Marcos Santos / USP
Marcos Santos / USP

‘São fatos: testagem e isolamento devem começar já’

Virologista da USP afirma que não é possível esperar mais diante da curva epidemiológica do novo coronavírus

Entrevista com

Paolo Zanotto, virologista, USP

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 12h00

RIO - Virologista da USP responsável pela pesquisa de vírus emergentes, Paolo Zanotto lança, em tom dramático, um apelo público para enfrentarmos imediatamente o novo coronavírus. É preciso implementar - já - medidas de testagem em massa e distanciamento social, se quisermos evitar um colapso total do sistema de saúde por causa do covid-19, afirma. Segundo ele, não dá para esperar mais.

“Não estou aqui tentando disputar ideia de especialista, estou tentando falar sobre fatos; como cientista, isso é muito mais importante do que uma opinião”, disse. “Estou tentando alertar a sociedade e os gestores: os países que conseguiram implementar as intervenções não farmacêuticas mais rapidamente mantiveram uma curva de crescimento da epidemia mais achatada e não destruíram o sistema de saúde.”

Leia a entrevista que Zanotto deu ao Estado.

Por que o senhor acha que devemos apressar as medidas de isolamento no Brasil mesmo ainda tendo poucos casos de Covid-19? Muitos especialistas acham que podemos esperar mais um pouco...

Não importa o que os especialistas acham, a opinião deles. O que importa, em ciência, são os fatos. Então, é só olhar para o que está acontecendo no mundo, olhar para a curva epidemiológica dos outros países.

E o que essas curvas nos mostram?

Os países que tomaram as medidas mais precocemente, como Cingapura, Japão, Coreia do Sul e Hong Kong, conseguiram manter a curva de crescimento do número de casos mais achatada, ou seja, conseguiram evitar o crescimento exponencial do número de casos. Por outro lado, Itália, Irã, França e Estados Unidos estão tendo um crescimento exponencial. Na Lombardia, que é uma das regiões mais ricas da Itália, o sistema de saúde está em colapso total porque demoraram a agir. Faltam respiradores, e os mais idosos estão sendo deixados para morrer para que os mais novos possam ser salvos. Então, não estou aqui tentando disputar ideia de especialista, estou tentando falar sobre fatos, como cientista isso é mais importante que opinião. Estou tentando mostrar e alertar a sociedade e gestores. Países que conseguiram implementar intervenções não farmacêuticas, como testagens maciças, isolamento dos doentes e medidas de distanciamento social, mantiveram uma curva de crescimento achatada e não destruíram o sistema de saúde.

O senhor poderia detalhar melhor essas medidas?

Precisamos testar o maior número possível de pessoas, fazer uma testagem maciça mesmo. Temos que isolar os que estiverem com o covid-19 e seus contatos mais próximos. Paralelamente, é preciso adotar e ampliar medidas de distanciamento social, como evitar aglomerações, incentivar o trabalho e o estudo em casa, o isolamento dos idosos. As curvas de crescimento da doença estão mostrando um comportamento ascendente moderado nos países em que essas medidas foram implementadas no momento correto. Eles estão conseguindo controlar o surto porque fizeram intervenções antes do crescimento exponencial e conseguiram impedir a saturação do sistema hospitalar.

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