining, de Papua Nova Guiné, têm nome para esse sentimento: awumbuk. Eles acreditam que os visitantes deixam para trás um peso para viajar mais leve, trazendo sofrimento e atrapalhando por três dias a vida de quem fica. Mas eles têm uma receita: põe uma tigela com água repousando descoberta no meio da casa durante a noite, depois que os visitantes partem, para que ela absorva o awumbuk. Na manhã seguinte, jogam a água nas árvores e tudo se restabelece.

Os sofrimentos emocionais são, ao mesmo tempo, experiências desagradáveis e inevitáveis. Apesar de tão constantes, nós nunca nos acostumamos. Toda cultura cria maneiras de tentar livrar-se deles. O ritual dos Baining é apenas um exemplo de prática cultural para enfrentamento de emoções negativas.

Nossa sociedade também tem os seus meios incorporados à cultura. Quem nunca ouviu o conselho de ir às compras para espantar a tristeza, por exemplo? Ou de socar um travesseiro para se livrar da raiva? Assim como a tigela de água dos nativos, tais receitas são adotadas menos por sua eficiência clinicamente comprovada e mais pela influência de práticas culturais. Quanto mais difundidas, mais elas parecem fazer sentido.

A automutilação e as tentativas de suicídio aparentemente vêm se incorporando ao repertório cultural, sobretudo dos mais jovens, de formas de lidar com o sofrimento. Tentar se matar revela a presença de uma dor que parece insuportável, mas também quem se fere sem a intenção de morrer tem como principal motivação o alívio de pensamentos ou sentimentos. Como se faltassem outros recursos para lidar com eles que não calá-los à força de sua disputa com a dor física.

O dilema que se cria é que, se não podemos deixar de falar do tema, uma vez que ele tem se tornado parte das vivências dos mais jovens, temos de fazê-lo de forma a não reforçar sua incorporação ao leque de recursos culturalmente validados para alívio do sofrimento. Caso contrário, podemos incorrer no erro do fenômeno 13 Reasons Why. Uma pesquisa publicada este mês mostrou que no mês seguinte à estreia da série – que conta como uma adolescente se matou em razão de seus sofrimentos na escola – houve um aumento de 29% nos suicídios na faixa etária de 10 a 17 anos nos Estados Unidos. Ao apresentar o suicídio como uma saída para a protagonista, de alguma forma a série valida o comportamento.

Acredito numa abordagem diferente. Dar a dimensão real do problema e sugerir alternativas. No fim do ano passado foi publicada uma meta-análise com dados referentes à autolesão em quase 600 mil adolescentes nos últimos 25 anos. Antes de eu revelar o número, gostaria de propor um exercício ao leitor: tente adivinhar qual a porcentagem de jovens já se cortou de propósito. Arrisca um palpite? Vamos lá: a prevalência do problema foi de 16,9% de autolesão pelo menos uma vez na vida. Ou, dizendo de outra maneira, 83,1% dos jovens nunca se feriu intencionalmente. Além disso, dos que o fizeram, praticamente metade o fez uma ou no máximo duas vezes na vida. 

O fato de mais de 90% dos adolescentes não terem na automutilação um problema grave não significa que ele não mereça atenção. Em números absolutos, os que o fazem são muitos e requerem cuidados. Mas, por mais que cientistas e jornalistas precisem investigar por que alguns jovens lidam dessa forma com o sofrimento, é preciso lembrar que a maioria ainda tem outras saídas melhores. Identificar quais são elas e reforçar seus aspectos positivos – divulgando-as a ponto de serem incorporadas também em nossa cultura – pode ser uma excelente estratégia de prevenção. 

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